O som e o tempo

No final de 2006 estive às voltas com dois conceitos com os quais não tenho muita afinidade: som e tempo. Tenho péssimo ouvido para música e prefiro, sempre, a expressão escrita, mais afeita à razão, aos argumentos. Também prefiro pensar sobre as coisas eternas, imaginar que o tempo é um tanto uma ilusão ou convenção nossa.
De repente caiu no meu colo a atribuição profissional de conduzir e divulgar algumas entrevistas, obrigando-me a aprender a lidar com arquivos de áudio. Como adoro aprender coisas novas entusiasmei-me em buscar programas de tratamento de áudio, lidar com seus recursos, verificar o que faziam os botões e filtros, obter progressivamente os resultados.
Depois de alguns dias fui me acostumando a ver as palavras também como um conjunto de ondas. Eu que me importo quase que só com o conteúdo delas passei a me interessar por elas também enquanto formas puras. Eu, que gosto de pensar mais na eternidade do que no tempo, me vi lidando com milésimos de segundo e vendo como eles são relevantes na edição de uma entrevista.
Imaginar que as palavras também são apenas ondas mecânicas, compostas de quase infinitas frações mínimas de tempo, ao invés de conceitos mágicos que ao menos enquanto tendência visam a eternidade não prejudicou minha relação com elas. Deu-me, talvez, a dimensão do caráter meio mágico que elas tem.
Logo que tive tempo para aproveitar em outros campos o conhecimento recentemente adquirido passei a vasculhar arquivos de músicas, recitações religiosas e outras fontes de áudio tentando ver se esta mágica era perceptível no formato das ondas ou nas frações de milésimos de segundo. Sempre acreditei no simbolismo sonoro, intangível e inexplicável, que recheia recitações devocionais diversas – como digo sempre já pude sentir com clareza o efeito da leitura do Sagrado Alcorão mesmo sendo uma língua que eu compreendo pouco.
É evidente que o segredo não está no formato das ondas, mas não deixa de ser curioso a obediência a certas regras, as amplitudes, as freqüências, até mesmo é possível enxergar as rimas em uma onda que se repete com impressionante regularidade na voz de um recitador de qualidade. Impossível descrever a sensação de ver uma rima em sua forma pura, livre do convencionalismo humano e sujeita apenas à regularidade da forma totalmente abstrata.

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