o sagrado do cotidiano
A despeito do que possa parecer a quem me lê sempre, não sou uma pessoa religiosa, ao menos não no sentido convencional do termo. Não tenho o hábito de discutir religião, tenho certa aversão a reuniões religiosas públicas – o que numa fé tão comunal como a que escolhi deve ser quase um pecado – e prefiro compreender os deveres religiosos em um sentido muito interior, talvez mesmo beirando certa concepção “herética”.
Ao mesmo tempo sinto que poderia dizer exatamente o inverso. Que sou sim uma pessoa religiosa no sentido de que jamais me afasto da crença e da certeza de que Deus está comigo o tempo todo e observa cada coisa que faço e desta convicção esforço-me por agir da forma correta, com disciplina, com justiça, com amor. Se mais acerto ou erro nas minhas suposições de agir corretamente acho que só Ele pode dizer, não deixo contudo de agir e assumir os riscos, já que a única forma de não errar é não fazer nada ou apenas cumprir ordens.
Tento não confinar minha fé, repleta mais de dúvidas que de certezas, a algum ritual, mesmo reconhecendo a importância deles, mas trabalho com a meta de deixá-la transbordar na minha vida cotidiana. É verdade que não é fácil romper com as fronteiras que separam o sagrado do profano – ainda mais neste mundo cada vez mais profano – mas certamente é um exercício necessário de atenção.
Fora deste textos que escrevo fundamentalmente para mim e de algumas poucas conversas quase não me vêem falar de religião e de Deus. A maior parte das pessoas que convivem comigo como colegas e conhecidos, por sinal, me julga até um cético e não poucos já tentaram me converter ou chamar a minha atenção para alguma religião.
No meu coração, contudo, esforço-me por construir aquela disciplina de que falam os mais diversos mestres das mais diversas fés, a ação refletida que deixa de lado os impulsos, desliga o “piloto-automático” e nos faz perceber que o sagrado está ao nosso redor e dentro de nós. Só posso dizer que não é fácil, quantas vezes a concentração não se esvai no stress do trânsito quando solto um palavrão com alguma barbeiragem do vizinho, quantas vezes não se perde a paciência em uma conversa deixando de lado a compreensão que se devia ter, para não falar que a cada vez que acendo um cigarro me sinto tão longe da disciplina que gostaria de ter.
Resisto à tentação de ser condescendente comigo mesmo, mas também não me deixo deprimir pela culpa, este sentimento tão negativo que nada acrescenta e nos tira a força para lutar. Traço minhas metas, avalio meus erros, faço o balanço das vitórias e derrotas e sigo em frente. De um lado sei que muito provavelmente sou incapaz de faltas graves – daquelas que prejudicam aos outros – mas sempre me imagino capaz de infinitas pequenas indisciplinas, ao mesmo tempo esforço-me para que as vitórias não sejam fonte de orgulho, destruindo o que teriam de positivo.
Desculpar-me considerando-me humano e portanto passível de falhas não é algo que me conforta, como ouço tantas vezes pessoas mais religiosas que eu fazerem. Porque se somos humanos temos todos também uma porção divina que deveria ser um claro farol de nossos atos e se não é é por conta de nosso apego a este mundo. Mas não desespero da Misericórdia de Deus, nem me acovardo diante da vida e pro mais que a meta de “estar no mundo sem ser do mundo” seja uma meta ambiciosa demais não desisto dela enquanto objetivo.

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