O périplo de Maalouf

Tenho uma relação passional com os livros, às vezes até me sinto como aquele personagem de Hesse, nas fábulas, que vive cercado por uma muralha de livros. Não consigo viver sem eles e descobrir um bom livro é sempre uma grande fonte de felicidade.

Tento ler cada um de forma ingênua, esforçando-me para deixar o autor me convencer de seu ponto de vista, lição que aprendi de Lobato, capaz de produzir artigos e resenhas maravilhando-se com livros totalmente opostos, com igual entusiasmo, a ponto de muita gente ainda hoje confundir-se sobre alguma pretensa filiação de Lobato a algum sistema dos mais diversos. Mas já falei um bocado sobre isto na semana passada e não quero repetir.

Há muita coisa a julgar em um livro, mas certamente ele precisa ser avaliado pela sua qualidade, mais do que por circunstâncias históricas ou biográficas, menos ainda pela posição política de seu autor. Como disse alguém, acho que Borges, na arte e na literatura só a mediocridade é reacionária, motivo pelo qual por sinal tolero muito pouco poesia política, termo que por si só é contraditório.
Pego como exemplo um dos meus autores preferidos, Amin Maalouf, aproveitando que tenho tido a oportunidade de discutir o autor em correspondência com uma amiga que o estuda em profundidade. Com exceção, talvez, daqueles autores que não consigo deixar de reler, como Borges e Lobato, acho que não li e reli mais nenhum outro autor do que ele. Contabilizo umas 20 leituras de Samarkanda, sem contar a releitura de algum trecho para checar alguma história.

Cada um vê em um livro aquilo que gosta, assim não faz muito sentido falar que um livro seja melhor que outro, mas eu gosto de boas histórias, de enredos, enquanto costumam me irritar os perfis psicológicos que ao invés de serem incidentais tornam-se o centro da história, como se andássemos por ai com as neuroses às vistas e não como se elas pudessem ser percebidas apenas aos olhares atentos nos detalhes reveladores.

Assim admiro a capacidade com a qual Maalouf constrói uma história, como seus romances históricos – até mesmo As Cruzadas vistas pelos Árabes que a rigor não é um romance - assemelham-se a livros de contos, tal a profusão de pequenas histórias interessantes com as quais são tecidos. Acho até que em alguns casos as pequenas histórias compensam um conjunto ruim, assim - de todos estes pequenos contos – a história do funcionário otomano que precisa fingir-se de corrupto é meu preferido apesar de estar em um livro – O Périplo de Baldassare – que considero fraco no conjunto, como se o autor tivesse cansado dele antes de terminá-lo.

Admiro, também, como não precisa recorrer a psicologismos para construir personagens de grande solidez e complexidade, em grande parte usando as pequenas histórias que mencionei do que sessões de psicanálise.

Quem lê um livro traduzido não tem muito como avaliar a forma propriamente dita, mesmo conhecendo a língua é difícil avaliar estas questões não sendo um falante nativo, sobra assim quase que só o conteúdo para ser pesado. Não sei se isto explica porque meus amigos persas, e até alguns franceses, ficam muito irritados quando se fala mal de Paulo Coelho, talvez o gosto persa pela repetição das velhas histórias, a saturação dos franceses com os romances psicológicos, uma reconstrução do tradutor que salve a construção original pobre tenha o tornado motivo de admiração. O pequeno tamanho da comunidade de Amin Maalouf no Orkut – grande parte deles brasileiros, por sinal, me deixa com a pulga atrás da orelha se não ocorre o mesmo. Enfim, em qualquer caso, abstenho-me de emitir qualquer comentário sobre a questão formal e fico apenas no conteúdo, vendo em Maalouf um grande contador de histórias, qualidade que mais aprecio em quem leio.

Colocado tudo isto, admirar profundamente Maalouf como escritor não me leva em momento nenhum a compartilhar da visão política – e em certa medida histórica – que ele expressa em seus livros, a meu ver muito marcada por certa visão “orientalista” e sobretudo comprometida com algum tipo de “ocidentalização” do mundo islâmico como salvação para o mundo muçulmano. O fato dele ser muito popular entre tantos muçulmanos brasileiros – assim como Tariq 'Ali, outro ocidentalizante, e até mesmo Nagib Mahfouz, odiado pelos mais tradicionais (que ainda preciso ler para ter uma opinião,como fiquei devendo a uma amiga) e quase arrisco que não fosse o incidente bem conhecido de Versos Satânicos, até Salman Rushdie estaria nesta lista – é por si só um fenômeno socio-cultural que merece uma análise à parte.

É evidente que os personagens centrais de Maalouf serem, sem exceção, indivíduos que sentem-e deslocado no meio, não compartilhando as idiossincrasias das suas comunidades ou buscando mundos novos, para não dizer o fato dele escrever em francês, não em árabe, é em si um manifesto político, sem que isto prejudique a obra, a não ser talvez no caso de Baldassare.

O combate à intolerância religiosa, a denúncia da manipulação política utilizando a fé, a luta pelas liberdades e direitos individuais, a importância dada à modernização, a condenação da intriga política nas cortes, enfim todos os grandes temas políticos de Maalouf estão lá, desde As Cruzadas, alcançando, na minha visão, o auge em Samarkanda, chegando a um ponto crítico em Leão, o Africano - no qual parece prevalecer a função de que nenhum mundo se salva – e chega a um certo declínio no Périplo de Baldassare, no qual pareço sentir um protagonista cansado de buscar esperanças, decidindo aportar em um porto seguro estabelecido como próspero comerciante. Aguardo a oportunidade de ler o último livro para ver se acho argumentos contra ou a favor desta linha evolutiva.

Simpatizo com algumas destas causas, desconfio de outras e vejo com antipatia várias outras, nenhuma destas três opiniões é suficiente para me fazer gostar ou desgostar do livro porque uma obra não pode ser julgada em função de nossos conceitos e preconceitos políticos. Maalouf tem o mérito de não imiscuir as coisas de uma forma tal que cada coisa possa ser julgada separadamente, por si só isto lhe dá um mérito que justifica lê-lo.

Comentários

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Amin Maalouf

Eu tive a oportunidade de conhecer o Amin Maaluf por acaso em Munique na Alemanha e nos conversamos quase uma hora sobre a cultura árabe e muçulmana.
Ele é igual aos livros que ele escreveu, muito interessante,com uma cultura enciclopédica.
Foi um momento privilegiado de ter encontrado ele.

Leitora de Amin Maalouf

Amin Maalouf faz parte de um pequeno lote de escritores dos quais leio tudo que encontro. Foi, para mim, se não estou em erro, com o livro "Le rocher de Tanios" a revelação de que ainda se podiam escrever belos romances como antigamente. Sem um minuto de chatice, com a maior empolgação e, no entanto, um ar bem do nosso tempo.
Acho que li tudo, salvo alguma novidade que ainda não me chegou à vista. E tenho imensa dificuldade em dizer qual me agradou mais. Talvez "Léon l'Africain".

Aí está uma pessoa que eu gostaria de conhecer!

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