O mundo está na mente de Pessoa

Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.(Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego)

Meu grande débito com Pessoa é ter aberto, há alguns anos, para mim as portas da Poesia, que até então não tinham entrado em minha vida, salvo de relance, nem eu entrado no mundo dela salvo por alguma rápida visita ocasional. Ainda hoje me causa espanto como pude viver sem a poesia, antes daqueles dias há uns 6 ou 7 anos quando fiquei pro dias imerso na poesia de Pessoa. Curiosamente penso que o fato da mais profunda poesia de Pessoa estar em prosa no Livro do Desassossego não é de forma nenhum um paradoxo.
Seguindo o padrão de tantos textos capazes de lidar com a metafísica, Pessoa não assume a autoria do Livro, escrito e entregue a ele por um modesto empregado do comércio que todos os dias jantava calado no mesmo restaurante, Bernardo Soares – heterônimo que talvez seja mais Fernando Pessoa que ele-mesmo. No próprio fato de dar autoria a outro da sua “autobiografia sem fatos” há uma reflexão, diz ele:


“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.”

Muitas coisas poderiam ser destacadas no contexto deste livro escrito para gerar assombro, não a calma admiração, para gerar perguntas – como todo livro de verdade – não para dar respostas. Na desculpa de falta de espaço destaco dois pensamentos, relacionados e distintos. A primeira é o esforço de manter-se impassível a tudo que lhe é externo, como diz ele:

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar’ a realidade da nossa vida.

Esta questão da capacidade de lidar com as miudezas do mundo com tal resignação que elas chegam a parecer agradáveis aparece sobretudo na forma como Pessoa/Soares se refere até com futura saudade de seu trabalho rotineiro, quase mecânico, como ajudante de guarda-livros na Casa Vasques. Diz mesmo que teria saudades daquela via e de seus colegas de trabalho e até do Patrão Vasques – que ele explicitamente diz ser uma metáfora da vida - se fosse retirado daquela vida pequena e mesquinha.

”Tudo quanto de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes - deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só tem que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.”

A resignação, de fato, na visão dele, não constitui em conformação é antes uma profunda indiferença, em poder-se ver como se fosse externo a si mesmo e portanto enxergar que é possível ser indiferente à sorte que nos cabe porque o real está na mente, capaz de vagar por tantos mundos e criar. Assim chego ao outro ponto que gostaria de destacar e com o qual há uma relação essencial com este primeiro da indiferença com o mundo: a tentativa, mesmo condenada de antemão ao fracasso, de conceber o absoluto que ábsides na mente. Diz ele:

“Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, repolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.”

Na minha mente associo sempre as narrações de seus mundos imaginários feita por Pessoa com a bela história de Valmiki, o primeiro poeta a compro em Sânscrito, que segundo o mito teria visto as batalhas que consagrou no Ramayana em um espelho de água em sua mão, história que inspirou tantos contos a Borges. Desta analogia, pro sinal, tirei o título deste texto. Diz Pessoa:

”Penso às vezes no belo que seria poder, unificando os meus sonhos, criar-me uma vida contínua, sucedendo-se, dentro do decorrer de dias inteiros, com convivas imaginários com gente criada, e ir vivendo, sofrendo, gozando essa vida falsa. Ali me aconteceriam desgraças; grandes alegrias ali cairiam sobre mim. E nada de mim seria real. (...) E tudo nítido, inevitável, como na vida exterior. “

Boa parte do Livro do Desassossego é dedicada justamente a destacar que o mundo é ilusório e só existe na mente, porque é nela que este mundo é percebido. Assim a verdadeira grandeza, o verdadeiro conhecimento está na alma. A riqueza da alma, diz ele, está onde o indivíduo está, não adianta procurá-la em lugar algum e mais valeria imaginar nela esta riqueza do que viajar pela ilusão de encontrar algum tesouro enterrado.
Do contraste entre os mundos da imaginação e a sordidez do mundo é raro que Pessoa diga algo relativo à política. Nas poucas vezes que o faz é com uma perspectiva extremamente conservadora, mas não com esta falácia do conservadorismo político, mera desculpa para a a garantia de privilégios imerecidos gritada por aqueles que só pro gritar já demonstram seu imerecimento. É pelo contrário a postura conservadora daquele que por ser de fato nobre está preocupado em aprimorar a si mesmo e afastar-se do mundo, das suas ostentações e misérias.

”Revolucionário ou reformador - o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.”

Comentários

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Sobre diagramação e sobre Fernando Pessoa

Prezadíssimo Sheikh Hilal(Alexandre)

Ótimo! Agora as suas crônicas estão "líveis", sem causar dor de cabeça em quase idosos como eu, ao ter que separar visualmente linhas e parágrafos, antes quase entrelaçados.

Qto a Pessoa apenas posso dizer do meu desassosego em quase nada dele ter lido, apesar de possuir as obras completas, e fiquei agora tentado a lê-lo com vagar e atenção e aí tentar transformar em realidade as ilusões que me corroem.

Gostei por demais da sua crônica.

Marcelo

Qual pessoa é Pessoa? Esse

Qual pessoa é Pessoa? Esse que se distancia voluntariamente e olha com um certo desdem para as mazelas humanas, ou o outro que escreve Poema em Linha Reta?
Acho que o grande mérito de se dividir em heterônimos está em demonstrar que em cada ser humano coexistem personagens diferentes, até mesmo antagônicos. E, quando um gênio permite que essas personas falem de si, o resultado é uma obra poética única no mundo.
Mais uma vez, cumprimentos pela oportunidade que nos dá de ler um texto tão intressante.
Abraços!

Livro do Desassossego

Vi seu comentário na comunidade do orkut.
Gosto demais de Fernando Pessoa, acho mesmo que ele tinha uma visão muito além da forma simples que a maioria das pessoas tem de encarar a vida.
"A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiencia da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em n´s está tudo; basta que procuremos e o saibamos procurar."
São realmente palavras de quem sentia com uma profundidade fora do comum não acha?

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