O macaco estava certo

Dr. Zaius: Guardião dos segredos terríveis e da dúvida se o macaco estava certo.

Dr. Zaius: Guardião dos segredos terríveis e da dúvida se o macaco estava certo.


Um dos meus filmes preferidos sempre foi “O Planeta dos Macacos” de 1968. Ainda era criança a primeira vez que assisti mas me impressionou muito e a cada vez que assisto me chama a atenção um outro ângulo. Caso raro no qual os roteiristas e o diretor conseguiram produzir um resultado muito melhor e mais profundo do que o livro no qual foi baseado alterando quase tudo. Para ter uma idéia do livro basta dizer que a infeliz versão mais recente de “O Planeta dos Macacos” é relativamente fiel ao livro, por isto não estava lá a maioria dos elementos que tornaram a versão de 68 um clássico, mesmo nestes tempos de efeitos especiais. O primeiro ângulo que me chamou a atenção no filme, ainda quando tinha uns 6 anos, foi a questão dos maus-tratos aos animais, a vivissecção, as caçadas, as quais ganham uma força significativa através da inversão de papéis. Como até hoje esta é uma questão relevante para mim e uma das minhas batalhas pessoais, profissionais e políticas sinto a importância daquele filme. Outro aspecto que vi com interesse algum tempo depois foi a manipulação e o controle da informação e do conhecimento. No filme uma das mais relevantes cenas neste sentido é aquela na qual o promotor prova que o humano não tem raciocínio porque é incapaz de citar ou expor o significado das escrituras sagradas dos macacos.

Inquisição: No

Inquisição: No "julgamento do humano" - contrafacção do "julgamento do macaco" no qual fundamentalsitas condenavam a evolução - o desconhecimento das escrituras sagradas é prova da falta de raciocínio de Taylor.

 

Há, contudo, uma dubiedade no filme e em grande parte esta é a grande criação que adiciona algo que não faz parte nem de forma embrionária do livro original que é um tanto difícil de comentar sem estragar a história para quem não viu o filme nenhuma vez aindaA despeito do infeliz designer da capa do relançamento do clássico em DVD ter tido a imprudência de usar justamente a cena do desfecho como base..Esta dubiedade é personificada no filme pelo antagonista, Dr. Zaius, ao mesmo tempo conhecedor da história toda, portador de conhecimentos que os outros buscam – e que se revela no final da história – mas que esforça-se a todo custo – utilizando os dogmas religiosos – para que não seja conhecido. Quando ele diz ao astronauta para não procurar respostas porque pode não gostar delas – frase que em certo sentido resume um do dramas essenciais do filme, na minha visão – dr. Zaius demonstra que há um certo sentido em todo aquele ocultamento das verdades por detrás do sagrado. Há algo terrível a ser escondido para que não se repita, tal como tantas seitas e místicos ao longo da história disseram. O diretor estava talvez preocupado com os problemas da sua época e os medos daquele momento, sobre os quais também não posso falar muito sem estragar algo da história do filme. Se ele teve também uma certa interpretação metafísica da história não saberia dizer com certeza, apenas especular. Mas diria que na última vez que assisti o filme na semana passada a “descobri” com bastante clareza a ponto dela parecer evidente e até me espantar por não tê-la visto antes. Um aspecto curioso é que esta outra interpretação, que cria uma outra “camada” no filme no qual a jornada de Taylor é em certo sentido um percurso quase iniciático transforma a posição dos personagens e faz do antagonista Dr. Zaius quase um guia, enquanto dá um certo caráter perverso aos cientistas-chimpanzés cheios de bondade e especulação. Não deixei de me lembrar de uma frase de Schuon na qual ele diz que tudo que pertence a este nosso mundo, a este estado, é dúbio, até mesmo a tradição e seus guardiães. Também curioso que esta afirmação está justamente no trecho em que ele fala sobre certo conceito associado a simbologia do "defeito do tapete" - que comentei em artigo anterior - e eu tenha tido a impressão justamente de ter encontrado o defeito neste tapete.

2 Comentários

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Olá, caro Alexandre,

Olá, caro Alexandre, parabéns pelo blog.
Assisti os dois primeiros volumes da série Planeta dos Macacos. Não estou tão preparado como vc para comentar mas, pelo pouco que vi, percebi uma alusão à guerra fria. Os macacos seriam os comunistas e os americanos, como sempre, os salvadores do mundo. Estou mais ou menos certo?
Um abraço.

Joe Cortez.

Caro Joe, Não entendo desta

Caro Joe,
Não entendo desta forma. Acho que, pelo contrário o filme é uma fábula contra as tendências militaristas e a corrida armamentista, já influenciada pela mobilização pacifista que estava se formando naquele momento e até antecipando algumas críticas que só ganhariam corpo muito empo depois, como a questão dos maus tratos aos animais. Os macacos são o espelho no qual se pode enxergar as práticas dos humanos e toda a descrença do "sistema" dos dirigentes dos macacos está baseada em um conhecimento histórico vedado aos outros mas através do qual eles tentam evitar que a socidad dos macacos tenha o mesmo fim. Muito do diálogo final do Dr. Zaius e o astronauta tem grandes semelhanças com o capítulo final das Viagens de Gulliver, quando os cavalos decidem que a presença de Gulliver é perigosa para eles pela natureza maligna d homem.

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