O imbecil e o guerreiro
Uma pessoa com uma crença é um poder social igual a noventa e nove outras que só têm interesses. (Stuart Mill, Considerações sobre o Governo Representativo)
Como eu disse nos posts anteriores tornar-se um imbecil não é uma tarefa fácil para quem não nasce com o dom e vive em um mundo no qual é tão fácil adquirir esta aparência de conhecimento que caracteriza o “esperto”. Acho que uma das áreas nas quais meu aprendizado de imbecil está mais avançado é no campo da política, em poucas outras áreas eu tenho tantas perguntas sem respostas, nenhuma capacidade de enxergar alguma solução, quase chego àquele ponto ideal de tábula rasa.
Uma das provas desta minha ignorância é que insisto em ocupar o espaço deste blog nas segundas-feiras falando de política.
Não estivesse neste caminho do absurdo e chegaria á conclusão que dada a brutal divisão na sociedade entre aqueles que não acreditam em mais nada e aqueles que podem acreditar em tudo se a retribuição for adequada não há mais anda que a política possa fazer por nós, nem há ninguém interessado de verdade no assunto. Mas tenho esta crença de que quando se escreve para agradar aos outros há uma grande tendência a ser inútil, porque se escrevemos para construir um mundo melhor é dever fazer as pessoas se questionarem.
Como esforço-me por ser um imbecil não consigo imaginar qual a relação entre a política e este apertar de botões que ocorre a cada dois anos. Assisto os programas eleitorais e fico pasmo ao ver as pessoas falarem que não agüentam mais este falatório de política porque eu próprio não consigo enxergar absolutamente nada de política naqueles programas, nem nas notícias de jornal. Em minha ignorância diria que o problema não é a política, mas justamente a falta dela.
Nas campanhas em que me envolvi antes de ter conseguido entrar neste processo de desaprendizado eu sempre apresentava projetos que de alguma forma poderiam estimular as pessoas a se organizarem para resolver seus próprios problemas. Os espertos sempre diziam que não havia tempo para fazer estas coisas, que havia a preocupação com a eleição próxima, que estas outras coisas estariam entre as prioridades passada a questão das urnas e só se voltava a falar do assunto na eleição seguinte, quando já havia pouco tempo de novo. Conforme fui desaprendendo estas artes eleitorais fui descobrindo como elas são inúteis.
Também fui perdendo a capacidade de enxergar a questão partidária, cometi a insensatez de achar que há boas pessoas em quase todos e que ao invés de pensar em fortalecer um partido ou outro seria mais interessante fazer as pessoas terem senso crítico suficiente para escolherem o partido por si próprias, até porque há realmente a necessidade de muitas e muitas visões para que do debate entre elas acabe surgindo alguma coisa positiva. Julgo que nunca mais conseguirei compreender de novo porque as pessoas que estão em um partido conseguem ser tão criteriosas no julgamento das falhas dos outros e nos seus acertos e pelo contrário tão incapazes de enxergar seus erros e os méritos alheios, aliás, não só na política.
Por todas estas minhas incapacidades de conseguir compreender este alto jogo da política comecei a achar na minha ingenuidade que se for possível mudar algo algum dia será na nossa pequena política do dia a dia. A começar da forma pela qual tratamos o outro, na forma pela qual travamos uma discussão não para vencer o adversário, mas para junto com ele poder dar um passo a mais rumo à verdade. Passando pela forma como lidamos com os problemas do dia a dia, como tratamos aqueles que são subordinados a nós ou àqueles aos quais estamos subordinados – por sinal sempre noto que uma característica dos espertos é tratar mal aos que estão abaixo e bajular os de cima, esforço-me por tratar bem a todos, em especial aqueles que estão subordinados e, no dia em que conseguir ser um completo imbecil talvez faça o contrário dos espertos porque não terei capacidade de compreender nem o que é o medo.
Os espertos sabem que é inútil tentar fazer qualquer coisa. Uma das características pelas quais se pode reconhecer um imbecil é que ele acha que pode fazer alguma diferença nesta coisa toda, que pode melhorar algo. Aqueles que chegaram ao ponto de serem imbecis completos são capazes de achar até que podem mudar o mundo, e o que é pior, com a força apenas de seu exemplo. Acreditam, parodiando a frase de um dos grandes imbecis do mundo contemporâneo, que ao imbecil são necssárias todas as qualidades do guerreiro, exceto o crime.

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