O homem que escrevia

Às vezes me sinto como um dos últimos sobreviventes de alguma etnia em extinção. Imagino que deve ter sido uma sensação semelhante a de Dom Quixote antes de simplesmente perder de vez o juízo. Basta olhar em volta para ver que o exercício da escrita está desaparecendo.
Não, não adianta dizer que nunca as pessoas escreveram tanto e citar, por exemplo, as mensagens da Internet como um exemplo. Em primeiro lugar, sem nem entrar no mérito da qualidade terrível do conteúdo, em geral elas são reproduzidas até o infinito, muito pouco é criado de fato e as pessoas sequer são capazes de exercer a mínima reflexão crítica sobre elas. Em muitos casos desconfiam que sequer quem a reenvia a lê.
Ainda sem entrar na questão do gosto duvidoso, faço sobre este mau exemplo duas observações. A primeira é que há coisas que não podem ser ensinadas pela palavra escrita – diga-se de passagem, que a grande maioria dos mestres de verdade jamais escreveu uma linha.
A segunda é que os amontoados de lugares comuns, das poesias “batatinha-quando-nasce”, como as descreve bem apropriadamente a Márcia, de histórias edificantes que nada edificam – porque para edificar é preciso construir algo novo e derrubar algo velho em que lê – e do amontoado de conceitos pseudo-científicos e pseudo-religiosos que quando examinados com critério percebe-se não estarem embasados em nada, tem pouco – mas muito pouco mesmo – a ver com a essência da palavra escrita – e de certo modo com a palavra em qualquer forma que ela possa assumir.
A essência da palavra, do discurso, é a persuasão. Pode até não assumir sempre esta forma e em geral é mais eficiente quando não parece estar fazendo isto. Mas se caracteriza pela coesão e coerência, ainda quando aquilo que a mantém unida esteja fora do texto e da estratosfera, ainda quando a coerência deva ser buscada em algum conjunto transcendental de idéias. Um texto que parece argumentativo, mas cujos fundamentos são vagos, obtusos ou truncados – quando não inexistentes – não é nada.
Ao mesmo tempo o texto deve justificar-se por si, nem que seja pelos seus silêncios, sem precisar de nada externo.
Mas a triste verdade, aquela que me faz sentir pouca esperança, por mais otimista que seja a minha natureza, é que sequer é destes textos que falo quando digo que as pessoas estão perdendo a capacidade de escrever. Confesso que tive quase vontade de chorar a algumas semanas quando vi colegas de trabalho vasculhando computadores em busca de um convite para uma festa de algum ano anterior para não ter de escrevê-lo de novo. Todos eles com formação universitária e excelente nível social e econômico, demonstrando que a questão não é social, educacional ou econômica, é cultural mesmo.
Vira-e-mexe vêm me pedir para escrever alguma coisa – eu sou afinal “o homem que escreve” – mas sempre fico chocado ao ver que pedem para escrever cosias tão básicas, elementares e curtas – um convite, o texto de alguma placa de homenagem, um bilhetinho – que houve tempo em que me revoltava contra tal tratamento leviano com minha função.
Uma vez me pediram para escrever um bilhetinho para um presente que dariam ao professor de um curso de redação, verdadeira demonstração da absoluta inutilidade do curso e fracasso do professor que não conseguiu ensinar ninguém dentre todos os alunos a juntar letras por duas linhas para formar o texto de um cartão.
Hoje estas coisas não chegam mais a me tirar do sério, só me enchem de tristeza por ver um mundo no qual as pessoas capazes de expressar-se pela escrita – portanto pela razão – irão ser uma escassa elite desilidudida com o futuro e sentindo-se fracassada na sua tarefa de guiar.
De forma nenhuma me considero reacionário e muito menos avesso à tecnologia, à multimídia, à utilização da imagem e do som. Pelo contrário, na época de universidade era praticamente o único da área de humanas da universidade que dominava os computadores e a estatística. A questão é apenas a do desaparecimento da escrita, cuja conseqüência é o desaparecimento da linguagem em médio prazo.
Não, não seremos mudos, não é isto que estou dizendo. A linguagem é mais do que uma expressão de sons ou gestos, é acima de tudo a vontade de comunicar algo, de preferência algo relevante. É até possível que a maioria considere que comentar o Big Brother – como ouço por todo lado, até no gabinete do Kurtz – é relevante. Isto por si já demonstra o meu raciocínio.

Comentários

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Bilhetinho de geladeira.

Não é querendo estar na contramão das desilusões, mas estava em casa, aferindo a precisão do relógio e nem a voz no telefone tinha o mesmo efeito que vasculhar as palavras à espera de uma surpresa.

(Repetindo baixinho com um leve sorriso)
- Não leio entrelinhas, dissolvo-me no contexto...

Voltando à inconsistência da desilusão, há sim o lugar comum das mentes ocupadas em sempre fazer menos, matar o tempo, subsistir alheias ao sonho e a troca de saberes. Vidas sem gosto, no sentido literal mesmo. Insossas, sem sabor. Lamentável, concordo, mas não contagiante. (Lembrei do Zeca Baleiro cantando a Criatividade de Deus. Ora, veja!)

(Agora, um sorriso largo, daqueles de fazer covinhas.)

Não quero falar de ter que ter esperança. Escreve. É só o que peço. Depois eu sussurro no teu ouvido a minha tradução.

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