O djinn me fala sobre liberdade e escravidão

Quem passou esta semana para visitar-me foi aquele djinn que por algum tempo foi meu escravo, encarregado de redigir boa parte de meus textos. Veio de livre e espontânea vontade, com um bronzeado de quem está aproveitando as férias após milênios de escravidão e certo ar de sarcasmo de sempre.
Fiquei com a impressão de que só perguntou o que eu andava fazendo por educação, porque parece muito bem informado sobre meus afazeres atuais, não teve dificuldade nenhuma em encontrar minha nova sala 5 andares acima da anterior e ainda estava afiado para debater minhas ações atuais.
Depois das formalidades de praxe, e como muçulmano o djinn alongou-se nas fórmulas, ele foi direto ao foco:
- Tem certeza que tudo que anda fazendo é realmente pelo que acredita, não está mais preocupado às vezes com as três moedas de ouro, glória e vaidade!
Acho que só dele, da Márcia e de alguns poucos amigos muito próximos toleraria uma pergunta tão direta em um tom tão acusativo.
É verdade, às vezes me pego em devaneios de poder, em sonhos de glória, às vezes o que era para ser meio torna-se fim em minhas preocupações. Mas não dou o braço a torcer.
- Há oportunidades que surgem raramente na nossa vida, tenho de aproveitá-las e estar preparado para elas – eu disse, sem estar totalmente convencido das minhas palavras.
- Sei, está procurando os atalhos, né – disse ele com uma gargalhada, demonstrando que sabia bem o sentido que dou à palavra.
Dei um riso amarelo e ameacei protestar, ele não me deixou falar e seguiu:
- A vida de vocês humanos é tão curta e frágil que acho que é inevitável que pensem assim, é uma pena, caso contrário poderiam fazer grandes coisas.
- Mas eu nunca desejei outra coisa senão fazer grandes cosias, é por isto que trabalho feito louco aqui. Por isto deixei a tranqüilidade dos devaneios, porque surgiu a oportunidade de agir concretamente.
Balançando a cabeça ele retrucou:
- É melhor parar de tentar se justificar, estas suas últimas frases são indignas de você.
- Como assim, disse eu baixando a guarda.
- Se vai um dia fazer algo grandioso vai ser por causa destes devaneios, só por causa deles, se sua ação concreta não for ao mesmo sentido do devaneio logo se sentirá escravo de novo.
- Mas a disciplina...
- Se a disciplina for inspirada pelas cosias que acredita, então é a disciplina do homem livre, caso contrário é apenas a submissão de escravo.E olha que de escravidão eu entendo!
- Para quem vive em liberdade há tão pouco tempo está pretendendo entender muito do assunto.
- Ninguém sabe tanto sobre a liberdade quanto o escravo, caso não saiba, porque passei séculos pensando sobre ela. É possível aprender virtude mesmo do pior pecador se conseguimos vê-lo como um professor, também é possível aprender sobre a liberdade com o mais submisso dos escravos.
- Em certo sentido somos todos escravos de algo. Ponderei.
- Não, só somos escravos de nós mesmos, esta é a única escravidão. Só nos submetemos a algo porque nosso ego tem algum desejo, é o medo da morte, o medo de perder a vida, que impede que o escravo se revolte e por isto ele se conforma com a escravidão.
- Mas não sou um escravo, pelo contrário, jamais estive em uma posição na qual pudesse fazer tantas coisas.
- E está nesta posição porque demonstrou sua liberdade e sua auto-disciplina, sua autoridade, então tenha sempre isto em mente. Lutou até agora pelo que acreditava, não por esta ou aquela fração de poder, continue assim, é só isto que vim dizer.
- E não é isto que venho fazendo, ora essa!
- Não, sabe que nem sempre. Quanto tempo anda perdendo pensado no poder, só no poder, não nas cosias que precisa fazer para merecê-lo. Para não falar das pequenas satisfações e vingancinhas. Tudo isto é indigno de você, meu amigo. São atitudes de um escravo da ira e da cobiça.
- Como você disse lá atrás, sou humano.
- Não é motivo para conformar-se com isto, se entregar às fraquezas.
Falou isto e sumiu como costuma fazer, me deixando a sós com tantas indagações.

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Me recordo do tempo em que

Me recordo do tempo em que conversamos sobre djins e escravidão. Me lembro também que, relacionado a isto, falamos de um filme, A Dama na Água, que vc tinha assistido e eu não. Falamos algo sobre o Shyamalan... acho que vc se decepcionou com ele neste filme mas são lembranças fugazes que tenho e nenhuma certeza.
Mas hoje terei a oportunidade de ver esse filme, pela primeira vez. Foi por ele que me lembrei de nossas passadas conversas e foi por isso que voltei aqui.

Grande abraço da Olga

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