O discurso imperial da modernidade
O discurso imperial da modernidade
Alexandre Gomes
Certamente a modernidade é algo tão desejado quanto impreciso. Dificilmente alguém se prontificará a condenar a modernidade, mas é muito difícil encontrar duas pessoas que definam o termo da mesma forma. Contudo - e este é o tema principal deste artigo - a bandeira da modernidade é cada vez mais apropriada por um conjunto de ideologias que esforçam-se por abortar qualquer outro projeto de modernidade que não seja os delas.
Há muitas armadilhas ideológicas espalhados neste campo minado que é a discussão da modernidade, mas talvez a mais perigosa delas seja a que assimila Modernidade a Ocidentalização. Uma das premissas básicas desta identidade ideológica é a atribuição de um caráter universal à visão ocidental de mundo. Premissa que é desmontada com muita competência em artigo recente publicado pela revista Innovation #(1), por Sayyid Sayyid.
Entre outros aspectos, o autor ressalta a utilização por muitos Experts ocidentais do argumento que mesmo para contestar a visão ocidental os contestadores precisam utilizar-se de categorias ocidentais e beber na fonte do Ocidente. Este argumento ao mesmo tempo nega e afirma a identidade entre os valores ocidentais e universais e esforça-se para transformar uma questão que é historicamente construída em uma discussão genealógica aparentemente neutra.
Uma das finalidades disto seria mascarar a existência de uma relação de dominação, portanto hierárquica, entre a visão ocidental e qualquer outra - embora no texto ele discuta de forma mais específica o discurso do Islam político. A mistificação se daria em parte através da apresentação de qualquer discurso anti-ocidental como uma resposta ao discurso ocidental, assim a negação do sistema implica em parte também na afirmação do sistema.
Esta argumentação, diz o autor, é um jogo de espelhos no qual uma relação assimétrica é apresentada como uma relação simétrica aos olhos dos observadores. É o mesmo tipo de discurso que tenta apresentar as políticas de cotas para negros nas universidades ou qualquer outro esforço de auto-afirmação de grupos étnicos, culturais ou religiosos não-ocidentais, modernistas e secularistas como sendo um racismo às avessas.
Com isto, grosso modo, se produzem dois efeitos. Primeiro tira do sujeito subordinado qualquer possibilidade de autonomia, limitando-o a reproduzir, por contraste, o discurso dominante. Nas palavras do autor, "o subalterno apenas existe como um efeito do discurso hegemônico".
A segunda é que esta construção esconde as relações de poder da relação porque apresenta uma relação de dominação - portanto assimétrica - como sendo uma relação simétrica na qual um reflete o outro. Se a rejeição ao Ocidente é uma outra forma de aceitá-lo, então a habilidade de rejeitar - diz o autor - é representada como uma capacidade ocidental.
Por detrás deste e de outros mecanismos está a idéia de um mundo ocidentalizado ou como o único possível ou como o mais aceitável e consistente dentre as hipóteses oferecidas. Não é à toa que existe a preocupação de criar uma imagem de hostilidade entre a modernidade e qualquer grupo que conteste a supremacia ocidental. Isto equivale a dizer: "a globalização e o neo-liberalismo podem ter seus defeitos, podem causar inúmeros transtornos, mas ainda assim é melhor que o reino das trevas do fundamentalismo e do atraso que é a alternativa a ele".
Infelizmente falta espaço aqui para demonstrar como esta construção frequenta assiduamente o noticiário, às vezes de forma subjacente, quase subliminar, mas às vezes de forma bastante explícita, até mesmo quando o Outro é apresentado com uma aparente simpatia.
Certamente muitos não verão uma utilidade imediata nesta reflexão. Nós brasileiros estamos um passo adiante neste processo de doutrinação ideológica porque nós nos julgamos Ocidentais, parte do Grande Império e nos sentimos muito mais afins do Primeiro Mundo do que os semi-bárbaros colegas do Terceiro Mundo. Para utilizar o conceito de Edward Said, nós já perdemos a capacidade de nos representar e assim aderimos inconscientes ao papel que nos é dado desempenhar pelo diretor para uma platéia formada por nós mesmos.
Não resta espaço para discutir até que ponto existe mesmo esta nossa identidade com o Ocidente - Huntington ao definir as civilizações globais coloca a América Latina num mundo à parte, destacado do Ocidente. O que não é estranho porque esta é, de fato, a imagem que o Ocidente realmente faz de nós. Bastaria a muitos dos que se julgam ocidentais passar uma temporada nos Estados Unidos ou Europa para ver que por mais brancos que sejamos - ou aleguemos ser - ainda somos uma espécie inferior aos olhos do Ocidente real.
(1) Sayyid, S. Anti-essentialism and universalism Innovation: The European Journal of Social Sciences, Dec98, Vol. 11 Número 4, p377, 13p. in Academic Search Elite [base de dados on-line] disponível em http://www.epnet.com/ehost/login.html (Boston, MA.: EBSCO Publishing, acessado em 24 de Março de 2.000).
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