O diabo e o monge
"Deus pesca as almas com anzol; o diabo com rede". (Alexandre Dumas)
Khalil Gibran Khalil sempre me passou a imagem de um espírito atormentado, mesclando momento de extrema lucidez com outros de alguma confusão, como é inevitável que ocorra com todos que são sinceros. Também não vacilava em citar o senhor do mal e chama-lo pelos mais variados nomes, contrariando a crença, o que não deixa de levar a uma certa compreensão dualista desta relação entre o bem e o mal.
Mas é dele por um paradoxo em relação a isto – e me agradam muito os paradoxos porque eles exigem uma reflexão mais elevada para serem solucionados - uma das melhores histórias sobre os riscos de se fixar a mente no mal. No conto Satanás – que integra Tempestades, o último livro que ele escreve em árabe, em 1920, e na minha opinião é superior a outros mais aclamados – um padre famoso pelos exorcismos, bênçãos e maldições encontra o diabo desfalecido a beira da estrada. Este o convence a cuidar dele, pois se morresse o padre perderia seu prestígio e fonte de renda. Ambos travam intensos debates teológicos, filosóficos e históricos até que o padre encontra um argumento surpreendente, até para Satanás, para justificar sua atitude. Claro que não vou detalhar aqui para não tirar o gosto da leitura deste conto curto.
O texto em geral é lido como um testemunho anti-clerical, mas na verdade esta me parece uma leitura muito mais pobre do que poderia ser. Todos aqueles que lutam contra algo sempre correm o mesmo risco de estar tão ligado a esta coisa que não podem permitir que ela deixe de existir, sob o risco de perder o sentido de suas vidas. Mesmo com seus problemas há pessoas que lidam desta forma, tornam-se tão apegados a eles, transformam-no tanto em assunto de seu dia a dia que se tentar livrá-los dele se tornará um inimigo.
Na internet tal tipo de pessoa é muito comum. Há aquele tipo de gente que vai justamente ao fórum, mailing list ou comunidade que dá valor a algo completamente diverso do que pensa e passa a provocar os presentes. Todos aqueles que imediatamente se empenham em entrar no debate inútil com o primeiro personagem tem com ele a mesma relação simbiótica que o padre do conto de Gibran. É assim que muitos destes espaços de debate deixam de ser a favor de uma idéia para transformarem-se em algo contra aqueles que defendem a idéia contrária e ao fazer isto tornam-se inúteis, muitas vezes histéricos.
Não é algo fácil lutar em nossas mentes contra este conceito de que há no universo duas forças lutando entre si. Somos muito acostumados com esta imagem reforçada por tantos conceitos que circulam por aí. Temos a indisciplina de buscar nos outros as culpas que são nossas e a insegurança de tentar encontrar respostas prontas que nos ensinem como o mundo deve ser ao invés de aprendermos as lições por nós próprios.
Digo isto porque vejo estas fraquezas em mim também, aliás sempre chego à conclusão que as falhas que vejo nos outros estão mesmo em mim. Não sei se a mesma coisa ocorre com as demais pessoas, mas como já disse em outro texto, descobrimos uma falha em nós, mas só a conseguimos vê-la nos outros, então se sou capaz de dar atenção a isto e aplicar a mim consigo dar um passo além.
Também somos gregários e por isto buscamos a certeza concentrada e a culpa diluída das multidões. Fazendo o contrário do que recomenda o Iman Ali buscamos não a verdade, mas tentamos descobrir quem diz a verdade e assim acabamos sendo levados a confusão. Para ocultar nossa falta de certeza nos tornamos intolerantes, nos apegamos aos conceitos que defendemos, odiamos aqueles que nos dizem que estamos errados, nos juntamos com aqueles que tem estas mesmas certezas ao invés de buscarmos aqueles que vão se somar às nossas dúvidas.
Se o mal parece tão concreto ao invés de ilusório é porque vivemos a sombra dele, tiramos nossa nutrição dele como o padre de Gibran. Achamos mais simples converter as multidões as idéias ás quais nos apegamos, que em geral não são nossas – sejam políticas, religiosas, estéticas ou qualquer outra – do que nós mesmos tentarmos encontrar as nossas respostas. Digo sempre a meus irmãos muçulmanos – mas acho que o mesmo é válido para qualquer fé, visto que todas expressam uma mesma verdade e conduzem ao mesmo destino – que o exemplo de sete sábios converteu a Indonésia, hoje a maior nação muçulmana, enquanto as espadas de milhares de guerreiros perdeu a Espanha.
Também é necessário compreender que o fato deste processo ser individual nada tem a ver com egoísmo ou individualismo, dois conceitos tão em voga hoje. Parece mais nobre converter aos outros e não a si, mas é um raciocínio marcado pela ilusão também. Um milhão de pessoas que temem o inferno ou aspiram ao paraíso, portanto lidam com o mal como o padre, nada são perto de um única pessoa cujo coração se libertou do medo dos castigos e dos desejos de recompensa.
Claro que vasculhando aqui pelo blog encontrará muitas coisas que contradizem este meu conceito. Se escrevo é justamente e principalmente para convencer-me e debater comigo. No dia em que for possível encontrar absoluta coerência naquilo que digo, que esteja tão aferrado a minhas idéias que não precise mais me preocupar em negar hoje o que disse ontem, então chega rei a conclusão que de fato estou morto, porque parei de aprender e refletir.
Ps: só encontrei uma versão em espanhol do livro de Gibran, se alguém encontrar em português pro favor me avise.
http://www.elmistico.com.ar/descarga/gibran/

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