O defeito do tapete
“A natureza é o que Deus cria como Deus, a Arte é o que Deus cria como homem”. (Inayat Khan)
Todo tapete persa legítimo, tecido sob os cuidados de um mestre tapeceiro tradicional, tem algum defeito. Há duas explicações para isto, uma metafísica outra corporativa, ambas são não excludentes proque, afinal, todo símbolo tem muitos significados. A explicação metafísica é que só o que é feito por Deus é perfeito, portanto tentar a perfeição seria quase uma blasfêmia, a explicação corporativa é que através do defeito um outro mestre tapeceiro pode reconhecer se o tapete é legítimo ou não.
Diria que tanto a explicação que reconhece o sagrado como a que preserva o segredo me deixam tão impressionado que eu vejo um caráter complementar nas duas. Acho que uma das maravilhas da arte é justamente esta, o artista pinta um quadro ou o poeta escreve um verso e quando vê há, até para ele, um sentido muito diverso daquilo que ele estava pensando. Todas as metáforas e imagens parecem ser tão intercambiáveis.
Ninguém vai acreditar, eu sei, mas há imagens que eu uso que às vezes encontro em poemas de verdade. Em muitos casos foi um livro que eu li, guardei sem me lembrar de onde tirei. Mas há outros que acho em livros e poetas que estou lendo pela primeira vez, juro que não é desculpa pra algum plágio. Em outros casos fico surpreso em encontrar um sentido simbólico tão evidente e do qual não suspeitei em um texto que falava sobre outra coisa. Ou, pelo contrário, descobrir aspectos bem psicológicos ou até mundanos em algo que eu escrevi com a intenção de ser simbólico.
O sentido de qualquer obra de arte senão aquele que é percebido por quem a observa. Qualquer explicação sobre isto é certamente inútil e quem precisa de algum decifrador que lhe explique talvez devesse ficar em casa assistido TV.
Ao mesmo tempo, contudo, há impressões, imagens, símbolos, determinados efeitos, capazes de ser percebidos e admirados de uma maneira específica. O músico, derviche e “místico” indiano Inayat Khan (e uso os aspas para distinguir o termo místico, relacionado a mistério, do seu uso habitual nos dias de hoje, que é justamente o oposto) diz que sempre que um artista cria algo que ele próprio olha e se admira de ter feito – como o famoso “parla” de Michelangelo a uma de suas estátuas – há ali um conteúdo e um autor outro, uma inspiração, uma iluminação. Com imensa sabedoria Inayat Khan diz: “A natureza é o que Deus cria como Deus, a Arte é o que Deus cria como homem”.
A “imperfeição” do tapete persa exemplifica bem esta questão de criar como homem, de como as coisas que vem de outros de nossos estados não podem chegar até aqui inteiras, ainda mais nestes tempos e nestes ciclos, onde como destacam tantos sábios de fés tão diversas, perdeu-se quase por completo o ideal elevado.
O primeiro poeta que eu li, que me fez voltar os olhos para a poesia, foi Pessoa. Nele este processo de intuição e inspiração é de tal forma consciente que cada poema, às vezes um só verso, falem por tratados e tratados. Talvez por isto ele pudesse levar uma vida tranqüila, não se abatia pelo orgulho, nem pelo efêmero, ainda que fosse “argonauta da sensibilidade doentia”, convivia bem com o patrão Vazquez. Era tranqüilo como era Khayyam, que morreu velhinho, ainda que os poemas de ambos sejam terremotos que fendem a terra e revelam céus e infernos dentro de quem lê.
Para traçar um paralelo, há belíssimas imagens no atormentado Mario de Sá-Carneiro – imagens certamente trazidas através da ponte que liga este nosso mundo ao Mundo Imaginal, o Mundos das Idéias Arquétipicas, mas há nele ali aquele imenso de não ser capaz de lidar por completo com o processo todo, o mesmo com o depressivo Rilke. A pintura, em particular, oferece dezenas de exemplos deste mesmo processo, do qual Van Gogh é o caso exemplar.
Engraçado que nestes tempos modernos, confundindo efeitos com causas, criou-se o mito de ser necessário ser maldito para produzir arte. Buscasse a insígnia e a distinção de ser artista tentando se comportar como os atormentados artistas, não a expressando pela obra, pela opressão da intuição estética que racha montanhas, mas apenas substituindo os efeitos pela aparência de que eles ocorrem. É como um tapete no qual estivesse faltando justamente o defeito.

Comentários
Estou procurando o defeito
Estou procurando o defeito proposital escondido neste texto aparentemente perfeito e que também conseguiu mexer com as camadas mais profundas da minha sensibilidade.
Obrigada, Alexandre!
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