O contrabandista

Ainda um pouco na continuidade do post de ontem e entanto responder alguns emails falei bastante sobre escrever e uma das coisas que mais me disseram foi que deveria ter tido porque eu escrevo. Fiquei tentado a dizer a verdade, a confessar que quem escreve não sou eu, mas um djinn que mantenho como escravo em uma garrafa de cobre com o selo de Seyyedina Suleyman na rolha, só o libertando para que faça meu trabalho e volte rápido para a garrafa. Ainda que seja meio rebelde e nem sempre escreva o que eu mando, seus séculos de prisão lhe deram alguma erudição e de uma forma geral ele dá conta do recado.
Infelizmente acho que ninguém acreditaria na história, porque vivemos em um mundo desencantado, então mandei o djinn inventar alguma outra história e é ele que escreve daqui pra frente, como não vou ter tempo de ler antes de publicar espero que ele faça um bom trabalho. Segue abaixo, então, a desculpa inventada para mim pelo djinn.

“Na arte, a sinceridade depende do talento. Um homem que não possua talento é incapaz de “honestamente” expressar seus sentimentos e pensamentos – porque os seus borrões ou os seus versos ruins deixam inteiramente de corresponder ao seu processo mental” (Aldous Huxley, Eminência Parda)

Falei ontem que o que torna legítimo ou não um texto – e em certa medida qualquer obra de arte – é se ele constrói uma ponte com um outro mundo, enquanto quando feita pensando neste mundo aqui será sempre irresponsável porque falsa. Só quem escreve, portanto, é capaz de ter plena certeza de sua sinceridade, ainda que os demais possam perceber ou intuir se há ali alguma ponte, até porque quando falta sinceridade também não pode haver qualidade.
Huxley, no trecho que uso na epígrafe, descreve com perfeição porque isto ocorre, é justamente esta inadequação entre o processo mental – grosso modo a visita a este outro mundo durante o êxtase da criação como disse ontem – e o resultado – a ponte que foi construída para aquele lugar visitado – que dá realidade ao que é feito. A poesia, talvez por exigir em geral que o leitor atravesse a ponte, é mais suscetível a esta falta de sinceridade/talento porque requer uma imersão profundo neste outro mundo. Nas outras formas escritas, em particular quando a ponte tenta criar um meio para que as idéias daquele lugar cheguem por aqui, a identificação é mais difícil e por isto ainda mais necessária.
Se escrever tem algo de epifânia – e aproveito o termo para me penitenciar da ausência da menção de Clarice no artigo de ontem, que me valeu enorme e justificada bronca por email – ela só pode ter algo de verdadeiro mesmo quando contraditório. Isto porque esta nossa visão estanque de conhecimento, estes nossos limites categóricos, são insuficientes para expressar as idéias que vem de lugares mais elevados, produzidas por uma sabedoria mais completa.
Sempre me agradaram as antíteses e os paradoxos porque para compreendê-los é necessário ultrapassar, ao menos por um instante, estes limites das nossas categorias. Ambas as figuras, no fundo, tentam mostrar que toda dualidade é falsa porque estão contidas na unidade, ainda que de formas distintas. Tais unidades não podem ser apreendidas neste mundo, só pode ser trazida de contrabando daquela outra realidade, mas isto não significa de forma alguma que devem ser impossíveis de ser entendidas pro aqui.
Pelo contrário, a arte de construir pontes de que falei ontem é justamente o talento de permitir que imagens de outros mundos possam ser compreendidas dentro destes nossos valores. Talvez por isto me desagrade toda manifestação de arte que esconde a ignorância na arrogância, a incapacidade de traduzir o conceito em linguagem apurada acessível somente aos “iniciados”.
Não consigo expressar melhor esta noção, e como me sinto ao escrever, do que utilizando uma das histórias do mullah Nasrudin:

O mullah Nasrudin passava todos os dias pela fronteira com seu camelo. O guarda da aduana sempre revistava a bagagem na ida e na volta e não encontrava nada, a despeito disso o mullah dava sinais que enriquecia com o contrabando. Após anos de revistas minuciosas o guarda se aposenta e pede que o mullah lhe conte o que e como fazia o contrabando. Sob a promessa de segredo e anistia o mullah concorda em revelar o objeto de seu tráfico: CAMELOS.

Recados
Agradeço muito os emails que recebi. Dois deles comento abaixo:
Para a Cacau, com quem sempre cruzo o olhar quando olho para o infinito e que é minha mestra na jornada pelo mundo da poesia e outras, me cobra que fale também das pontes para os mundos que temos dentre de nós digo que quero muito falar disto, mas me faltou ainda o mote e a oportunidade. Não pdoeria deixar, contudo, de dizer que todo mundo está essencialmente dentro de nós, toda viagem a qualquer lugar é sobretudo uma viagem dentro de nós e assim não tenho dúvidas que tem razão. Se uso a imagem dos mundos externos é apenas para não tornar ainda mais difícil expressar uma imagem difícil de ser aborvida.

Para a Maria Olga, que me disse sobre como teto resgatou para ela Anaïs Nin, digo que já estou passando da hora de escrever algo sobre tantos autores cuja imagem que temos não correspondem, ao menos não correspondem sempre, a aquilo que realmente disseram. Neste momento em que venho tentando ler ou reler tantos livros que ficaram nos últimos anos na lista de espera a cada dia me surpreendo mais em ver o genocídio intelectual que esta nossa era da cultura de almanaque, das frases colhidas fora de contexto, da superficialidade e da futilidade está cometendo contra tantos autores que não mereciam ser rotulados e mutilados como tem sido. Mas isto não impedirá que eles continuem a criar pontes.

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