O cansaço da elite
Fico espantado com a aversão que se tem hoje pela palavra elite, atirada como xingamento ou ostentada pelo seu inverso. A questão essencial parece ser apenas a ausência de uma definição dos termos, ou seja de se compreender que elite significa aquela parte da humanidade que transcende a existência vulgar. Ela não se contrapõe à “verdade evidente por si mesma” – na bela forma da Declaração de Independência dos Estados Unidos – de que os homens nascem iguais, mas apenas reconhece também a outra verdade evidente por si mesma que o uso que os homens fazem da vida que recebem não é igual.
Repito talvez pela milésima vez que há a igualdade de direitos, não a de deveres. Qualquer um que reivindique mais direitos ou menos deveres pertence não à elite, mas á escória. A elite é justamente aquela parte da humanidade que não precisa de absolutamente nada – nem leis, nem contenção, nem repressão, nem castigo, nem reconhecimento, nem apreço, nem recompensa, nem prêmio, nem poder – para agir corretamente e cumprir sua missão. Por isto raramente se verá um integrante desta elite reivindicar sua posição de elite, afinal a opinião da massa pouco importa a ele.
Li hoje na coluna de Gilberto Dimenstein a história de um catador de lixo, até outro dia sem-teto, que se resgatou por ser capaz de escrever histórias que vivia ou inventava. É para mim mais fácil considerá-lo um membro desta elite do que tantos subumanos que circulam em carros importados e roupas de grife por precisarem compensarem com o brilho material seu vazio interior que lhes retira o que há de humano. Nem comparo com os intelectualóides e artistóides que disfarçam a ausência de talento e senso estético em linguagens obscuras e chavões pretensamente herméticos porque daí já seria covardia.
Também sorrio quando ouço falar que a política só melhorará com a educação. Sorrio porque me lembro da política universitária e acadêmica, dos doutos conchavos, da maestria nas manobras, das magníficas demagogias, dos magistrais loteamentos de cargos e dos nepotismos licenciosos cometidos cotidianamente por aqueles que receberam a melhor educação. Sorrio porque sei que não só disciplina moral e conduta ética não se aprendem na escola como muitas vezes ela ensina métodos para tentar justificar as patifarias com linguagem grandiloquente e argumentos dialéticos.
A questão não é se a elite deve ou não governar a massa – como massa entenda-se aquela maioria da população que depende de castigos e recompensas para agir dentro das fronteiras e objetivos da humanidade. Isto é o que sempre ocorre e no momento em que se tenta estabelecer algum critério ou delimitação é porque a pretensa elite deixou de ser ela própria de fato. A questão apenas é manter a elite motivada para cumprir seu papel.
E este desafio é muito maior, ainda mais nos dias de hoje em que todos estão cansados e desanimados com uma sociedade que parece – em todos os campos, da arte à política, da ciência à religião e até na economia – mais e mais ocupada por um avanço crescente da massa. O vácuo, a meu ver – porque nada mais é o domínio da massa senão o vazio – se dá apenas porque a elite de fato desistiu, cansada das imposturas e arrogâncias.

Comentários
Comentar