O caminho nos escolhe

Às vezes me perguntam porque sou muçulmano. Fico meio sem saber o que responder em alguns momentos, porque pressinto na pergunta o estereótipo, a noção de que eu deveria usar roupas estranhas, ter uma longa barba, ser intolerante, fanático, não ler as coisas que leio, escrever as que escrevo, ser algum tipo de “estrangeiro” e como pareço uma pessoa normal isto parece gerar alguma dissonância cognitiva nas pessoas.
Mas ás vezes sinto que a pergunta é sincera e então me esforço por responder, ainda que nem sempre o saiba com certeza. A primeira resposta que me vem a mente é que apreciando e reconhecendo o sagrado em todas as fés, a que me tocou, a que me fez sentir realmente entrando em uma jornada espiritual foi o Islam.
A resposta é boa, reconheço, mas um exame mais profundo demonstra apenas que ela é efeito e não causa. Se há tantos caminhos válidos o fato de eu ter encontrado um deles e me sentindo atraído por ele só pode significar que deve haver um sentido, uma motivação mais profunda para isto.
É um alívio saber que esta motivação não foi – como é muito comum acontecer neste período de revivalismo religioso de tantas fés – a necessidade de comunhão com um grupo. A necessidade de não se sentir só em um mundo cada vez mais individualista tem enchido igrejas, mesquitas e os mais variados templos pelo mundo. Não é o meu caso e respiro meio aliviado com isto.
Poucos, muito poucos mesmo, dos meus amigos são muçulmanos. É difícil me ver em alguma mesquita embora este seja um dever que eu negligencio. Só muito recentemente comecei a ir a uma pequena e distante ala de orações, freqüentada pro poucos que me acolheram com hospitalidade mesmo eu estando longe de ser um derviche como eles.
Lá pela juventude fiz muito disto de fazer parte de grupos estranhos para me sentir parte de algo e sei bem que não se trata disto. Pelo contrário, me sinto bem sozinho ou com alguns poucos amigos seletos, quase nenhum deles muçulmano. Nunca fiz uma estatística precisa, mas diria que os budistas são a maioria entre eles e os ligados a alguma forma de espiritualismo os segundos.
Penso então na hipótese contrária, se não for o desejo de ser diferente. É a tese de alguns, incluindo pessoas que deveriam primar pela tolerância mas tem certo gosto em hostilizar minha opinião. Mas se fosse assim eu exerceria esta coisa exótica, eu pelo contrário fico no meu canto, acho que poucos dos meus colegas de trabalho, vizinhos, colegas de atividade sabem que sou muçulmano. Então, por felicidade descarto também esta hipótese.
Lembro-me de uma personagem, uma artista plástica, de John dos Passos em 1919 – exemplar raro de romance experimental que me agradou – que se converte ao catolicismo apenas pro uma questão estética, pelo gosto pelos vitrais e estátuas. Chego a pensar que é a força sutil da cultura islâmica que me impulsiona, na forma como os arabescos expressam de forma perfeita a diversidade e a unidade dentro do Islam, como diz Garaudy nas imagens de geometria, matemática intrincada, padrões por si só conduzindo ao transcendente, quase musical na qual se expressa um Deus não representável.
Penso também nos sábios que essa visão de mundo que busca a Unidade, a Totalidade, gerou. No ideal do hakim ao mesmo tempo médico, astrólogo, poeta, filósofo, teólogo, músico, químico e tantos outros ofícios. Lembro que meu caminho até o islam começou lá no começo dos ano 90 de forma bem tortuosa, quando depois de ler uma referência de Engels as prolegômenos de Ibn Khaldun fiz de tudo para encontrar o livro (engraçado como tantas coisas na minha vida acontecem por meio de livros, às vezes penso que é por não viver o suficiente).
Mas daí vou sentindo que não, que não sou muçulmano por amor a um verso de Rumi, um rubai de Khayyam, algum mihrab particularmente bem construído, um belo minarete ou algo assim, mas por que este algo além do que eles transmitem pela sua beleza ou sabedoria fala lá dentro comigo, me impulsiona, me motiva. Mas mesmo esta questão não me satisfaz, também vejo este transcendente em tantos poemas de tantos autores de diversas religiões ou até de nenhuma, ainda em nenhuma outra eu consiga enxergar a representação concreta da transcendência.
Por vezes também julgo que a escolha de uma religião guerreira é uma espécie de contraponto ao meu temperamento muito pacífico – salvo eventuais acessos de cólera que acabam sendo o resultado da índole dócil, mas que na sua origem é uma natureza mais complemplativa que ativa. Não vou discutir aqui a questão do Islam ter a mesma raiz de Salam, paz, que está repetida até o infinito em tudo que é texto de e palestra de divulgação que fazem por ai, mas cujo sentido exato é o de rendição, de submissão. É evidente também que quando falo de religião guerreira falo não de sair por aí explodindo bombas, mas sim da Grande Jihad, aquela que travamos no nosso coração e que é a que verdadeiramente importa na imensa maioria dos casos. Reconheço que às vezes tenho certa dificuldade de lidar com o mal da forma como deveria, de expelir-lo e que a disciplina do Islam, a consciência de que não se pode ocultar do Altíssimo, mais próximo de nós que nossa veia jugular como diz o sagrado Alcorão, me ajuda a fazer o enorme esforço de ser o mais sincero comigo mesmo que eu puder.
Mas vejo processos similares entre meus amigos de diversas religiões,vejo uma enorme identidade nas recomendações para atingir a paz através da superação das paixões ou desejos, ou pela concentração no amor a Deus que é a fonte de toda esta nossa insaciedade – e é curioso que por conta disto muitas vezes a beleza, sempre uma expressão do divino, se apresenta de forma tão terrível, mas sobre isto falou outro dia, aproveitando o gancho de uns comentários ao Rubayat que tenho na cabeça.
Agrada-me, também, a complexa expressão ao mesmo tempo individual e comunal do Islam. Como um arabesco o Islam é cada um e a somatória dos padrões, como Deus é cada um e todos dos seus nomes e algo além disto. A idéia de cada um cuidando de sua vida, mas se apoiando como na hora das orações ainda me é simpática, mas ultimamente ando desacreditado de todo esforço coletivo organizado, de toda estruturação e institucionalização. Acho que não conseguiria suportar mais do que a roda dos caraveneiros reunidos em torno da fogueira contando e ouvindo histórias.
Já disse várias vezes, também, que embora nunca tenha sido muito ligado a rituais já pude perceber com clareza como as minhas orações, mesmo quando as faço de forma quase mecânica numa lingua que conheço pouco, ainda assim fazem efeito. Sinto sempre, como me diz o sheikh, que lá no mundo espiritual aquilo realmente faz efeito, acende, ou apaga quem sabe, uma luzinha em algum painel, limpa minha mente, me torna melhor, ás vezes até me faz ficar meio admirado com o poder de afastar o mal da minha mente. Mesmo assim acho que não seria motivo suficiente.
De tanto pensar nos motivos lembro de uma expressão que me chamou a atenção lá em Khaldun há mais d uma década, com a qual ele e quase todos os sábios encerram uma argumentação muito especulativa ou que tende a não ser muito clara: Deus sabe melhor.
Daí entendo que se ele escolher para mim este caminho, só cabe a mim segui-lo, Acato e submeto-me a vontade d'Ele, sem retrucar nem ficar buscando explicações, apenas sendo um daqueles que se submete, seja lá qual for a forma que sua submissão assuma. Enfim, rendo-me ás evidncias que é o caminho que nos escolhe, não nós que escolhemos o caminho.

Comentários

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Para se carregar Deus no

Para se carregar Deus no coração e preciso coragem..
E ele realmente nós mostra o caminho que ele escolheu e nós merecemos...

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