O aprendizado

Por conta da necessidade de organizar as idéias e planejar acabo tendo de escrever sobre política porque é difícil falar sobre outra coisa senão aquilo que se tem em mente. No meio de tantas dúvidas, incertezas, descrenças e fés vou tentando encontrar esperanças de que a política ainda possa ser um campo de luta.

Acho que poucos de todos os pensadores, antigos ou modernos, amaram tanto a democracia como o liberal e utilitarista Stuart Mill. Não vejo em nenhum outro pensador à esquerda ou à direita o mesmo sentido de defesa da democracia como valor essencial, não conjuntural, em elemento de princípio e fim em si, não mero instrumento. É com a função de preservá-la e desenvolvê-la que ele pensa as instituições, não com o de manipulá-la. Mas, encanta-me, sobretudo a noção fundamental no pensamento dele de que a democracia é o único regime no qual os homens podem aprender, desenvolver-se, portanto o único aceitável para seres humanos plenos.

Muito mais avançado e radical do que os homens-massa que acham mil desculpas para idolatrar o tipo mais desprezível de ser humano político - o ditador de qualquer tipo - Mill assinala que é impossível existir algo como um "bom déspota". Ainda que a finalidade dele realmente fosse tomar as decisões mais favoráveis ao seu povo - como alegam todos os tiranos, em geral quanto mais afundam nas suas paranóias e psicoses - que acometem 11 em cada dez tiranos, demonstrando assim tanto a sua condição subumana quanto a estupidez, covardia ou ganância daqueles que louvam os loucos - o processo em si não seria bom porque levaria a atrofia moral e intelectual do povo submetido a não ser responsável por tomar as suas decisões.

O aprendizado é assim o grande argumento em defesa da democracia. Ainda que os populismos diversos tenham em muitos lugares pervertido o conceito de democracia em si - talvez porque aplicada de cima para baixo, copiando modelos externos, em um povo que não tinha a cultura cívica necessária para operá-la com correção - coisa que Mill também fala - não deixo de crer que ainda se aprende algo. Primitivos demais em nossa concepção de política ainda vivemos da esperança que alguém faça as coisas por nós, esperamos ainda por algum Dom Sebastião e esta é a tônica de todas as campanhas eleitorais e, pior ainda, das propagandas governamentais. Somos treinados para viver sob déspotas e esperamos que quem governe aja assim.

Lembro-me de um personagem de Conrad, o italiano que dirige o hotel de Sulaco, em Nostromo, em uma republiqueta latino-americana genérica chamada de Costaguana. Veterano exilado do Exército de Garibaldi, o Sr. Viola tem entusiasmo pelas revoluções e revolucionários, mas profundo desprezo pelas sucessivas e sangrentas revoluções que ocorrem em Costaguana, nas quais fortunas trocam de mãos e a liberdade é apenas um tema vago de discursos do futuro ditador e seus capangas. Somos assim, ficamos sentados esperando que alguém faça algo por nós e no máximo nos indignamos quando as promessas impossíveis não são cumpridas.

Fico tentado a fazer uma digressão aqui em referência aos artigos anteriores porque Garibaldi sintetiza o belíssimo conceito do momento no qual as antigas elites européias chegam ao fundo do pântano da sua indignidade, deixando por completo de ter um comportamento de elite, enquanto surge uma outra elite de fato não só não-aristocrática mas anti-aristocrática no sentido mais limitado do termo. Os mil de Garibaldi, devotados à liberdade, vivendo em austeridade, sem temor e com disposição de lutar encarnam os valores eternos das verdadeiras elites, enquanto o último resquício da "nobreza" de nome mas não de direito empenha-se nas intrigas, covardias, futricas e conspirações que só os mais vis homens-massa teriam a falta de pudor de cometer.

Quando, escreveria "se" mas não percamos o otimismo, formos civilizados poderemos aprender melhor o que de fato é democracia, aceitarmos a nossa parte dos encargos, desprezaremos aqueles que fazem os discursos de déspotas dizendo ser a solução para os problemas. Quando chegarmos neste momento, aplaudiremos aqueles que nos dizem o quanto somos responsáveis pelos desmandos e vaiaremos os prestidigitadores que dão a ilusão de dar uma solução. De qualquer forma, só conseguiremos chegar neste ponto na medida em que continuarmos tendo a liberdade de errar, portanto aprender, através da democracia, qualquer outro método sendo um retrocesso.

 

 

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