O aprendiz de imbecil

Viu-se empenhado em erguer uma gigantesca muralha feita apenas de livros. A muralha crescia, crescia, ele já não podia ver o mundo ao seu redor e o próprio Sol não penetrava mais no espesso muro de livros (Herman Hesse, O Homem de muitos Livros)

Ontem, quando comecei a responder aos emails e scraps que recebi por conta do post “Uma utopia imbecil” - http://www.poderdapalavra.com.br/portal/futuro/utopia_imbecil - finalmente consegui entender algumas coisas que dizia um dos meus autores preferidos, Herman Hesse, em diversos textos, mas em especial em dois – O Jogo das Contas de Vidro e o conto O Homem de Muitos Livros (no livro Fábulas). Pode parecer estranho que eu gostasse dele antes de entendê-lo por completo, mas, enfim, estou ainda aprendendo a lidar com a minha imbecilidade e por isto ainda tenho muitas coisas para descobrir que não sei e para chegar à conclusão que eu não conhecia.

Ser esperto é algo muito fácil, já ser imbecil requer muita disciplina mental e esforço. Exibir-se, inclusive à própria modéstia, não requer também muito esforço, porque somos acostumados a fazer isto desde a infância e ao longo de todo nosso dia, já conseguir aquela limpidez de pensamento de Ivan, o Imbecil é ou um dom divino ou algo que só muito exercício pode nos dar ao longo do tempo, exigindo certo controle do pensamento que, se descuidamos, torna-se logo esperteza e todo o trabalho fica perdido. Enfim, ser imbecil, para quem não nasce puro de coração como Ivan, é um privilégio.

É esta a lição dos dois textos de Hesse que só entendi ontem, ainda que tenha os lido tantas vezes. Também hoje não vou contar a história dos dois livros, porque a finalidade não é que as pessoas não precisem lê-los, mas justamente que sintam um vontade muito grande de ir até a biblioteca mais próxima, nem que seja para dizer que eu estava errado na minha interpretação.

No Jogo das Contas de Vidro há uma comunidade dedicada com zelo religioso ao “jogo”, elaborada técnica que envolve concentração, esforço, dedicação, estudo, mas cuja finalidade não fica bem clara. No conto um personagem vive cercado por livros, nos quais prefere viver ao invés de no mundo (e quem ler alguns posts anteriores vai verificar o quanto eu não tinha entendido a mensagem), mas vai aos poucos se afastando deles até que descobre o mundo real e a vida. Também o Diabo, do conto de Tolstoi que motivou estes posts todos, tinha muito orgulho de seu trabalho intelectual, ainda que não tenha conseguido convencer os imbecis da eficiência de seu método contra as mãos calejadas deles.

É um tanto neste jogo com as palavras, argumentos, idéias, que vivem os espertos. Estão preocupados com o deleite provocado por esta distração, com o efeito que causam sobre os outros. Já os imbecis tem a preocupação com o desconforto que as palavras causarão em si mesmos. Os primeiros profanam o poder da palavra para seu prazer, os imbecis por seu lado desconfiam que há algo de sagrado nelas, alguma força que provoca inquietação.

Tenho ainda um longo caminho até conseguir tornar-me um imbecil, porque descobrir que não se tem conhecimento é muito mais difícil do que entreter a si e aos outros com alguma sombra de conhecimento. É, enfim, muito mais simples ser um almanaque de referências esparsas do que a lousa em branco na qual Deus pode ensinar através da pena.

Mas tenho conseguido fazer alguns avanços nesta área. Já me sinto, por exemplo, imbecil o suficiente para não entender porque as pessoas acham que ao depositar um voto na urna a cada dois anos exerceram sua participação política. Também já me sinto imbecil o suficiente para não ter a menor noção de todas estas sutilezas que fazem os seres humanos serem distintos em seus direitos, muito menos sou capaz de entender estas grandes teorias de que de alguma forma tentam limitar o conceito de humanidade a só uma parte dela.

Em termos teológicos minha imbecilidade já avançou bastante. leio os mais diversos livros sagrados e acho que todos eles estão dizendo exatamente a mesma coisa, às vezes até me acontece de não lembrar-me se uma determina coisa eu li em um ou outro deles. Mas não sou tão imbecil a mencioná-los pelo nome porque infelizmente sei que se fizer isto terei de ficar me desculpando com os espertos, aqueles que entendem as diferenças que há entre Deus nas diversas fés, por vários dias.

Sou absolutamente incapaz de compreender as profundas distinções que qualquer religioso com um mínimo de formação poderia apontar entre eles e quando se trata das seitas, denominações e cismas, então, os ódios que umas devotam às outras parece-me totalmente incompreensível. Penso que jamais entenderei, por mais que me expliquem, porque quanto maior a proximidade das crenças e mais sutis e frágeis as diferenças parece ser mais raivoso o ódio entre elas.

Já me estendi demais hoje e então fico por aqui neste balanço entre aquilo que ainda sei e o que pretendo um dia chegar a ignorar. Ainda não consegui ser um completo imbecil, mas, se Deus quiser, algum dia chego lá.

PS: Cheguei em casa e fui checar a referência do conto de Hesse e vi que não só o título era outro - não A Muralha dos Livros mas O Homem de Muitos Livros, que me pareceu um título infeliz e inferior ao que eu me lembrava - como que muitas coisas estavam lá bem claras, eu que não tinha entendido direito.

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Compactuo da sua opinião,

Compactuo da sua opinião, também aprecio a arte de Herman Hesse, já li: Knulp, Demian, Sidartha e O Lobo da Estepe.
Impressiona-me sobremaneira, o DESPRENDIMENTO de Herman Hesse, ainda não encontrei um escritor com tamanha grandeza espiritual. Requinte e sofisticação são peculiares aos escritores europeus e parece-me que ele (Herman Hesse)frustou esses requisitos e pautou-se pela simplicidade e sabedoria.
Atrevo-me a recomendar-lhe o livro "O Amor nos tempos do cólera" de Gabriel Gárcia Marquéz, foi o melhor livro que já li em toda a minha vida.

Fique com a Paz dos que caminham em direção à Luz.
Jaqueline

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