O Amor nos tempos

Poucas palavras tem tantos sentidos próprios e impróprios quanto Amor, muitas das incompreensão deste termo vem justamente desta multiplicidade de sentidos, das pessoas nem sempre terem utilizarem esta palavra no sentido adequado e estarem certas dela ser entendida no sentido em que é dita. Eu particularmente penso que o amor de um casal é a expressão mais adequada do termo.
Falo isto proque certamente não é difícil falar que se ama a humanidade de uma forma abstrata, mesmo quando isto é verdade, como provam tantas histórias de pessoas que sacrificaram suas vidas pessoais – e a de outras pessoas – em nome deste amor a uma causa. Este sentimento por algo abstrato é muito mais simples, por incrível que possa parecer, do que o sentimento por uma determinada pessoa concreta, porque implica naquele que é o principal “defeito” das concepções correntes de amor, que a idealização do objeto do amor, dada sua natureza abstrata.
É relativamente simples amar a humanidade, o mundo, uma idéia, uma causa, uma pátria, porque a despeito de qualquer coisa que acontecer haverá esta idealização, já o amor por outra pessoa, em seu sentido pleno, não-egoísta, requer justamente o reconhecimento de que se trata de uma outra individualidade, com uma vida concreta, diferenças e semelhanças objetivas, vontade própria, alguém cuja existência – ao menos nos relacionamentos realmente sadios – não está circunscrita a uma imagem da nossa imaginação, mas sim é outro ser de carne e osso.
Já disse em várias oportunidades que considero até interessantes mas fatalmente falsas todas as idéias de complemento, suplemento, identidades e oposições entre duas pessoas, a começar pelo mito mal compreendido de “alma gêmea” - metáfora totalmente incompreendida que fala a identidade dos vários estados do ser humano em um mundo primordial e não de qualquer necessidade de encontrar pro aqui algum tipo de complemento. Em outras palavras, se há um complemento ele só pode ser encontrado dentro de si mesmo e não em nenhum outro lugar.
É claro que esta minha negação não exclui a existência de afinidades – até mesmo de “afinidades eletivas” no sentido exato que Goethe dava ao termo. Mas mesmo estas afinidades, se são passos fundamentais de uma amizade, não são suficientes para caracterizar os laços do amor. Às vezes, pelo contrário, expressam justamente certo sentido narcisista, portanto centrado no ego, de procurar o semelhante por só ser capaz de admirar a si mesmo, por se enxergar perfeito e portanto o único objeto de adoração possível ser aquele que é parecido consigo próprio.
No sentido inverso, e aqui me lembro da referência a uma fala de uma personagem da peça “Indispensável Exercício sobre o nada” do jovem dramaturgo Johnny Kagin que já comentei em um poema há algum tempo – a busca do oposto pode indicar também uma insatisfação consigo mesmo. Ousaria assim dizer que só pela libertação destes nossos padrões mentais de buscar algo determinado – é tanto a busca do semelhante como do contrário são buscas a algo pré-determinado – é capaz de dar ao coração a liberdade necessária para amar e, mais importante, a liberdade para que o outro não seja aquilo que queremos que ele seja, mas o que ele realmente é, em outros palavras que se ame não uma imagem mental, mas uma pessoa real.
Para além do objeto, contudo, há muitas considerações a serem feitas ainda. Não acho que seja possível traçar nenhuma regra válida, nenhum padrão de conduta ou receita, ainda mais receita moral proque os princípios desta natureza ou são reconhecidos pelos próprios ou não há sentido nenhum. Há pessoas que não sentem a menor necessidade de estabelecer uma ligação profunda com outra, vive de casos rápidos em casos rápidos e nem por sito é infeliz. Nos tempos atuais, ainda mais, diria até que é este o padrão – tal como no Admirável Mundo Novo de Huxley – e nada é mais demodé do que as grandes paixões.
Eu, que me considero tão libertário nestas questões, que defendo o direito de cada um fazer aquilo que o faz sentir bem e não me sinto à vontade para colocar regras senão para mim próprio, me considero “conservador” nesta questão de não ser capaz de dividir na minha mente relacionamento e envolvimento. Não acho que eu esteja certo e os demais errados, acho apenas que para mim só quando há um envolvimento está liberta toda a dose de intensidade do momento, é desta intensidade, desta capacidade de jogar-se, atirar-se que vem uma determinada energia e intensidade que, para mim, jamais haverá em nenhuma relação casual.
Certamente não sou santo nem espero alguma beatificação, pelo contrário, diria que é justamente dos momentos e períodos nos quais não observei esta regra que retiro esta conclusão, assim também em certa medida não falo de forma abstrata, ainda que mais uma vez sinta necessidade de reafirmar que o que vale para mim pode não valer para outra pessoa. Só posso dizer que todo o imenso movimento desta entidade abstrata que chamamos de “sistema” para superficializar os relacionamentos não deve ser algo bom.
Contudo, reconheço e até vejo que o mesmo argumento serve para inúmeras outras áreas como a religião, não há uma situação ideal no passado – ao menos no passado recente e naquele no qual viveram a maioria das pessoas - que tenha se perdido. Havia talvez hipocrisia, conformismo, mas não obrigatoriamente sentimentos mais profundos – ainda que houvesse a esperança destes sentimentos.
Um caso curioso que cito em corroboração deste fato é que embora a poesia romântica de forte caráter sensual – e mesmo quase erótico – de inúmeros poetas árabes (inicialmente mas não só dirigida à Divindade, mas também materializada nas fórmulas mesmo quando o objeto era intercambiado) teve tal influência que em grande parte forjou toda a imagem romântica do ocidente e foi uma das sementes da poesia provençal – na qual pela primeira vez no ocidente, diga-se de passagem, a mulher é imaginada como um ser com vontade própria e não um objeto.
Contudo esta delicadeza e intensidade de sentimentos jamais impediu que na maioria das sociedades islâmicas, como em todas as sociedades “tradicionais” - no sentido histórico do termo – o amor ocupasse pouco espaço e fosse considerado mal conselheiro para os casamentos e até que proliferassem os casamentos arranjados – mesmo desafiando as proibições religiosas muito evidentes para que eles fossem praticados. Em outras palavras, é preciso distinguir determinado ideal existente na sociedade da sua execução concreta. Neste sentido até penso que mesmo esta superficialidade contemporânea não deixa de ser um avanço na medida em que ignora a hipocrisia – e me lembro de Santo Agostinho dizendo nas suas Confissões: “dai-me a castidade, mas não agora!” - tanto quanto me parece também um mal, na medida em que não traça nenhum ideal mais elevado a ser buscado.
Penso que há no fundo algo de positivo nestas concepções modernas na medida em que elas dão aos indivíduos a prspectiva de decidirem-se com absoluta liberdade pro viver um grande amor, não mais presos por modelos, circunstâncias, padrões, contextos sociais, nem por ilusões. Assim como penso que a absoluta alta de religiosidade e preocupação espiritual que domina a sociedade contemporânea também acaba pro abrir espaço para a vivência de uma espiritualidade e uma religiosidade mais profunda porque livre dos entraves culturais, históricos, familiares. Mas isto já seria entrar em outro tema, diria apenas que o ser humano que segue a “tradição” nos dias de hoje não deixa de fazer uma opção muito mais consciente e desconfortável – portanto com mais méritos – do que faria em qualquer outra época.
Soluções, eu certamente não tenho, ao menos no que possa servir de regra ou receita para os outros. De minha parte não me sinto mal em me sentir “demodé” - de um passado mais simbólico e imaginal do que real – e me entregar sem medo à paixão, à intensidade, ao desejo de construir relações sólidas e esta perspectiva me faz feliz.

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