Nem contrários, nem semelhantes, mas inteiros

Acho curioso, mas pobre, todas estas teorias que tentam explicar se de fato duas pesoas precisam ser semelhantes ou contrários para que o relacionamento dê certo. Para ser sincero acho até que a maior parte disto é pura bobagem, até que no passado também tenha teorizado um bocado sobre o assunto. Já pensei ter encontrado almas gêmeas, assim como o prazer da descoberta dos contrários, mas hoje sei o quanto estas snsações são ilusórias e no máximo provocam um sentimento muito aquém do verdadeiro.
Se fosse resumir o que penso hoje diria que estas reflexões são bobagens por dois grandes motivos. Em primeiro lugar porque ninguém é capaz de nos completar a não ser nós mesmos, é preciso ser inteiro para estar integralmente envolvido nos sentimentos reais. Outra pessoa pode no máximo catalisar este despertar do eu inteiro, mas ninguém pode fazer o trabalho por nós.
Em segundo lugar, até retomando um tanto temas que abordei no post de ontem, irrita-me um bom tanto a forma como o amor é pintado em tantos filmes, livros, música e poesia. Este amor-sofrimento, tão comum e tão cantado, não é o amor ao outro, mas a si mesmo. Dele não só vem a angústia, os medos, mas também ele bloqueia a entrega completa, a sensação de pular no vazio sem medo tão exaltada na boa poesia.
Este amor a si – e isto vale tanto para o amor ao oturo como para o Amor a Deus, sentimentos que para mim são similares – é o grilhão que nos prende ao chão, nos acorrenta a Dunia, ou seja a este nosso mundo vão e ilusório. Abriria um parênteses para observar as diferenças e semelhanças entre o termo islâmico Dunia e o termo hindu/budista Maya, que ao mesmo tempo são tão similares no conceito mas “personificados” de forma tão diferente, o primeiro geralmente como um local e o segundo como um indivíduo.
Sei que muitos de meus amigos muçulmanos às vezes ficam chocados, alguns até me mandam recados mal educados, com relação a tantas assimilções que faço entre o amor e a experiência religiosa. Só vejo nisto um sinal de como a riqueza espiritual do Islam está sendo perdida nas safras recentes e nem vou dizer que ao fazerem isto esquecem toda a riqueza da poesia sufi, mas que demonstram desconhecer o caráter sagrado que há no amor mútuo de um casal, tantas vezes consagrado no Sagrado Alcorão e em uma infinidade de hadiths.
Por sinal no final do post há um link para um excelente artigo sobre o assunto, Sexualidade e Espiritualidade, infelizmente em espanhol, no qual há uma comparação que me parece muito precisa entre o orgasmo e a “fana”, a aniquilação da nafs que nos liberta, ainda que por instantes, de Dunia e nos leva a estarmos dissolvidos na unidade.
Mas também não pontifico, não culpo aqueles que só consegue ver as imagens caricaturais e distorcidas destas coisas todas que habitam nosso mundo. Eu, que a vida inteira passei procurando pro este conhecimento só há pouco comecei a adquirir a sabedoria para compreendê-lo. Ainda assim com os lapsos que acontecem por conta de nossos olhos ainda estarem muito acostumados à escuridão da caverna e se ofuscarem quando vêem a luz do sol, mesmo através de alguma fresta.
Voltando, então, à introdução, eu diria que é sempre ilusório achar que precisamos de outra pessoa para ser inteiros – seja o outro similar ou oposto, pouco importa – o que vale é sermos já inteiros – ao menos potencialmente, ou seja, em vontade de ser completos – para que ao encontramos outra pessoa com o mesmo sentimento e vontade possamos um catalisar o processo no outro e construir uma unidade que não é a soma das partes, mas a fusão que só pode ocorrer fora do deserto de Dunia.

http://www.webislam.com/?idt=3162

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Inteiros sempre!

Sabe o que nos mantem na escuridão da caverna, o medo,medo de enchergar a nos mesmo, a luz do sol nos pede coragem e responsabilidade...

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