Não se trata câncer com argumentos
Só por este dia tumultuado, confuso e amedrontado em São Paulo já pude imaginar como deve ser terrível viver em um país em guerra, com este terror tornado cotidiano e ampliado diversas vezes. É mais do que suficiente para quem já é pacifista tornar-se ainda mais e para quem não é tanto assim começar a repensar em seus valores. Uma história que sempre conto quando falo de liderança é a do pugilista Muhammad ´Ali.
Na segunda metade dos anos sessenta perdeu título, fama, amigos (bom, a menos os falsos amigos) e quase perdeu a liberdade por recusar-se a responder ao alistamento, mesmo após ofertas generosas de acordo. Teve a coragem de ir contra a guerra do Vietnã em uma época na qual a maioria ainda a considerava patriótica e necessária e a sua objeção de consciência como um ato vil e covarde. Começou a luta praticamente sozinho, contra tudo e contra todos, mas quando a concluiu, vitorioso o país todo endossava sua aversão à guerra e ele voltava a ser um herói. Penso que a verdadeira liderança é esta, não a de ser líder às custas de ser um servo da opinião pública, dizendo apenas o óbvio, mas tendo a coragem de ousar desafiar a voz corrente.
É evidente que o verdadeiro líder não tenta impor esta sua vontade à força, caso no qual seria apenas um tirano sem valor. Resiste, teima, argumenta, persevera, tenta convencer até o momento no qual seu ponto de vista ser reconhecido pelos outros. Alguma hora, em algum momento - ainda que às vezes tarde demais - se a sua visão tiver valor será finalmente compreendida. Não tenho a pretensão de ter este papel, mas sinto necessidade de dizer algo a respeito deste caso de quase guerra civil que São Paulo vivencia nestes dias.
Faço esta longa introdução para dizer que a despeito de todo meu amor à paz sinto que ás vezes a hora é de lutar. De tanto se martelar discursos estereotipados sobre segurança pública, a maior parte reciclados desde a época do Regime Militar, talvez mesmo anteriores, praticamente não temos mais há tempos muito que dizer sobre o assunto a não ser repetir chavões. Enquanto o crime organizado se expandiu, se modernizou, espalhou seus tentáculos por aí continuamos a repetir a lengalenga que segurança pública é uma questão de combate à desigualdade social.
Falamos muito sobre Direitos Humanos, mas esquecemos que a própria Declaração dos Direitos Humanos diz que os artigos dela constante não podem ser usados contra os princípios dela. Até agora fomos nos desarmando em nome destes direitos, quem sabe achando que nossa atitude comoveria os gângsteres. Falar de qualquer cosia que significasse uma repressão firme ao crime organizado era ganhar um rótulo de direitista, de fascista. Enquanto sito a verdadeira barbárie, o verdadeiro fascismo, foi se armando e a cada vez mais colocando as garras para fora.
Esteve presente no episódio, por exemplo, a família dos presos do lado de fora dos presídios apedrejando a vigilância e em plena sintonia com os motins, comprovando algo que muitas vezes foi dita e rebatida com vigor. Estavam lá os 12 mil pesos beneficiados com o Indulto do Dia das Mães ajudando na articulação e na ação da grande quadrilha. Estavam lá os celulares e armas que sempre conseguem chegar aos presídios. Estava lá a perseguição aos policiais, até mesmo nas suas próprias casas. Não estavam lá, nos enterros dos policiais nenhuma das entidades de Direitos Humanos, como foi tantas vezes reclamado. Não estavam em lugar nenhum todos aqueles que reclamavam da truculência policial a qualquer ação firme da polícia (a questão tendo de ser discutida caso a caso, não transformada em panfletagem política).
Pela manhã a grande vítima do ataque da barbárie era o povo mais pobre, como sempre, e faço questão aqui de usar pobre ao invés destes eufemismos todos que na verdade insinuam que ser pobre é vergonha. Privados de ônibus, com medo, confusos, sem saber muito a quem apelar. Leio o comentário mais do que infeliz de que isto acontece porque não temos doutores o suficiente, vindo de alguém que por sinal sempre fez marketing da sua ignorância como prova de bondade e confiabilidade e quase deixo de lado os princípios e fico com muita raiva do sujeito.
A maior parte da população não teve condições de estudar e tornar-se doutor. Nem por isto sai por aí de metralhadora em punho assassinando policiais a sangue frio. Outros, felizmente muito menos, puderam estudar, tornaram doutores de porta de cadeia e servem de pombos-correio ou cosia pior para o crime organizado, outros freqüentaram as universidades como estudantes profissionais e acabaram fazendo parte do Mensalão. Penso no que há de cruel nesta visão de mundo de que as pessoas precisam ser subornadas com o acesso aos serviços públicos para não se tornarem marginais.
Muitos acharão que este é um raciocínio conservador, direitista, mas não penso assim, afinal o que há de mais nobre no pensamento de esquerda é a crença na bondade essencial do ser humano, esta é talvez a mais perene de todas as distinções possíveis entre esquerda e direita, que não é soterrada sob os muros ou serve a retóricas vazias. Certamente o crime organizado se aproveita dos vazios do Estado, tanto como os grupos extremistas do Oriente Médio, mas de nada agora que eles estão fortes e consolidados dizer que só resgatar a dignidade das pessoas dando a elas os seus direitos fundamentais vai resolver. Não se cura um câncer argumentando com ele ou fazendo uma dieta saudável depois que ele está implantado e pode ter certeza que não vai confortar nem um pouquinho o paciente falar que ele devia ter se preocupado com a saúde desde alguns anos.
É preciso, claro, pensar nos erros cometidos, refletir sobre os enganos, verificar onde se falhou, tomar medidas preventivas, mas antes é preciso extrair o câncer senão o paciente morre durante o seminário da junta médica. E eu acho que agora é essencial que a sociedade se una, faça com que a Polícia se sinta segura e legítima para agir com a dureza que a ocasião exige, antes que a metástase torne-se incontrolável contaminando as instituições e então nada mais poderá ser feito senão administrar doses de morfina e rezar.

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