Não basta a voz das urnas

“Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência e, ademais, de imaginar outra nunca existida (...)O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. A imaginação é o poder libertador que um homem tem. Um povo é capaz de organizar um Estado na medida da sua imaginação” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)
As urnas falaram! O recado dado por elas, como o do Oráculo de Delos, pode ser interpretado de várias formas conforme a capacidade de interpretação de quem recebe as mensagens truncadas desta pitonisa. Deixo assim a cada um que interprete o recado dado por elas.
De minha parte fico surpreso não só que algumas pessoas tenham sido eleitas, mas como disse sabiamente uma amiga, que tenham se candidatado depois dos escândalos, antigos ou recentes, que protagonizaram. Fico satisfeito de ver meus candidatos eleitos, fico triste de não ver entre os eleitos algumas vozes que eram tão importantes - algumas das quais eu nem concordo, mas aprecio ouvir porque sei que a busca delas é pela razão e pelos argumentos, outras que eram parlamentares dedicados, empenhados, com plena consciência de seu trabalho.
Mas o que mais me deixou triste foi ver que na maior parte dos casos prevaleceu a “covardia dos bons” de que falava Martin Luther King. Infelicidade motivada pro ver o quanto as pessoas que poderiam dar a sua colaboração ao debate sério, á decisão racional, à busca dos ideais elevados se omitiram ou deixaram de ter a ação decisiva que poderiam ter.
Às vezes me revolto com o discurso de não se interessar por política ou de que não agüenta mais política. Em termos gerais eu diria que a política está no nosso cotidiano, só fingimos não a ver, em termos particulares diria que o que de fato faltou na eleição foi política. O discurso por todo lugar foi baseado na vaga defesa de interesses corporativos, regionais, minúsculos, centrado na extensão dos direitos como se os recursos fossem ilimitados ou como se toda a discussão fosse a garantia de buscar uma fatia maior do bolo destes recursos para algum segmento específico e não fazer o que é necessário para o todo.
Não adianta culpar a política, os políticos, o sistema, as instituições, as normas e leis eleitorais, ainda que possa haver alguma razão que embase todos estes argumentos e distribua a culpa pro todos eles a questão essencial, a raiz de todos os males – e não só na política mas em todo campo – está na conduta de cada indivíduo. Cada um ao cumprir a sua parte, ao esforçar-se por melhorar o seu ambiente cumpre sua função no concerto geral da sociedade e age melhor do que se ficar reclamando que os vizinhos do lado na orquestra não fazem a função dele.
Sempre me considero ao mesmo tempo conservador e libertário, sem que dentro de mim existam muitas contradições entre estes dois ideais teoricamente opostos. Ente Esparta e Atenas eu fico com o melhor das duas. Desde Confúcio até Ortega y Gasset se frisa a necessidade da disciplina, da conduta iluminada e livre de paixões que deve ter o governante.
Entre a nobreza – entendida nas palavras de Gasset: “nobreza é sinônimo de vida esforçada, posta sempre a superar-se a si própria, a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. Desta maneira, a vida nobre fica contraposta à vida vulgar ou inerte” e não, evidentemente, a esta distorção, e mesmo inversão, do conceito que é a “nobreza” hereditária – o único regime possível seria a república de iguais. Muitos dirão, provavelmente com razão, que esta situação não é possível nestes tempos de hoje, contudo a cada e em cada um está o desafio de esforçar-se para enobrecer, distinguir entre o seleto e o vulgar e as eleições são um momento no qual é essencial fazer isto e para que cada um se empenhe.
Cada um deve ouvir agora a sua consciência, fazer um balanço da sua atuação, mas também agir. Há muitos espaços a serem ocupados ou construídos na política que estão muito além daquilo que ordinariamente se entende como espaço político. Sem olhar para os lados cada um tem o potencial de ser ao menos uma pequena luz em seu meio e lutar contra a obscuridade geral, a começar por começar a ver que os equipamentos públicos não são “ de ninguém” e sim da sociedade, portanto devemos ser capazes de buscar interferir na gestão deles, cobrar resultados, fiscalizar, controlar, defender os direitos dos demais. Quantos ás reclamações, queixas, revoltas, as deixemos com aqueles que, citando novamente Ortega y Gasset: “abandonam tranqüilamente a si próprios”.

Comentários

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Não basta a voz das urnas

Concordo plenamente com a sua opinião e parabenizo-lhe pela facilidade com que conseguiu expressar um assunto tão sério, polêmico e complexo,de maneira tão objetiva e clara.

Deveria ser lido por todo eleitor!

Abraço.

Maria Tereza Belumat

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