Misericórdia e Sabedoria

Uma grande amiga sempre me fala de orar não apenas ao Deus-Pai, mas também ao Deus-Mãe. É evidente que em uma religião tão centrada justamente na unidade divina, na superação de toda dualidade e diversidade, como é o Islam – e também o Tao, meu versículo preferido do Sagrado Alcorão, por sinal, diz o mesmo que a famosa passagem do Tao, ambos falando da criação – não há espaço simbólico para qualquer representação feminina nem masculina.
Não quer dizer, contudo, que não haja uma forte simbologia feminina, boa parte dela “lost in translation” ou reprimida em culturas patriarcais, a ponto de usualmente o Islam ser considerada um religião misógina no ocidente. Dentre os 99 nomes de Deus, os dois mais comumente invocados tanto no Sagrado Alcorão – onde abrem todas as suratas – como pelo cotidiano do bom muçulmano que nada faz antes de pronunciar a frase invocando ao menos um destes nomes, al-rahman e al-rahim, são atributos femininos.
Em geral as duas palavras são traduzidas como “O Clemente, O Misericordioso”. Me lembro de uma vez ter visto em uma tradução portuguesa de um livro xiíta a tradução como “Todo-Clemência”, “Todo-Misericórdia”. A questão ultrapassa o simples gênero da palavra, porque a raiz dos termos – rhm (e no árabe e nas outras línguas semitas como o hebraico e o aramaico a raiz das palavras é uma questão muito relevante proque guarda uma identidade de sentido) tem forte ligação com a idéia de útero.
Há, inclusive um hadith qudsi, uma das 40 tradições sagradas na qual Deus fala na primeira pessoa, na qual esta referência é bem clara e a utilização do útero como símbolo do lugar de origem é extremamente significativa. Ibn 'Arabi em muitos de seus escritos, não só se refere a Deus com um pronome feminino, mas o chama de Mãe. O mesmo faz Rumi.
De uma forma geral os nomes de Deus estão divididos, na tradição islâmica, em dois grandes atributos, Majestade e Beleza – jalal e jamal. Os do primeiro grupo em geral não só palavras masculinas, mas atributos associados a imagem masculina, patriarcal. Os do segundo, por outro lado, são atributos femininos e em geral, mas nem sempre, maternais.
Chega a não ser estranho que as visões exotéricas – ou seja, da religião formal – enfatizem os atributos da Majestade, enquanto os esotéricos – voltados para o aspecto interior da religião – enfoquem mais os femininos. Em grande parte, por sinal, o mesmo ocorre nas mais diversas tradições e quando sito não acontece há um sentido simbólico no processo.
Ao lado da Misericórdia há um outro aspecto feminino que tem um papel central em toda a cosmovisão islâmica, traçando por sinal uma vasta área de intersecção com outras tradições, inclusive a dos gnósticos cristãos e dos gregos, que é a Sabedoria – Hikmat, em árabe - muitas vezes personificada – como foi por 'Arabi em Najma ou por Rumi em Laylat, por Maria, mãe de Jesus, mesmo nos textos mais tradicionais.
Não se deve estranhar que na poesia esotérica islâmica Deus seja o Bem Amado, enquanto o buscador é o Amante, imagem que como disse em um texto anterior teve grande influência no Ocidente até hoje. Os exemplos destas simbologias são muito presentes, Maria discutindo com os doutores da lei – onde se pode ver talvez o confronto entre conhecimento e sabedoria, no fato de ser Khadija que dá ao profeta do islam a certeza da sua missão. No fato de ser através de Fatimah – cognominada justamente “A Radiante” - que o legado do profeta é transmitido e que ela seja concebida, segundo a tradição, justamente na Noite em que o Profeta faz sua Viagem Noturna. Coincidência, para quem acredita nelas, que o nome da filha do Profeta tenha se tornado um nome cristão tão comum por conta de um santuário construído numa cidade nomeada em homenagem a ela.
Ou que seja sempre através de uma mulher que os grandes sheikhs se tornam sheikhs, que seja por Sherazade que o rei acalma sua ira. Ou ainda que Ibn 'Arabi expresse como a mais alta contemplação possível de uma expressão de Deus neste mundo dos sentidos seja a contemplação da mulher amada, enfim, os exemplos são múltiplos.

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Estou aqui a varios minutos

Estou aqui a varios minutos sem saber o que comentar,pois sua Sabedoria e sua Conciencia do Deus-Pai e Deus-Mãe me paralizaram.parabéns...

Entre preces

Certa vez, numa madrugada gelada de São Paulo, meu filho teve febre. Eu tinha prometido um trabalho para o dia seguinte, logo cedo, e pretendia passar a madrugada trabalhando pra honrar o pedido. Aquela febre, repentina e forte, sacudiu meus planos e me colocou em desespero.
Muitos motivos de preocupação, evidente. Um filho doente nos põe em alerta. Eu queria entregar o tal serviço para pagar o plano de saúde, atrasado no roldão de outras inúmeras contas. Sabia que sem o pagamento não seríamos atendidos, por isso a urgência em exigir do corpo e da mente algumas horas mais de vigília pra sanar essa parte do problema.
Mas o pequeno acordava a cada meia hora, se virava do avesso despejando fora os restos da janta, do chá que preparei antes do sono, dos remédios que eu dava tentando minimizar o desconforto. Tudo o que me pedia, sem entender direito o que sentia, é que eu ficasse do lado de sua cama, massageando suas costas que ardiam sem parar. Assim eu ficava por vinte minutos até que seus olhinhos dessem um sinal de relaxamento e voltava à encomenda que garantiria a dignidade de uma consulta com o médico. Em pouco tempo de trabalho eu o ouvia chorando e voltava rápido ao seu quarto, pra trocar suas roupinhas molhadas e recomeçar o ritual de carinhos até a próxima onda de sono.
Já avançava a madrugada, ele ainda acordando de tempos em tempos, e eu já muito descompensada pelas horas de cuidados e trabalhos inacabados, quando ele me disse - mamãe, eu te amo de um tamanho maior que tudo. Retribui a declaração com um beijo e um "eu também te amo mais que tudo".
Em sua reflexão de menino, muito seriamente, me perguntou se o planeta era o maior tamanho de tudo. Expliquei que o planeta é grande, mas o universo é maior. - E o que é maior que o universo, disparou no segundo seguinte. Minha reposta imediata não podia ser outra: Maior que o universo é Deus. Já retomando a sonolência, ele se aninhou no meu colo e disse que me amava do tamanho de Deus. Assim fechou os olhinhos e senti seu corpo relaxar novamente, pra mais alguns minutos de descanso.
Saí do quarto atordoada.
Cabe tanto amor assim numa existência de criança? Me ama e se consola com um beijo e eu não posso lhe garantir a segurança de um remedinho certo ou da visita ao médico? Eu lhe digo que logo vai sentir-se melhor e ele acredita em mim, simplesmente porque é a mãe quem fala...
Quando voltei ao computador, na esperança de continuar o trabalho, já não conseguia enxergar a tela, estava exausta, descrente de mim, e uma voz fraquinha me lembrava que tem horas pra se crer sem explicações. Meu filho tem fé.
Tentando manter os olhos abertos, certa de que não conseguiria mais entregar o trabalho, me vi chorando, me vi pedindo forças, me senti rezando pra que o "Deus que é maior que tudo" me desse forças além da conta e mantivesse envolto, protegido meu anjinho, até que eu pudesse lhe assistir como se deve.
E não era mais o Deus Pai que me respondia. Lembrei das vinte horas de trabalho de parto em que me mantive forte e crente na minha capacidade. Recordei o rosto tranqüilo de meu bebê, saído do meu ventre, cuja única preocupação aparente era sentir-se acolhido no meu peito. A partir deste dia minhas preces todas foram instintivamente dirigidas ao Deus que também é Mãe, que sabe tirar ânimo além de todos os limites e protege no útero seus filhinhos até que chegue a paz.

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