A memória do herói
Agrada-me certa noção presente em algumas tradições segundo a qual a meta de nossa existência seria acrescentar certo tipo de “memória emotiva” à divindade, através a qual Ele pudesse enxergar-se. Em tal concepção o maior pecado seria ser chato, ter uma vida convencional da qual se é apenas sujeito passivo, portanto falhando do intuito fundamental da existência que seria o de acrescentar alguma vivência rica à unidade.
Se há alguma dimensão religiosa do herói ela certamente estaria contida em uma mentalidade como essa. Nas culturas mais antigas a imortalidade era privilégio justamente dos que tinham dado à vida uma dimensão heróica – só os que haviam conquistado a glória podiam habitar a ilha dos bem aventurados no qual a Idade de Ouro não tinha cessado, aos demais estava reservada a eternidade como sombra fugidia no Reino de Hades.
Com o tempo estas noções de imortalidade foram se modernizando e democratizando, perdendo a sua essência. Há pouco ainda existiam aqueles que pretendiam ser possível comprar a salvação, portanto a eternidade.
Também a noção heróica perverteu-se, lá na idade média Ibn Khaldun dizia que as reputações eram fraco indicador da qualidade dos guerreiros, generais e príncipes porque só aquele que não tinha apego a estes tipos de vaidade poderiam ter esta dimensão heróica, logo aqueles que contratavam poetas, músicos e bajuladores para saudar seus méritos é justamente porque não os tinham. Na modernidade, com os recursos da publicidade criam-se falsos heróis a todo instante e ninguém liga muito para as ações heróicas, quando muito ligam por um instante e depois se esquecem.
Quem se incomode com isto nada tem desta dimensão heróica, porque sua meta não é o reconhecimento, mas o engrandecimento de si próprio, o ter algo de interessante a contar quando retornar á unidade.
Mas, enfim, o que seria um herói!
Penso que é uma pergunta que não pode ser respondida, nem precisa. As mitologias diversas oferecem inúmeros modelos, mas o modelo fundamental, penso eu, subsiste dentro de cada um. Ao menos potencialmente cada ser humano pode atingir alguma dimensão heróica.
A grande dificuldade, contudo, é liderar a si mesmo, vencer-se, submeter à alma animal à essência divina – afinal de que outra coisa as religiões e as mitologias falam senão desta batalha fundamental – sem o que se é um escravo do nosso eu inferior. Sem esta vitória – que não é um processo mágico, mas luta diária, não haverá herói de fato. Até por isto todos os que se jactam de seu heroísmo acabam por demonstrar a falta dele, motivo pelo qual toda definição de heroísmo já começa falsa.
Há quem diga que o tempo dos heróis já passou. Não estou certo disto, pelo contrário penso que em nenhum outro momento eles foram tão necessários e tão difíceis de serem produzidos.
Vivemos nestes dias sombrios nos quais não só a questão do heroísmo não está colocada em pauta, mas mesmo falar em superar-se é fora de moda. Perdemos a noção do eterno porque valorizamos o rápido, o urgente; perdemos o sentido do esforço porque o mérito está em obter as coisas sem esforço; perdemos a noção da disciplina porque o que tem valor é não submeter-se a nada, a ser escravo do nosso ego. Ao mesmo tempo nos sentimos pequenos demais para ser heróicos, tudo é complexo, difícil, impossível.
Há também muita confusão entre submeter-se às disciplinas externas e submeter-se à própria disciplina; entre transcender o juízo dos outros, as convenções sociais – o que só pode ser feito por aquele que se libertou do desejo de agradar – com não estar sujeito a regra nenhuma e a nenhum princípio. Por mais que algumas destas coisas pareçam semelhantes – e há nos homens-massa muito esforço em confundi-las mesmo - elas não só são distintas como contrárias. Saber bem a diferença, penso, já é tarefa heróica.
Se a nossa meta fosse ser este caquinho de espelho do Altíssimo penso que poucas ações poderiam ser tão esclarecedoras do que a reflexão sobre como este valor transcendente nos guia, já que para isto seria preciso vasculhar nosso eu mais elevado em busca das pistas que Ele tivesse deixado

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