Livre-me das utopias

Desde a primeira vez que li a Utopia de Thomas Morus fiquei horrorizado e não encantado. A falta de liberdade e privacidade pareceu-me tão opressiva, o indivíduo tão sacrificado em nome de um bem estar coletivo que até me pareceu que todo este caos existente na nossa sociedade parece ser mais atraente.
Um dos trechos que pareceram-me mais tenebrosos: “Cada um, continuamente exposto ao olhar de todos, se sente na feliz contingência de trabalhar e de repousar, conforme as leis e os costumes do país”. Imagino o terror de estar todo o tempo exposto ao olhar de todos, tendo de conformar-se a agir de acordo com a vontade coletiva. Impossível pensar em uma sociedade mais propensa à hipocrisia, mais sujeita a sabe-se lá quais desvios secretos aguilhoando o cidadão oprimido.
O grande problema de praticamente todas as utopias literárias – nas quais há ao menos o mérito de se encontrar bons textos e sentidos simbólicos nem sempre visíveis (e infelizmente tomados literalmente) – e ainda mais das políticas – nas quais o mérito é impensável proque é sempre a tentativa de impor a todos a vontade de um ou de um pequeno grupo (e aqui aplico a frase de Pessoa que utilizei estes dias, que o revolucionário é aquele que não podendo aprimorar a si próprio resolve transformar o mundo) é esta necessidade de impor algo ao indivíduo, fazê-lo se encaixar em algum molde.
Alguém poderia apontar uma contradição no que digo quando falo sobre sempre se sentir sob a visão de Deus e de outro rejeitar com veemência a sujeição ao olhar coletivo. A diferença entre um e outro ponto de vista é ainda maior que a diferença entre Deus – chamando-o do nome que se desejar – e o homem, porque afinal a multidão, o coletivo, é muito inferior ao indivíduo. Na multidão sobressaisse a inconsciência, a desrazão, a hipocrisia, a incapacidade de pensar, os instintos animais que na maior parte dos seres humanos se mantém muito mais elevada. Quem já viu uma multidão enfurecida tenho certeza que me dará razão quando digo que a massa é inferior a um ser humano isolado justamente proque uma parcela da humanidade se perde no amontoado de cabeças.
O julgamento de Deus é muito superior a pequenas mesquinharias humanas. Lembro-me aqui da coragem de Tristão no conto medieval Tristão e Isolda submetendo-se a qualquer desafio que fizessem a ele para defender-se das acusações d que era culpado de amor culposo pela esposa do tio. Ainda que se diga que o caminho do inferno está pavimentado de boas intenções, quando há uma intenção pura é quase certo que se consegue a intuição da ação correta que a atende. Já os homens avaliam segundo suas idéias pré-concebidas, seus interesses, suas mesquinharias e limitações. Julga, pro sinal, muito mais rigorosamente ao outro do que a si, quando o justo que fosse tão compassivo com o outro quanto rigoroso com relação a si próprio, característica, a meu ver, do indivíduo realmente elevado.
Mas, voltando a Utopia e às utopias, fico pensando se há mérito no bem que seja feito por compulsão e não por livre vontade. Desacredito das crenças em instituições que possam tornar o homem sábio. Já acreditei que o sábio poderia tornar quase qualquer instituição sábia, hoje não compartilho mais desta crença e vejo que muita sabedoria deu resultados pífios ou negativos quando institucionalizada. A opção pelo bom e pelo belo, assim, parece-me hoje a cada momento mais uma escolha estritamente individual, que ninguém pode tomar pelo outro, nem induzi-lo ou constrangê-lo, salvo em alguns casos pelo argumento perfeito do exemplo.
Há quem possa argumentar que certo “constrangimento” é necessário para que o homem possa viver em sociedade, visão essencialmente pessimista do ser humano, mas que, admito, sustenta-se em parte pelos fatos. Ao mesmo tempo em que até posso admitir isto, vejo também os sucessivos abusos cometidos a partir deste argumento. Não é à toa que na maravilhosa anti-Utopia que é Admirável Mundo Novo seja em nome da estabilidade e até da felicidade que se vive em um mundo sem qualquer beleza ou sentimento. Escapar desta encruzilhada só pode ser resolvida em termos individuais. Talvez no quixotesco otimismo de Ortega y Gasset na sua crença na possibilidade de educar as massas, tarefa que contudo requer uma elite espiritual e intelectual que se torna muito escassa, em especial quando se pensa nesta elite nos elevados padrões de disciplina e amor pela humanidade que ele coloca.

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Gosto desse seu jeito de

Gosto desse seu jeito de desconstruir mitos pessoais e sociais. Primeiro foi o aprendiz de imbecil; agora essa crítica às utopias.
Eu penso que somente quem encontra a si mesmo, torna-se capaz de analisar a vida a partir de um ponto acima da média. E quando a esse olhar se acrescenta a habilidade em lidar com idéias e palavras, nascem textos desta qualidade com que você nos brinda.
Abraços!

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