Legados
Eu sempre acreditei e defendi a hipótese de que o meio tem uma condição fundamental na formação do homem, que é a partir dos estímulos que recebe, experiências que vive, oportunidades que tem ou deixa de ter que uma pessoa forma sua personalidade. Seriamos, então, o resultado das escolhas, da disciplina. Esta minha crença democrática e otimista é sempre muito abalada em todas as férias que consigo passar com meus filhos.
Vivendo a quase 1000 km de distância, raras vezes temos oportunidade de nos ver fora das férias, as quais nem sempre consigo, e conversas rápidas pelo telefone. Contudo há tantas semelhanças de comportamento, de jeito, de personalidade entre eles e eu, a despeito da pouca convivência, que sou obrigado a reconhecer que o meio não é tão relevante.
Não é um pensamento muito lisonjeiro comigo mesmo, afinal representa que os valores e a disciplina que tenho ou tento ter comigo é muito menos o fruto do meu esforço pessoal do que o resultado mais ou menos arbitrário de alguma combinação de genes. Sinto sempre os observando que vou me tornando aquilo que realmente sou quando me esforço para me aprimorar, portanto nada mais faço que minha obrigação.
Nas tranqüilidades e ansiedades deles vejo o quanto há de ilusório em nossas histórias e prioridades. Se eu passei boa parte de minha infância e adolescência mergulhado entre livros, enquanto meu filho prefere os esportes isto se reflete pouco em nossas personalidades tão semelhantes, mesmo com tão pouca convivência. Nossos olhares buscam o infinito em um mesmo alheamento que mostra o quão pouco dele vem dos livros, da razão, da reflexão.
Mesmo sem gostar de ler, sem ter lido nem uma fração ponderável dos livros que li com a idade dele ele escreve bem. Curioso saber que mesmo certa criatividade de que me orgulho é mais o resultado de alguma complexa equação bioquímica lá nas minhas células, mais do que algo que foi desenvolvido, cultivado. Só consigo, então, pensar em tantos pensadores - Shankara, Platão, Plotino, Nicolau de Cusa, Ibn Sina, Surahwardi, ibn ´Arabi – que destacam que não aprendemos mas apenas relembramos e nem me surpreenderia se este conhecimento chegasse de alguma forma objetiva.

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