Jornadas cotidianas
O momento exato no qual a idéia surgiu eu não saberia dizer. Talvez- há alguns meses em uma conversa na qual eu era cobrado pelo que estava fazendo com meu potencial, sugeria que editasse uma revista ou algo assim. Foi crescendo conforme meu texto ia se libertando dos adornos, das vaidades, fortalecendo-se conforme ia refletindo um tanto de mim que luta sempre para se tornar melhor. Foi ganhando sentido quando eu pensava que algumas das pessoas que estavam ali pelo meu orkut tinham um motivo para estar lá. Foi começando a enraizar-se no meio de tantas batalhas com meu ego, com a sensação de ir se libertando dos orgulhos e medos – ainda que muitos deles estejam por aqui. Consolidou-se nas crises pessoais, naqueles momentos em que Rumi diz que ocorrem os chamados.
Acho que as folhinhas ainda frágeis da idéia viram a luz do sol quando discutia a questão do Deus-pai e do Deus-mãe no post anterior. Certamente não é coincidência que tenha vindo a tona quando segui o conselho e pedi misericórdia e sabedoria, estes atributos femininos do Uno. A eclosão apareceu em uma mensagem de uma amiga – lá naquela ponte meio marcada no meu destino – dizendo que estava reabrindo seu blog destinado a falar sobre a sua vivência de ser budista.
Era isto. Um lugar no qual pessoas de diversas fés e tradições pudessem compartilhar sua vivência espiritual no cotidiano. Pessoas que não tem a pretensão de serem sábias nem santas, que não estão em mosteiros mas embebidas nas tarefas deste mundo cada vez mais materialista e consumista, mas, ainda assim querem acreditar que há um sentido em suas vidas e tentam conciliar suas inquietações espirituais com o barulho do mundo.
Nenhuma preocupação acadêmica nem teológica, nem propaganda, nem proselitismo, nem ataques a outras fés ou defesa da sua. Apenas a vontade de compartilhar a experiência pessoal, mesmo quando ela pareça tão pessoal e irreproduzível que só sirva par nós mesmos. Feita da vontade de entender o outro, de enxergar aquilo que é essencial, no mínimo saber que não se está sozinho e que quando tiramos os véus da ilusão vemos que as semelhanças estão na essência e as diferenças apenas nas aparências.
Se houve algo que sempre me manteve meio à margem das religiões estabelecidas, mesmo me considerando uma pessoa religiosa, sempre foi justamente esta noção de que elas perpetuam e fortalecem esta terrível ilusão de que os homens não são iguais entre si, não são irmãos. Jamais consegui aceitar que há uma igualdade de direitos entre todos os seres humanos, independente de qualquer coisa, que há uma fraternidade essencial e que tudo que vele esta identidade não é uma coisa boa.
Ao mesmo tempo sempre me lembro de uma passagem de Amin Maalouf no Périplo de Baldassare no qual durante uma viagem um livreiro de origem genovesa, cuja família está há séculos no Levante, conversa com um amigo judeu. Ele está tentando recuperar o livro “O Centésimo Nome”, do sheikh Mazandarani, o amigo está indo ver o pai envolvido com as conspirações messiânicas da época.
Ambos céticos mas ainda assim preocupados com as previsões de fim do mundo naquele ano de 1666. Em um diálogo o amigo judeu se diz preocupado até com a idéia de fazer bem ao próximo, proque quando temos uma fé e a achamos ótima nossa tendência e acabarmos tentando a impor ao próximo, a história estando repleta de exemplos disto.
Queremos sempre mudar o mundo, mas não nos concentramos em mudar a nós próprios, fazer só isto já seria cumprir a nossa parte, o suficiente para deixarmos de ser “cadáveres adiados que procriam”, como diz Pessoa. Falei acima da igualdade de direitos entre todos, alguns não podem viver sem a diferença de deveres, não para os outros (proque em geral isto é uma desculpa para os próprios desejos de poder), mas para si mesmos. Aqueles que como diz Ortega Y Gasset não conseguem se sentir perfeitos, como os “homens-massa”, mas vivem da vontade de superar-se e nem quando “obcecado pela vaidade é capaz de sentir-se verdadeiramente completo”.
Curioso que as pessoas foram chegando, os debates foram sendo travados de forma esparsa, um estimulando o outro, ninguém tentando impor a sua vontade mas todos tentando descobri-la. Um dia a idéia começou a despertar e ganhar forma. Disparo algumas mensagens e scraps, as respostas vão surgindo e me animando, vejo que um oásis – imagem que vai se tornando rotineira para mim – no qual os peregrinos diversos possam parar, contar suas histórias, ouvir as histórias dos demais, refrescar-se com a água cristalina que brota de tantos cantos, daí partir fortalecido, consciente de que é mais um e não está mais sozinho.

Comentários
Alexandre, emocionei-me ao
Alexandre,
emocionei-me ao ler o post de hoje.
Vejo com prazer que a idéia tomou forma e se tornou um oásis.
Que assim seja!
Abraços!
Namastê!
Deus em mim saúda,ama e serve Deus em você.Se todos nós tivessemos está conciencia não haveria guerras,fomes, miserias.
Mais sim igualdade, respeito, amor, Verdade Justiça.
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