A inebriante liberdade dos Rubayyiat de Khayyam
“Na terra cheia de cores alguém caminha:
não é muçulmano, não é infiel, nem pobre, nem rico;
não acredita na Verdade e não afirma nada.
Quem é esse, intrépido e triste?” (Khayyam)
Estou aqui há uma semana tentando terminar este texto sobre os Rubayyiat de Omar Khayyam. Engraçado que isto nunca ocorre comigo, sento, abro o micro e alguns minutos depois o texto está lá. Os raros textos que permanecem incompletos ou guardados estão em alguma gaveta real, digital ou mental proque na verdade esperam desfechos, conclusões, não é é caso deste.
Fui desgostando das versões que ia escrevendo. Eu nunca liga pra contextos, informações técnicas, informações biográficas, enfim, estes detalhes irrelevantes que aqueles que não entendem que tudo que é belo pertence a um outro mundo mais elevado no qual não há história, nem tempo, nem espaço, provavelmente nem autor. E não satisfeitos em não ser capaz de ascender a este mundo ficam inventando teorias, sistemas, críticas e interpretações para tentar roubar a beleza e impedir que os outros a vejam, tentando ocultá-la atrás desta linguagem oca, estéril e emproada de academias opostas a Academia original.
Senti vontade de voltar a fonte e passei boa parte do final de semana embriagado com cada rubai do mestre. Deixei-me levar pelas sensações, ser invadido de novo por aquela indiferença pelos mundos que os rubayyiat inspiram, deixando-me ficar possuído pela enorme vontade de viver contida neles. Curioso que há tempos não relia o texto e na última vez que o li tive sensações bem diferentes.
De todos estes maravilhosos poetas esotéricos muçulmanos – Rumi, Saadi, Attar Shams al-Tabrizi e tantos outros, quase todos persas – nenhum conseguiu tantos admiradores – e mesmo imitadores – do que Omar Khayyam. Há muito de Khayyam, por exemplo, no Fernando Pessoa ele-mesmo, como em multidões de poetas, em particular nas gerações perdidas.
Talvez eu esteja errado, tenho esta mania de às vezes confrontar opiniões estabelecidas o que dá certa fama de sábio que não mereço, mas me parece que a poesia de Khayyam é admirada justamente porque a simbologia ali contida não é de fato entendida no sentido que ele desejou. Mesmo admirando Samarcanda – este meu maravilhoso livro de cabeceira, o qual já li algumas dezenas de vezes e recomendo a todos, que tem como personagem central o manuscrito dos Rubayat de Khayyam – chego a conclusão que Amin Maalouf entendeu pouco de Khayyam e menos ainda cada rubai que cita.
O poeta persa não é um profeta da desesperança, alguém que prega que como o mundo é terrível devemos nos embriagar. Para mim, Khayyam, como Rumi, diz que devemos nos desligar das coisas ilusórias, dos ruídos deste mundo, buscando o verdadeiro prazer e consciência que existe para além de toda preocupação e toda ansiedade.
Ele não canta o desespero, os maus dias que roubam o sentido da vida. Não deixou a vida serena e a poesia para se tornar traficante de armas na África como seu leitor Baudelaire. Pelo contrário, ficou lá escrevendo horóscopos para os poderosos da época – até o começo do século a Pérsia ainda usava um calendário feito por ele no qual s meses correspondiam aos signos – fazendo suas observações astronômicas, resolvendo equações cúbicas, participando de audiências pelas cortes, recusando ou aceitando cargos políticos, mas sem jamais ligar para eles.
“É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu destino.
Se és prudente, toma o que tens à mão.
Amanhã... que sabes do amanhã?”
Não são versos de quem está perdido na falta de sentido das coisas, mas em quem já se libertou, já superou este limite humano de pensar sobre o mundo, de gastar o tempo presente pensando sobre como será o manhã ou foi o tempo, estes dois mundos habitados por espectros das nossas ansiedades. É o sentimento de quem obteve tal paz que pode viver neste mundo, em Dunya como chamam este nosso mundo ilusório os grandes sheikhs, sem se incomodar com ele porque habitam de fato para além das esferas.
Também há quem veja em Khayyam um inimigo da religião e dos religiosos, alguém que chama a descrença e portanto também é lido e admirado pelos céticos diversos, não lido e odiado pro fanáticos de todo tipo. Também não consigo ver nele este sentimento, pelo contrário só encontro nele aquela espiritualidade liberta de todo desejo de recompensa e temor de castigo, aquela relação profundamente pessoal com Deus.
Em uma passagem de Samarkanda, Maalouf coloca na boca do poeta a frase “quem precisa de salamaleques são os poderosos desta terra, Deus dispensa formalidades e bajulações”. Não sei se a frase é de Maalouf ou realmente de Khayyam, mas certamente ela é condizente com o poeta que proclama em um rubai:
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.
Ou ainda:
Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.
E, apenas para rematar o raciocínio:
É inútil te afligires por teres pecado;
também é inútil a tua contrição:
além da morte estará o Nada,
ou a Misericórdia.
Leio em algum lugar que há grande disputa entre os críticos se o amor e o vinho, personagens freqüentes dos rubais, devem ser interpretados no seu sentido literal como celebrações da vida ou como símbolos esotéricos da iluminação, do transe. Confesso que tenho certa vontade de rir da disputa e me lembro de outro rubai:
Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.
O que torna um símbolo valioso é justamente a sua capacidade de ser entendido em seus múltiplos sentidos e, além de tudo, serem válidos tanto como metáforas como enquanto realidades.
Lembrando um outro rubai:
Um jardim florido, uma bela mulher, e vinho.
Eis o meu prazer e a minha amargura,
o meu paraíso e o meu inferno.
Mas quem sabe o que é Céu e o que é Inferno?
Diria que sentido faria falar em amor ou embriaguez a quem não sabe o sentido destes símbolos. E aqui me lembro de um romance de Anatole France, Thais, sobre um monge que resolve sair da sua vida de sacrifício e oração para uma missão mundana e a consegue, mas no caminho se perde. Lembro também do Masnavi de Rumi que fala sobre as diferentes formas pelas quais o chamado espiritual se manifesta, distinguindo às vezes até com aflição, aqueles que se embriagam na saudade do retorno a Deus daqueles para os quais a vida comum neste mundo – os “cadáveres adiados que procriam, como diria Pessoa leitor de Khayyam.
Para que buscar sentido onde só há deleite, pouco importa se espiritual, físico ou ambos, parece ser melhor que cada leitor encha a taça em cada rubai daquilo que o sacia. E só para encerrar um rubai no qual o mestre fala de seu legado:
Do meu túmulo virá um tal perfume de vinho
que embriagará os que por lá passarem,
e uma tal serenidade vai pairar ali,
que os amantes não quererão se afastar.
Notas
Todos os rubayyat citados são da versão em português de Alfredo Braga
Conforme vou tendo tempo estou postando esta versão na comunidade em português de Khayyam:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=4532457&tid=2485056854725310151&start=1
Aproveito para convidar a todos que se interessam para participar desta comunidade:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4532457

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