Idéias de náufrago
“Estas são as únicas idéias verdadeiras: as idéias dos náufragos. O mais é retórica, impostura, íntima farsa. Aquele que não se sente verdadeiramente perdido se perde inexoravelmente; isto é, não se encontra jamais, nunca encontra a própria realidade” (Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas)
Escrevo ainda com Huxley na cabeça. Admiro a coragem dele de não tentar se apegar a nada de externo, a ser tão amigo da verdade que pode se manter equidistante – ainda como solitário – da diversidade de opiniões e conceitos. Esta profunda coragem que vem da sinceridade é um exemplo e um ideal, mesmo quando se discorda dele em alguns pontos, até porque Huxley, como todos os que são sinceros, não está preocupado em fazer a menor concessão para ser apreciado.
Ao mesmo tempo em que combate com vigor a manipulação feita em nome da fé, protesta de forma veemente contra a sociedade moderna que tenta aniquilar ou manipular o natural desejo de transcendência que o homem deve ter. É simultâneo na crítica do capitalismo materialista , individualista e pragmático – cujas conseqüências galopantes ele desnuda no Admirável Mundo Novo – mas não deixa de expressar seu mais profundo asco aos regimes socialistas e totalitários que tentam reduzir o homem a uma condição sub humana.
Neste ponto em especial chama a atenção para o fato que os julgamentos totalitários são muito piores e mais desumanos que a Inquisição que ele condena. Ou ainda diz o quanto os demagogos populistas são muito mais perversos e perigosos que os manipuladores religiosos. Huxley é como o Selvagem do Admirável Mundo Novo o único a falar em poesia em um mundo do qual a poesia, a beleza e o amor foram retirados para garantir a estabilidade, e que portanto está morto.
Em alguns momentos, ainda que por instantes, esforço-me para ver o mundo como o Selvagem de Huxley o vê, desprovido de sentido, desumano, feio, caótico em mio a toda a sua organização e desafiando todos os sistemas criados para tentar explicá-lo que surgem todos os dias. Nestes instantes me sinto como o náufrago de que fala Ortega Y Gasset, aquele que se liberta das idéias fantasmagóricas que criam a ilusão de sentido nas coisas e descobre que na vida tudo é problemático.
Há tantos, mas tantos paradoxos no cotidiano d quem pensa no caminho que trilha que todo aquele que não tem esta natureza de náufrago ficará tentado a aderir às tentativas de dar um sentido ás coisas e tornar a vida plana e tranqüila. Náufragos, contudo, são todos mas só alguns conseguem enxergar esta realidade, a maioria prefere aderir a algum destes sistemas que prometem explicar o mundo, acatar as explicações dadas pro alguém que talvez saiba ainda menos que ele e assim segue feliz com suas idéias fantasmagóricas.
Eu que vivo pelas palavras estou sempre temeroso de ser dominado por elas ao invés de dominá-las. É um dos paradoxos que precisam ser enfrentados, afinal tantas e tantas vezes é o conhecimento que julgamos ter que nos impede de ter acesso àquela sabedoria que precisamos ter. Por isto o conhecimento é tantas vezes a maior fonte de ignorância. Com o tempo adquiri a crença que a poesia é mais sábia que aquilo que hoje se chama de filosofia e incomparavelmente mais profunda que estas tantas aventuras acadêmicas. Não é estranho que os mais diversos mestres jamais tenham tido a preocupação de escrever, suas lições fossem quase sempre diálogos, no qual existe um contexto, existe um discernimento sobre a capacidade de entender de quem houve e, sobretudo, a noção de que deviam fazer mais perguntas que despertassem em quem ouve a dúvida e o questionamento, a descoberta do naufrágio, do que servisse de alívio, acomodação e conforto.
A atual crença mágica nos livros como relíquias capazes de trazer algum conhecimento – no limite diria que há até a “sofisticação” desta crença supersticiosa que é a crença de que só a posse de um livro, a sua compra, sem a necessidade de Lê-lo, pode ter algum efeito – cria esta ilusão de que há respostas prontas a serem encontradas. Crença por sinal muito bem aproveitada pela indústria editorial.
Sempre que me sinto capaz de ser um náufrago destaca-me sobretudo a necessidade de não precisar me apoiar em teoria ou grupo algum, libertar-me de qualquer desejo de agradar, de contemporizar, de ceder na minha visão para convencer mais. Estas institucionalizações parecem ser capazes de um terrível processo de degradação, até mesmo de mentes sãs e conscientes. O individualismo que insula o homem é certamente algo terrível, mas ao mesmo tempo parece ser evidente que resgatar-se do naufrágio é uma tarefa também solitária, algo que ninguém pode fazer por você e que você não pode fazer por ninguém. No primeiro caso porque a resposta de cada um é diversa e no segundo proque qualquer tentativa de estender para além de si a sabedoria tem todos os perigos e paradoxos de desviar-se do objetivo.

Comentários
Re: Idéias de náufrago
Boa Tarde,
Tem um novo livro super interessante sobre o Príncipe de Astúrias
um dos maiores pólos navais do mundo, naufragou no Brasil em 1916
deixando a maior mancha de sangue e mistérios já vista pelos mares do Atlântico Sul.
Vale a pena conferir para todos que gostam histórias do mar!!!
http://www.magmalivros.com.br/principe-de-asturias.html
Até mais!
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