Humano e Divino

Uma pessoa me pergunta sobre como é possível que haja tanta disputa entre as religiões se elas deveriam trazer paz e harmonia. Os céticos de todos os tempos, por sinal, tem usado costumeiramente as disputas religiosas e o sangue derramado por elas como um argumento contra a religião em si. Lembrando Confúcio e os mestres do Tao a questão fundamental aqui parece ser a confusão dos nomes.
Lembrei-me de uma cena de um velho filme do Planeta dos macacos original – senão me engano o segundo – quando os soldados estão prestes a invadir a “zona proibida” e aparecem barreiras de fogo e eles se detém. Quando aparece a figura do Legislador, base das crenças deles, o macaco sacerdote manda que eles avancem sem medo porque é uma ilusão. Quando vi a cena tive o insight claro de que isto indicava que ele sabia tratar-se de uma crença falsa proque quando a imagem apareceu ele teve confiança.
A primeira distinção, tentativa de recolocar os nomes no lugar, é distinguir ai o sagrado e o profano. A essência da religião – que a meu ver é única – do seu uso político, econômico, social, pessoal por homens desprovidos de qualquer fé verdadeira.
Lembrei-me de uma cena de um velho filme do Planeta dos Macacos original – senão me engano o segundo – quando os soldados estão prestes a invadir a “zona proibida” e aparecem barreiras de fogo e eles se detém. Quando aparece a figura do Legislador, base das crenças deles, o macaco sacerdote manda que eles avancem sem medo porque é uma ilusão. Quando vi a cena tive o insight claro de que isto indicava que ele sabia tratar-se de uma crença falsa porque quando a imagem apareceu ele teve confiança. A descrença, muito mais que o fanatismo, no fundo, está na base de todo abuso feito em nome da religião.
Há uma história no Masnavi de Rumi que dá uma outra dimensão a esta questão. Um rei que persegue os cristãos envia seu ministro como agente entre eles. Dizendo-se perseguido e tendo caído em desgraça e sido mutilado por tentar converter o rei é logo tomado como santo e mártir pro eles. Ele diverte-se ensinando 12 doutrinas diferentes – uma pregando a caridade, outra a paz, outra a guerra santa, outra o sacrifício, outra o prazer, enfim, conceitos diversos – e a cada grupo entrega um tratado teológico e indica um dos membros como seu sucessor, refugiando-se numa caverna e recusando-se a esclarecer as dúvidas, gerando confusão e guerras entre eles.
Há, nesta história uma distinção muito importante que nos dias de hoje faz toda a diferença. A divisão não é gerada na origem, mas na interpretação. A noção de que a mensagem é a mesma mas algo está “perdido na tradução” - o que não precisa significar que seja falso, apenas que estão expressos em sistemas simbólicos distintos (como diz, por exemplo o Sagrado Alcorão, a cada povo foi enviado um mensageiro para pregar na sua linguagem).
A mim, claro que é uma opinião pessoal, parece claro que conforme nos aprofundamos no estudo de cada tradição religiosa as proximidades e identidades simbolizadas vão se tornando muito semelhantes. Por outro lado a superficialidade que pega elementos diversos – quase sempre mas não obrigatoriamente, a vontade de cada um – de fés diversas tende a multiplicar ao invés de reduzir a confusão e completa o papel do vizir.
Nestes tempos de hoje há uma enorme valorização do que é novo, considerado obrigatoriamente como melhor – e para verificar isto basta ver como esta noção de novo é usada como apelo publicitário. Isto torna muito mais fácil o trabalho do vizir, afinal se há uma base comum é possível o diálogo e o debate, a descoberta de identidades, se pro outro lado não há nenhuma base senão a contestação do que existe então deixa de haver qualquer critério inteligente – ou seja não subjetivo – a partir do qual a diversidade aparente possa ser conduzida à unidade essencial. Não é à toa que Schuon dizia que este era o truque preferido do mal.
Há uma outra questão mais sutil a ser debatida que é a desvalorização do humano. Todas as religiões tradicionais implicam uma valorização do homem em seus ensinamentos e textos sagrados. Apenas para destacar um exemplo, na tradição judaico-cristã-muçulmana o homem ocupa um lugar central na criação, invejado pelo mal. Só o ser humano, dentre todos os seres criados – em todas as tradições religiosas - é feito à imagem e semelhança de Deus em sua totalidade.
A idéia de um Deus antropomorfo é apenas uma inversão do conceito tradicional do homem teomórfico. Assim a multiplicação de instâncias entre Deus e o homem, tão comum em nossos dias, é justamente a negação ou atenuação da relação pessoal entre o homem e Deus, outro ponto comum de identidade entre as várias fés. Sempre interessante destacar que etimologicamente falando, deuses não é o plural de Deus, ainda que tenha havido contaminação entre os dois termos ao longo do tempo. Deuses, nas línguas indo-européias vem de devas, enquanto Deus vem da raiz Theos, sopro. Num pequeno raciocínio, claro que pessoal, diria que a noção de representação de atributos – portanto parcial, está presente de forma nítida em “deuses”, enquanto de uma forma de outro a noção do Uno adicionando seu sopro ao homem – às vezes através de simbologias diversas – está presente nas diversas fés, todas elas destacando desd sus catecismos básicos, como cita Schuon, que só o homem pode retornar a Deus.

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