Guerreiros e pacifistas

Sou um pacifista radical, mas um pacifista que não só não deixa de admirar as qualidades de guerreiro – como dizia Gandhi, ao pacifista são necessárias todas as qualidades do guerreiro menos o crime – como também tenho a consciência de que há momentos nos quais a luta é necessária. Não só aquela luta íntima pelo aprimoramento constante, pela necessidade de superar-se sempre, mas ás vezes também a luta que tenta restabelecer o equilíbrio ao redor. Talvez por isto eu tenha a satisfação de ter entre meus amigos tantos pacifistas radicais como diversos militares e me entenda muito bem com ambos.
Aliás uma verdade que transparece em inúmeros livros de memórias escritos pro militares e em relatos de guerras é justamente que ninguém odeia tanto a guerra como os soldados, nem por isto eles se furtam ao seu dever. Os louvores à guerra como estado permanente, como ideal até – em alguns casos – vem em geral dos gabinetes refrigerados e românticos da academia e da burocracia, não dos quartéis.
Também as estratégias e táticas militares que levaram às diversas políticas de “açougueiro” - em especial nas guerras que ocorreram desde a Guerra Civil Americana, que a grosso modo foi a primeira guerra “de massas” - com grandes massacres não vieram de militares de carreira, nem de elites militares tradicionais. Não fossem as razões humanitárias, ficaria muito curioso em ver como todos estes nietzschianos de boteco que infestam a Internet iriam resistir a alguns dias na trincheira enfrentando uma investida inimiga à ponta de baioneta para cumprir o ideal de super-homem de seu mestre, só para ver se resistiriam mais do que os poucos dias que o próprio conseguiu viver no exército (claro que todos eles acham que seriam oficiais bem longe da linha de frente).
Os grandes povos é segmentos guerreiros, por sinal – mongóis, turcos, mamelucos, cossacos, highlanders escoceses (derrotados justamente por enfrentar em combate de grandes proporções os ingleses, mas depois incorporados ao ex[ercito britânico como unidade especial), celtas (o grande mérito de estrategista de Cesar foi sobretudo forçar Vercingetórix a um confronto direto de grandes proporções, do qual o líder gaulês fugia), citas e tantos outros – sempre evitaram a carnificina e o embate direto, procurando elo contrário o combate de atrito. Também neste sentido não se pode esquecer que buscar o confronto direto somente quando há condições de superioridade é um dos conselhos mais persistentes e evidente da Arte da Guerra.
A guerra, eu diria, só é bonita entre aqueles que a conhecem só através de alguma imaginação romântica, alguma impressão subjetiva. Aqueles que realmente a lutam sabem que ela tem faces terríveis, mas tem a sensação de dever suficiente para saber que mesmo sendo sempre ruim às vezes é inevitável. Não me arriscaria a definir algum parâmetro objetivo sobre a “guerra justa” - dilema ético, religioso e filosófico debatido há milênios sem alguma resposta totalmente satisfatória. Penso que é uma questão tão complexa, tão cheia de nuances, tão influenciada pelas propagandas e ideologias, que não pode ser totalmente resolvida salvo em alguns poucos casos.
Um deles, que eu já citei inúmeras vezes, é a atual luta entre Estado com a sociedade contra o crime organizado. Luta que embora, para mim, seja evidentemente uma guerra tão justa como necessária, tem sido alvo de críticas e emperramentos pelo que me parece um excesso de pacifismo que pode até ser letal para a civilização – ao menos em algumas regiões - em algum ponto do futuro. Claro que é necessário combater o crime organizado também através da extensão dos serviços e equipamentos públicos às zonas de litígio, com a educação, a cultura, o lazer, o desenvolvimento econômico e tudo mais, estas questões também fazem parte da batalha. Mas, enfim, este é apenas um exemplo para debate, sem nenhuma pretensão de encerrar o assunto nem desviar da questão principal.
Dois livros bem conhecidos, por sua vez, falam um pouco do excesso de formalismo da disciplina militar, que acaba levando a certo esvaziamento de sentido. De um lado “O Deserto dos Tártaros” de Dino Buzatti – onde um forte meio esquecido é mantido especialmente pela ilusão de glória que um dia seria trazida por uma guerra improvável, no qual o excesso de preocupação com o regulamento preenche o vazio de atividade. O outro é “O Cavaleiro Inexistente” de Italo Calvino, no qual se confronta a minuciosa preocupação regulamentar de um cavaleiro que não existe, a vanglória dos outros paladinos e o ardor de dois jovens cavaleiros meio revoltados com toda aquela burocracia que lhes parece sem glória.
Vale lembrar que também em “Nada de novo no Front” – livro que comentei há alguns dias - Erich Remarque em diversos momentos ironiza e até critica ferozmente os militares que estavam bem longe da linha de frente e se apegavam a todos os formalismos possíveis, até desvalorizando aqueles que realmente estavam arriscando a vida. É o caso de um major que exige as continências regulamentares e ameaça puni-lo por “trazer os maus hábitos da frente” ou o sargento instrutor que tortura os recrutas, mas treme de medo quando é mandado para a frente e revela-se um completo covarde.
Se a belicosidade é um comportamento deplorável é preciso reconhecer que também o é a covardia. Quando a primeira se volta para si próprio pode levar ao necessário aprimoramento, mas mesmo aí há limites, há momentos no qual ela se torna auto-destrutiva. A covardia, pro sua vez, mesmo em pequena quantidade acaba levando a uma degradação do ser humano. A postura adequada do pacifista, assim, me parece ser aquela na qual a rejeição da violência e do conflito não é movida pela covardia, mas por certa coragem realmente guerreira, porque no soldado há sobretudo o auto-controle e não a mera expansão desenfreada das paixões e iras, cimo pensam aqueles que desconhecem de fato a guerra.

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