Forma e conteúdo

Forma e conteúdo

Alexandre Gomes

"O que é escrito sem esforço é lido sem prazer" ( Johnson)

A arte em todas as suas manifestações é prolífera em debates inúteis nos quais se radicalizam posições já em si extremadas e deixa-se de lado o sábio "caminho do meio". Um dos mais estéreis nichos deste debate é o que tenta antepor forma e conteúdo.
O estrago nesta área foi certamente maior nas artes plásticas, onde criou-se o mito de que só a forma é importante e gerou-se uma avalanche de artistas mais preocupados em mostrar que inovam as técnicas do que em dizer qualquer coisa por menor que seja. O que era uma vaga de renovação e sensibilidade nos impressionistas acabou por se tornar uma desculpa para iludir o público nos ultra-trans-neo-vanguardistas.
Em uma frase memorável Borges (desculpem-me os parcos leitores pela citação quase diária de Borges) diz que quem diz que a arte não deve expressar doutrinas em geral refere-se apenas às doutrinas que lhe são contrárias.
Na literatura vem se dando processo semelhante e é preciso muita coragem para não admitir que os grandes escritores deste século mal chegam aos pés dos seus antecessores das épocas passadas. Com a pretensão de serem cosmopolitas acabam sendo provincianos ao extremo, o pior tipo de provinciano, ou seja aquele típico intelectual de província que dedica a vida a maldizer o lugar onde vive e que tenta impressionar os demais não pelo talento, mas pela adoção mecânica das últimas modas do mundo civilizado.
O romance psicológico que de início era novidade tornou-se norma irritante, repetitivo, desculpa para esconder a falta de uma boa história. Borges, de novo, em um texto no qual comenta a obra de Hawthorne contrapõe o conto ao romance afirmando que no primeiro o eixo se encontra no enredo e no segundo nos personagens. Como toda classificação também a de Borges tende a ser arbitrária, mas não de todo desprovida de utilidade.
Há na literatura atual uma falta absoluta de contistas neste sentido de Borges, Não no Brasil, mas no mundo. Faltam "griots" modernos que sejam contadores de história, ao menos para o meu gosto como leitor.
Tento cumprir uma velha obrigação legada por um professor já falecido de ler a Montanha Mágica de Mann, mas nem a sensação de que lá há uma mensagem que ele teria me deixado me anima a escalar as 800 páginas de perfis psicológicos e diálogos pretensamente intelectuais - que na gíria de hoje chama-se "papo-cabeça" por algum motivo que escapa ao meu cotnrole.
Se eu que sempre fui um rato de biblioteca, que devoro livros atrás de livros não consigo ler, assim como jamais conclui o Ulisses de Joyce que tentei ler infindáveis vezes, imagino que o texto deve realmente ser muito chato (quem sabe não foi esta a mensagem que o professor quis me passar?). Já nem falo da intragável literatura americana da qual só salvo Poe, Hawthorne e alguma coisa de Steinbeck.
Avalio que nestes textos todo há um desequilíbrio entre forma e conteúdo, há uma maestria no manejo da forma que não é acompanhado nem de perto pelo conteúdo. O imenso painel humano, psicológico e ideológico da Montanha Mágica, por exemplo, soa artificial, como se fosse um experiemnto de laboratório ao invés de parecer com o microcosmo que Mann tentou criar.
Que os adeptos da forma me perdoem, mas certamente uma boa história mal contada é ainda bem contada, mas uma bela composição formal sem conteúdo algum - como a poesia parnasiana - não é absolutamente nada. Daí concluo que o conteúdo é superior à forma, ainda que não possa prescindir dela e ganhe muito se estiver embalado em uma forma adequada.

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