A Flauta de Rumi

Uma amiga me pede que eu explique Rumi, que cito tanto e que tem estado tão presente em tudo que faço nos últimos tempos. Não me sinto a vontade para explicar, afinal a mesma pergunta há poucos meses teria uma resposta muito distinta, porque antes eu nada entendia de Rumi, sabia alguns belos versos, alguns detalhes biográficos, tinha uma idéia mais ou menos vaga das coisas sobre as quais ele falava.

Nunca esperem de mim alguma explicação acadêmica sobre o assunto. Não ligo para contextos, datas e coisas do tipo, apenas para a impressão que este ou aquele autor causa em mim, a forma como eu o entendi – que pode até ser a errada, mas e daí, já que o importante é a imagem dele em mim.

Para explicar Rumi ao invés de ir buscar algum poema dele eu prefiro pegar algo bem contemporâneo – bom, já ouvia quando era criança, mas acho que dá pra dizer que é contemporâneo – a letra de Pedaço de Mim, de Chico Buarque. O sentimento mais essencial de Rumi é o mesmo desta música tão triste. Cito um verso, meio ao acaso porque poderia citar qualquer outro:


Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

O tema central de Rumi é a saudade, a dor da separação, que ele expressa de várias formas uma das mais belas é quando diz que o canto da flauta é triste pela saudade que sente do junco do qual foi cortada. Também expressa esta saudade na ausência de seu mestre Shams al-Tabrizi ou mencionando a história corânica da paixão escandalosa de Zuleika, esposa de Potifar, por José.

Esta saudade, este sentimento de insaciedade, estas buscas todas, diz Rumi, são na verdade uma transferência, uma expressão de um sentimento que não somos capazes de alcançar de imediato: a dor da alma por estar separada do Uno. Para ele somos como a flauta que lembra e sofre por não estar mais ligada ao junco e por isto canta.

Esta sensação está expressa em diversas metáforas, a embriaguez, o amor, a identidade com o outro, as saudades do Bem-Amado, a dor da perda. Mas não são só metáforas, mas símbolos mais expressivos porque também estes tantos estados não só expressam o que no fundo é esta sensação de separação da Unidade como também podem ser portas através das quais se pode chegar a desvelar o Amor Divino, do qual todos os demais amores são emanações.

Não é estranho, assim, que diversas ordens sufis – bem como instituições semelhantes da mais variadas fés – busquem entre aqueles que outros julgam perdidos, porque de uma forma estranha entre esses às vezes é possível encontrar corações despertos incapazes de encontrar o caminho. Os corações, contudo, não podem ser despertados à força e sempre acho que fazem mais bem do que mal aqueles que tentam fazê-lo assombrando os infelizes com ameaças terríveis se não despertarem, situação que só serve para causar inútil ansiedade.

Os simples mortais com suas vidas sem inquietudes só tem um coração que dorme, portanto não imagino que qualquer um possa entender Rumi. Talvez possam achar belo, repetir alguns versos, até colocá-lo entre seus autores preferidos – como eu próprio fiz tantas vezes – mas para entender realmente Rumi é preciso vê-lo com os olhos que Majnun – o apaixonado – vê Laylat – o objeto da sua paixão (curioso que a palavra tenha a mesma raiz de Lilith).

O próprio Rumi não entenderia sua poesia e sua música se não tivesse sido iluminado pelo Sol de Tabriz, o pobre derviche que um dia o visitou, arrancou de suas mãos o manuscrito que ele escrevia, mostrou como tudo que ele vivia era vaidade e ilusão e o convidou a atender ao chamado de seu coração, despertando-o. Um viu no outro algo distinto do que todos os demais viam. Reza a lenda que Shams havia ofertado a alma a Deus em troca de ser capaz de despertar um coração.

É na superação da dor da perda de seu mestre desaparecido que Rumi consegue desvelar aquele amor profundo, aquele amor que não é reflexo nem emanação, o Amor Divino, único que é capaz de reparar esta sensação de ter um pedaço de si separado do todo. Mas aqueles que estão entre os pobres mortais e não sentiram o amor não conseguirão despertar para aquele Amor mais profundo, aquele Amor que permite transcender a identidade.

As pessoas costumam confundir o amor ao outro com o amor ao ego disfarçado. O Amor de que fala Rumi não é este último, nem a dor profunda da qual ele fala é estas inquietações do ego que afligem aqueles que amam a si próprios. Mas sobre isto nada do que eu falar pode ser entendido por quem não sentiu e tudo que eu falar já é bem sabido por aqueles que já viveram isto. Digo apenas que quando este sentimento ocorre muitas vezes ele é capaz de ser estendido à humanidade, ao mundo, não se fixa no objeto porque ele dá a compreensão da unidade mais profunda.

Comentários

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Não vou cometer a

Não vou cometer a redundância de comentar este texto que deleita os olhos e faz o coração cantar.
Feliz é o autor que consegue em uma página explicar de modo tão poético o sentido da Vida.
Abraços!

Muito!

Os versos são muito bons! Gostaria de ter mais tempo de ler poesias como essas! Gosto de Tagore! Sinto um como que elas me dessem vida!
Um mistério, mística!!!

Moisés Viana - Comunidade Poesia Mística (Orkut)!

O amado .

"Eu olhei em torno, procurando-O. Ele não estava na Cruz. Dirigi-me ao templo do ídolo, ao antigo pagode; nenhum sinal Dele era visível ali. Fui então para a Caaba; Ele não se achava naquele refúgio de velhos e jovens. Perguntei a Ibn Sina (Avicena) do Seu estado; Ele não se achava ao alcance de Ibn Sina. Olhei para o meu próprio coração. Aí eu O vi. Ele não estava em nenhum outro lugar."

É incrível o jeito que

É incrível o jeito que você descreveu sobre o Rumi e concordo plenamente com você que não é todo mundo que entende o tão profundo e complexo que são os poemas,pois a maioria das coisas tem que ser vividas...Esse ultimo fim de semana aconteceu em Jarinu (uma escola de sabedoria) a festa de Rumi e só com vivências que consegui entender ainda mais suas palavras...Seui que tenho muitas coisas ainda para parender,ou melhor vivenciar,constatar, pois só nas constatações,que podemos sentir as suas palavras,o que ele está querendo dizer...Resumindo deixar com que a essencia viva dentro de você esquecendo sua personalidade e amando a tudo e a todos...Pude ter essas experiencias por poucas vezes e em muito pouco tempo,mas se já pude sentir o gostinho do que é com certeza se Trabalhar cada vez mais vou conseguir cada vez mais e todos sonseguem...è só querer e fazert um Esforço...E lembre-se :"O Limite é o Céu"
Abraços e beijos da amiga

É incrível o jeito que

É incrível o jeito que você descreveu sobre o Rumi e concordo plenamente com você que não é todo mundo que entende o tão profundo e complexo que são os poemas,pois a maioria das coisas tem que ser vividas...Esse ultimo fim de semana aconteceu em Jarinu (uma escola de sabedoria) a festa de Rumi e só com vivências que consegui entender ainda mais suas palavras...Sei que tenho muitas coisas ainda para aprender,ou melhor vivenciar,constatar, pois só nas constatações,que podemos sentir as suas palavras,o que ele está querendo dizer...Resumindo deixar com que a essencia viva dentro de você esquecendo sua personalidade e amando a tudo e a todos...Pude ter essas experiencias por poucas vezes e em muito pouco tempo,mas se já pude sentir o gostinho do que é ,com certeza se Trabalhar cada vez mais vou conseguir cada vez mais e todos conseguem...é só querer e fazer um Esforço...E lembre-se :"O Limite é o Céu"
Abraços e beijos da amiga

Sobre Rumi... Caro Alexandre,

Sobre Rumi...
Caro Alexandre, gostaria de enviar-lhe um material sobre Rumi, para seu conhecimento e apreciação. Poderia enviar um e-mail para onde eu possa passar mais informações, caso tenha interesse?
Grata.
Um abraço.
Carmen

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