Filhos do Sol, filhos da terra
A terra desempenha em inúmeras crenças - para não falar da imagem no senso comum - um papel gerador. Já houve mesmo teorias científicas e econômicas sobre o papel da terra. Assim como não nos damos conta que na realidade o sol não nasce e se põe todos os dias - a despeito destas imagens estarem fortemente enraizadas na nossa linguagem diária - também o papel da terra na geração e manutenção da vida é ínfimo.
A terra não é muito mais do que simples suporte. A energia para a vida vem do Sol, a matéria que a compõe vem do ar e da água, da terra se utiliza uma pequena porção de componentes em geral complementares. A ciência já comprovou isto há mais de um século, mas continuamos a dar à terra este papel gerador.
Penso no sentido simbólico desta realidade - porque a característica de todo processo natural é ter também um sentido simbólico porque todos os processos, no final, são um só.
É curioso que a terra é símbolo do que é estável, permanente, sólido. Também a vemos como símbolo materno. Na mitologia islâmica a diferença entre os seres humanos e os djins é que somos feitos de água e terra enquanto os djins são feitos de ar e fogo.
Mas grosso modo, tanto do ponto de vista científico como mitológico somos como os djins, feitos de ar e fogo. Cada átomo de carbono que está em nossos corpos um dia esteve no ar, cada joule de energia que os mantém unidos um dia chegou á terra na forma de raios solares.
Penso também em outras analogias possíveis para esta constatação. Por exemplo que mesmo nos julgando filhos da terra, somos na verdade filhos do sol, da luz, mesmo quando esta realidade é mascarada pelas aparências. Da terra temos o suporte, uma pequena fração de nossos componentes - lembro aquela pequena parcela de não-divindade que foi necessária misturar-se ao Todo para gerar o cosmo.
Toda interpretação literal - como a que costuma ser feita pelos que ignoram os símbolos - tende ao disparate. Penso nos grupos extremistas que afirmam viver de luz, de uma forma ou de outra todos vivem de luz porque é a energia solar que sustenta a maior parte da vida do planeta.
É a transformação da energia solar em energia química que permite o crescimento das plantas, portanto dos animais que se alimentam delas e dos animais que se alimentam dos que se alimentam de plantas ou de outros animais. Salvo parte das fontes artificiais - energia hidrelétrica e nuclear - e uma ínfima proporção de fontes naturais de energia química no fundo dos oceanos toda a energia que circula no planeta vem da luz do sol.
Penso na beleza desta constatação de que não somos seres da terra, somos apenas a materialização de uma luz superior que nos infunde a energia necessári para sobreviver.

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