Fila infernal
Estava outro dia na fila do banco quando uma senhora resolveu converter na marra o caixa, para desespero do caixa de de todos na fila. Durante uns quinze minutos ela tentou convencê-lo a ir até sua Igreja, entregar a ele a intimação de Jesus para que ele lá comparecesse caso contrário coisas terríveis ocorreriam a ele. De todos que estavam lá, eu inclusive, o caixa foi o que melhor se comportou, foi tentando se esquivar de forma educada e polida, tão educada e polida que a senhora entendeu a delicadeza dele como atenção e ia insistindo.
Por uns quinze minutos infernou a vida do rapaz e dos demais na fila. Infernou aqui em sentido literal, porque certamente a insistência prepotente dela, a invasão do espaço e da liberdade de todos fez com que todos se afastassem um bocado de Deus. Chegou um momento no qual o pobre caixa percebeu que se não fosse mais claro a mulher não sairia dali de jeito nenhum virou pra ela e disse que não adiantava ela falar porque ele não iria até a Igreja dela e ela estava atrapalhando as pessoas que precisavam do Caixa inutilmente.
Ele disse isto em um tom firme e decidido, mas educado, sem levantar a voz. A mulher, quase aos berros virou pra fila e disse “Como ele é grosseiro, vocês não acham! Está mesmo com Satanás dentro dele e não quer tirar!” e saiu ofendida indo procurar outras vítimas para o seu exorcismo.
Em primeiro lugar peço desculpas a todos os leitores protestantes, por usar um exemplo tirado da comunidade deles. Sei que a maioria dos que freqüentam qualquer uma das muitas denominaços são em geral pessoa ótimas, equilibradas, organizadas e até mais diligentes e disciplinadas que a maioria dos brasileiros.
Só utilizei aqui como exemplo este caso pelo caráter emblemático e corriqueiro, porque esta é uma cena do nosso cotidiano. Poderia também ter feito referência a muitos de meus irmãos muçulmanos, alguns dos quais até investidos de algum poder para falar em nome da comunidade, que fazem papel tão feio em todos os encontros multireligiosos falando não da unidade das fé em Deus tão belamente expressa no Sagrado Alcorão, mas de discursos nos quais ou colocam o Islam como alvo de alguma conspiração, pobre vítima de interesses inconfessáveis envolvendo um monte de politicagem no discurso ou, pior ainda, contrariam o espírito do próprio evento dizendo o quanto o Islam é a melhor religião. Isto quando não fazem os dois discursos inúteis, antipáticos e, a meu ver, equivocados.
Não acredito em proselitismo de nenhuma espécie. Para mim sempre parece uma violência, um tentativa de impor nosso ponto de vista a outro e nos encher de orgulho e, na nossa mente, de créditos junto a Deus como bons recrutadores. O importante é o destino comum, não o caminho que leva a ele, como disse um mestre sufi, os caminhos para Deus são tantos quanto são os corações dos homens.
Durante muito tempo achei que não deveria escrever sobre assuntos religiosos ou espirituais. Sempre me assusta o medo da hipocrisia e me anima a idéia que um exemplo simples é melhor que todas as pregações possíveis. Contudo, mesmo sendo um péssimo muçulmano, às vezes sou tomado destas preocupações e então se torna difícil não escrever sobre estes assuntos, de forma nenhuma como alguém que tem respostas, mas apenas como alguém que quer fazer perguntas, imaginando que estas também sejam úteis a outros que também estão em alguma senda ou em busca delas.
É com este espírito não de crítica, mas de tentar compreender, que menciono este episódio do banco. Lembro-me de quantas vezes, mesmo que com mais sutileza, fiz coisas similares não só na religião, mas na política, no jornalismo, na literatura e em tantos outros campos porque é quase da minha natureza ter juizos absolutos sobre as coisas, ainda que felizmente jamais me aferre a eles, nem prenda meu pensamento com os grilhões dos sistemas e rótulos.
Não sei quanto aos outros, mas tive muitos momentos de fé cega. Não nego que houve momentos em que esta âncora firme, esta bússola do rumo certo, este mapa do correto me foi útil. Também vejo nos outros muitas vezes que esta certeza é produtiva, ajuda a reconstruir muitas vidas nas quais a esperança tinha se esgotado.
Mas acho que há dois inconvenientes nesta fortaleza inexpugnável da fé. A primeira diz respeito aos outros, à esta atitude de tentar converter todos os outros a sua verdade. Muitas vezes isto surge como uma forma de amor ao próximo, um desejo de compartilhar aquela paz que se obteve. Mas aos poucos este sentimento original, quando não é baseado apenas no exemplo, vai sendo contaminado pelo lodo da vaidade, pelo barro da ambição, vai transformando a água cristalina daquele amor inicial em um pântano.
Mais grave, contudo, é o resultado pessoal de se encastelar em uma visão de mundo. Quando isto acontece nós chegamos á conclusão de que já sabemos tudo e com isto paremos de aprender e de questionar. Estagnamos e com isto perdemos este atributo essencial do ser humano que é a curiosidade, tão importante em nossa evolução, inclusive física.
Aterroriza a maior parte das pessoas a noção que as dúvidas também podem ser abençoadas, talvez até mais do que as certezas. Mas só através do questionamento podemos descobrir que estamos vivos.

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