A face terrível da guerra

Penso que uma das maiores qualidades de “Nada de novo no Front” de Erich Maria Remarque é o fato de ter sido escrito por um soldado. Não é uma reflexão pacifista abstrata, construída nos gabinetes. Chego a achar curioso que na narração das cenas cotidianas, nem por isto menos terríveis, da frente de batalha ele destaque justamente a imensa vontade de viver, o aguçamento da vontade, o raciocínio par além de qualquer limite, salvo às vezes a camaradagem, enfim, todas aquelas modificações no soldado que são enaltecidas por tantos pensadores militaristas – Nietzsche em particular – mas que são mostradas em toda a sua crueza e crueldade, nos seus efeitos desumanizadores. E quem diz isto é um bravo soldado, condecorado, que arriscou a vida pelo país mesmo sentindo a inutilidade da guerra.
Impressionante como depois de ler o livro vi seus reflexos em algumas dezenas de filmes de guerra, fiquei na dúvida se estes tantos pontos de similitude devem-se ao fato de roteiristas, diretores e atores terem lido o livro ou assistido o filme baseado nele – realizado pela primeira vez um ano após o livro ser lançado. Ou então se qualquer relato sincero da triste experiência da guerra se parece.
Remarque, contudo, falhou em alertar o mundo e em especial a sua Alemanha natal contra o mal da guerra, acabou banido, perseguido, teve o livro queimado nas fogueiras nazistas, a irmã executada e a cidadania alemã cassada, viveu a maior parte de sua vida no exílio. Deve ter sido um reconforto tardio ter se tornado popular de novo, alguns anos antes de sua morte, na década de 60 quando seu livro voltou a ser invocado contra a guerra, desta vez a do Vietnã.
Claro que não contarei o livro, mas a primeira cena descreve bem a confusa luta pela sobrevivência que acontece na guerra. A companhia na qual ele serve comemora as rações duplas que aliviam a fome - “o mais importante é manter-se alimentado”, comenta ele várias vezes – e o fato da alimentação extra decorrer do fato de que metade da companhia ter sido dizimada em uma ofensiva antes do cozinheiro ser avisado é apenas um detalhe. Há quem dissesse talvez que a luta pela vida reduzida a sua expressão mais básica, sem espaço para qualquer sentimentalismo, é um bem, mas é bem provável que quem pense assim não tenha passado pelos horrores do autor.
É “engraçado” que Remarque não contradiga, pro exemplo, Nietzsche, pelo contrário é quase possível lê-lo nas entrelinhas. A diferença não é no tipo de homem de sobrevive ao Front, mas na profunda angústia que queima e devora o coração do “super-homem” que confrontou-se tanto com seu instintos mais elementares e precisou despir-se de qualquer outro sentimento exceto o companheirismo dos amigos próximos, que nada mais restou a ele.
A guerra não é glamurosa, é m matadouro interminável e em sentido, que destroi não só os corpos dos que morrem, mas a alma dos que sobrevivem. Ao mesmo tempo ele destaca que o mal é a guerra em si, que não se deve a algum desvio, a algum excesso, mas que a própria guerra em si exige este aguçamento dos instintos de sobrevivência certo automatismo para que “funcione”. Várias vezes companhias inteiras de novatos são dizimadas por causa do treinamento falho, da incapacidade de manter-se frio. Há momentos nos quais os próprio soldados mais acovardados precisam ser mortos pelos colegas para evitar que o pânico deles prejudique a todos. Enfim, a guerra não é uma coisa bonita, nem heróica.
Fico pensando como se sentiria o soldado de uma outra batalha menos desprovida de sentido que a I Guerra Mundial, mera matança inútil provocada pelas ambições chauvinistas. Há, sem dúvida, guerras que são necessárias como o combate ao nazi-fascismo na 2a. Guerra. Ao mesmo tempo os relatos terríveis de Remarque são uma homenagem e um álibi para o soldado, uma demonstração de que este não é um cruel carniceiro como podem pintar os pacifistas que não tiveram de enfrentar o confronto, mas apenas um ser humano confrontado com as necessidades mais prementes de sobreviver, para o qual a morte está no cotidiano e no acaso, com a qual é necessário amar a vida acima de qualquer coisa para enfrentar o pavor e o medo, numa proporção muito mais heróica do que podem traçar qualquer um daqueles que idealizam a guerra.

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