A execução de Saddam e os sonhos de outro mundo

Uma das coisas que me deixa mais impressionado na política, em especial de certos segmentos da esquerda, é a facilidade com que colocam viseiras em função de sentimentos “táticos”. Um grande exemplo disto é a comoção destes segmentos por conta da morte de Saddam Hussein.
Não tenho simpatia alguma pela pena de morte, menos ainda pelas execuções públicas e também achei que o “espetáculo” do enforcamento de Saddam foi lamentável. Mas é um sentimento que me atinge por ser ele um ser humano, como qualquer outro, não há a menor simpatia por este ditador sanguinário, do tipo que o mundo fica muito melhor sem.
Não consigo ter a menor simpatia ou empatia por qualquer tipo de ditador. Por definição eles são para mim pessoas fracas, amedrontadas e incapazes de convencer e persuadir, portanto precisam se esconder atrás da demagogia, do emocionalismo e sentimentos perversos da massa, da polícia secreta e da censura a imprensa para garantir-se no poder. Para mim todos são lamentáveis e qualquer um que demonstre apreciação por algum deles – independente de ideologia que tenha ou diga ter – cai muito no meu conceito e dificilmente conseguirei levar suas opiniões políticas a sério.
Saddam foi um ditador sanguinário, responsável por genocídios, algoz de seu povo, chegou ao poder através de um golpe e se manteve pela força, pelo terror e, no último momento, por uma reversão da política laica de seu partido em um apelo demagógico e hipócrita ornado de certa preocupação religiosa.
Nem como democrata, nem como antiimperialista, nem como muçulmano consigo ter qualquer simpatia por Saddam. Achei a guerra tão lamentável e mal-intencionada quanto à execução de Saddam – acho que cada povo deve ser capaz de livrar-se sozinho dos ditadores que criou por ação ou omissão – mas nem por isto deixo de achar que o mundo ficou melhor sem Saddam e nem deixo de esperar que outros Saddams que povoam o mundo não tenham ficado um pouco mais amedrontados ao ver na morte de um igual o destino que – se Deus quiser – aguarda todos os faraós nesta ou na outra vida.
Fico triste em ver que muitos muçulmanos mostram certa simpatia por Saddam baseados em falta de informação ou em um espírito de corpo. A guerra no Iraque foi uma luta do império contra um ditador, certamente cabia a todos ser contra a guerra, mas daí a ter simpatia pela figura deplorável de Saddam apenas porque ele estava na outra ponta da batalha é uma grande distância.
Houve um tempo em que a esquerda criava ídolos que mesmo com alguma ressalva neste processo eram pessoas cujas atitudes eram compatíveis com a admiração. A ruptura das ideologias e a desconstrução das utopias fez com que o mundo real irrompesse nos sonhos e ideais e hoje o que se vê de uma forma geral é a admiração por personagens detestáveis, grotescos até – como Chavez. Sem querer provocar polêmica diria que em muitos casos esta admiração não é gratuita – no pior sentido do termo – mas vem de patrocínios ou esperanças de financiamento, como no Fórum Social Mundial realizado na Venezuela, no qual Chavez recebeu em elegias muito mais do que gastou em publicidade. Este comportamento só avilta as duas partes, vaidosos e interesseiros.
A preocupação humanista que sempre marcou os segmentos mais simpáticos da esquerda parece ter morrido. Tem-se todos os métodos dos piores segmentos – demagogia, justificativas táticas e estratégicas, “ética relativa”, arrogância das vanguardas – mas não se tem mais nem uma grande e nobre causa, um futuro mundo utópico a construir. Para quem começou a vida militando na esquerda e até hoje se considera mais próximo da “esquerda” no espectro ideológico não deixa de ser triste ver quão pouco de sonho e ideal sobrou.

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