Eu, eu mesmo e meu blog

"Cada amigo representa um mundo em nós, e é apenas através deste encontro que este mundo nasce" (Anaïs Nin, Diários)

Falar sobre o que se escreve é meio caminho para o pedantismo, eu mesmo disse há alguns dias na melhor das comunidades do Orkut de que faço parte, a do Espaço Cultural Briva, as outras que me perdoem mas qualidade do debate é fundamental, que a arte conceitual é uma versão esnobe daquelas bandas de axé que lançam um novo tipo de dança, fazem uma música ensinando como dança-la e depois voltam á obscuridade de onde nunca deviam ter saído. Assim falar no blog sobre o blog que se escreve acaba sendo um tanto tautológico.
Mas há alguns momentos nos quais é necessário fazer isto, avaliar erros e acertos, redefinir objetivos, enfim, refletir sobre o que está sendo feito. Meu blog começou com três personagens, o ator principal sendo este djinn escritor que mantenho prisioneiro e que obrigo a escrever, eu próprio, Alexandre Gomes e um certo personagem que tem algo de sheikh e que chamo pelo nome que adotei quando me tornei muçulmano em janeiro de 95, Hilal Iskandar, ainda que quase ninguém me chame no mundo real por este nome.
Poucas vezes sou eu próprio que escrevo – por isto há diversos assuntos que eu dificilmente toco, em especial aqueles mais pessoais. Aqueles que me lêem sempre muitas vezes já sabem quando é o djinn que redige – com sua erudição adquirida em anos dentro da garrafa só com livros para ocupar o tédio, com aquela certa arrogância típica da sua raça de fogo, suas frases e epigramas tendentes a perfeição e a serem memoráveis – e quando é Hilal que escreve – com seu estilo ao mesmo tempo elevado e simples, cheio de lacunas que se preenchem na mente do leitor, repleto de indicações simbólicas criptografadas a ponto de só ser compreendidas por completo por alguns, mas transparentes a ponto de tocar o coração de todos. Eu sinto quando é um ou outro, percebo às vezes até quando um escrve e outro conclui ou revisa. Hoje, suponho que quem escreve sou eu mesmo.
Nem tão dominado pela vaidade intelectual como o djinn, nem capaz de elevar-se e manter-se nas alturas como Hilal, equilibro-me entre estes dois mundos. Não há nada aqui de dualidade, de lado bom e lado ruim, destas imagens de conflitos maniqueístas – e Mani nada tem a ver com isto, como demonstra o belíssimo Jardins de Luz de Amin Maalouf que fala da vida deste grande sábio. Na tradição islâmica os djinns, ao contrários dos demônios da tradição cristã, não são obrigatoriamente maus, podem até ser convertidos e há passagens do Sagrado Alcorão dedicadas a eles.
Desconfio até que quando não estou olhando Hilal tenta converter o meu djinn-writer. Digo isto porque às vezes mesmo quando é o djinn que escreve por mim lê já não tem tanto aquela certa arrogância que tinha antes e às vezes começa a olhar para seus milhares de anos de leituras diversas com um pouco mais de humildade. Mas também é necessário dizer que mesmo quando Hilal escreve há traços do sarcasmo amargo e inevitável do djinn, salvo em alguns poucos textos muito inspirados.
Como não se trata de um dualismo entre eles não me sinto como aquelas imagens de estar entre um anjo e um demônio. Pelo contrário, dependendo do que quero dizer entrego o trabalho a um ou a outro, assim como acho que para analisar o mundo há vezes que um determinado conjunto de idéias de algum autor serve para analisar um problema, mas é um disparate quando aplicado em outra parte, também acho que há assunto que devem ser feitos por um ou por outro. Não me debato entre eles, no máximo sou o árbitro que atribui as tarefas a um ou outro. Também não é de forma alguma um dualismo entre razão e emoção. São apenas duas razões diferentes e duas diferentes formas de sentir as reações ao mundo.
Com o passar do tempo este trio acabou aumentando com a troca de correspondência com tantas pessoas que fui descobrindo – ou pelas quais fui descoberto ou reencontrado - ao longo do tempo. Também eles acabaram participando da equipe porque é muitas vezes no diálogo com eles que vão surgindo os posts, vão aparecendo as idéias, vão sendo distribuídos os temas, principalmente vai se aprimorando as idéias colocadas de uma forma sempre meio apressada no blog. Às vezes há passagens inteiras de algum post que está faltando, como sempre me chama a atenção a Cláudia alertando para o fato de que não estou falando só com ela, por conta de que na verdade é quase sempre parte de um diálogo.
Às vezes o diálogo até vira conferência porque de um post produzido de uma das conversas surgem conversas com outras pessoas, gerando outros posts e assim vai se formando uma espiral virtuosa que lapida as idéias meio vagas, resolve algumas dúvidas e, principalmente, gera muitas e muitas dúvidas novas. O melhor deste processo, sempre, é que nunca há a intenção de convencer e muito menos de converter, ninguém quer ganhar o debate – nem mesmo o djinn – mas todos querem dar um passos a mais.
Só para concluir, penso em como pude passar tanto tempo de minha vida sem este espaço maravilhoso, no qual meus múltiplos papéis podem se encontrar e encontrar uma unidade.


PS: esqueci de dar o link da comunidade do Briva Espaço Cultural no orkut
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4020040

Comentários

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Esquizofrenia virtual

Só tenho a agradecer por este mundo paralelo que a louca tecnologia nos abriu. Poder te conhecer e também te perceber em momentos de diálogo interior, prazeirosamente dividos com outros tantos loucos virtuais, é realmente uma bênção pós moderna. A partir de agora vou te ler com outros olhos e brincar de ouvir tuas vozes misturadas aos meus próprios delírios.
Mando um beijo, um abraço e um cheiro... Decidam entre vocês a divisão dos carinhos!

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