Ética e Estética
Mergulhei em textos díspares nestes dias para tentar subir um degrau na compreensão das relações entre ética e estética, uma das muitas questões nas quais oscilo de paradoxo em paradoxo sem conseguir chegar a uma conclusão objetiva. De um lado parecem-me razoáveis as formulações tradicionais que ressaltam a beleza como esplendor da verdade – na frase famosa de Platão – mas considero pobre as formulações que estacam a harmonia, o equilíbrio, a proporção, como “sintomas” do que é belo.
A meu ver este tipo de concepção acaba levando a uma estagnação, à produção que acaba se prendendo a fórmulas e por não ousar perde o sentido, vira imitação e com isto perde seu caráter de arte e em conseqüência sua beleza. Particularmente neste mundo que se torna cada vez mais caótico estas concepções que ressaltam a ordem e a harmonia parecem se tornar extemporâneas e incapazes de sensibilizar.
Lembro de duas reflexões absolutamente distintas. De um lado São Bernando criticando “estas terríveis coisas belas” referindo-se à arte sacra medieval repleta de fórmulas grandiosas, defendendo uma volta a uma concepção mais naturalista e na qual se voltasse a ver na natureza uma imagem do sagrado. Curioso que qualquer coisa “bucólica” hoje em dia soa fundamentalmente como fals, pois a natureza não faz mais parte do cotidiano da imensa maioria de nós, quantos pro exemplo já viram uma ovelha para serem capazes de imaginar um pastor?
De outro me lembro de Henry Muller, com seu texto caótico, grosseiro – penso particularmente no Trópico de Câncer, por exemplo – no qual, contudo, há um desejo de se enxergar para além das convenções.
Parafraseando Borges, para o qual toda arte “engajada” era lamentável e segundo o qual “a única arte reacionária é a medíocre”, penso também que o maior sinal de que qualquer limite facilmente acaba levando à mediocridade proque de tanto tentar prender a inspiração acaba afastando-a. Mas, paradoxalmente, nem sempre me agrada este certo pessimismo que tende para o niilismo do que é contemporâneo, que tenta convencer as pessoas da inutilidade da vida. Curiosamente eu diria que eu próprio me policio bastante e costumo deixar de lado tudo que escrevo que não me parece “bom”.
Há, claro, dois tipos de negação da realidade e nem sempre é fácil distingui-las, talvez proque nem mesmo o autor as distinguia. De um lado a negação dos sentidos humanos, terrenos, da vida, concepção que embora pareça às vezes pessimista não é de fato para quem tem alguma compreensão de que não estamos restritos à existência física. De outro lado, porém, há a compreensão dos desejos constantemente frustrados de um ser humano cuja realidade é sofrer e morrer e pronto. Mas esta não é uma distinção objetiva, varia conforme quem lê, até em que época lê.
Talvez um pouco por isto me lembre de Henry Muller, em cuja “obscenidade” há o mérito de buscar o rompimento com as fórmulas estabelecidas e em cuja “grosseria” há uma dúvida sobre o mundo ter sentido ou o ser humano ser apenas um “piolho”. Como todo bom escritor de verdade ele não chega a conclusões, apenas formula questões. Curioso que só por este traço é possível distinguir a literatura e a sabedoria dos infinitos textos de auto-ajuda que circulam por aí – sempre lembrando que os grandes mestres de todas as tradições em geral não escreviam, motivo pelo qual seriam odiados hoje pela indústria editorial que fatura milhões com a prolixidade daqueles que se dizem discípulos deles.
Mas como “medir” se uma obra de arte atinge este ideal subjetivo de arte que é fazer pensar, transcendendo a mera percepção sensível para atingir diretamente a consciência?
Ao mesmo tempo como não falar de angústia, de pessimismo, de falta de sentido em um mundo no qual o ser humano está insulado, desligado de tudo que diga respeito ao outro e desligado de tudo que é transcendente. As fórmulas estéticas dos tradicionalistas, como Schuon e ainda mais como Guénon, parecem ser absolutamente insatisfatórias, artificiais, quase inúteis e absolutamente improdutivas e “mediocrizantes” quando aplicadas neste mundo contemporâneo. Certamente são válidas para se examinar uma miniatura persa ou uma catedral gótica, mas estas são expressões que não fazem mais parte do nosso mundo, “recriá-las” seria produzir uma falsidade e portanto um objeto desprovido de verdade, portanto de real beleza.
Ao mesmo tempo também vejo falta de sentido no extremo oposto, naquela criação que é feita com o intuito exclusivo de chocar, cujo único conteúdo está contido na violação das regras, em ser “novo” como se isto bastasse. Ao mesmo tempo que certa dose de “absurdo” e “assombro” é essencial á arte – e mesmo o conservador Aristóteles reconhece este elemento como essencial – ele tem de ser ferramenta, não é capaz de substituir por si só o conteúdo.
Mas é impossível definir os limites claros entre estes dois extremos – que na verdade é um limite só, entre o sincero e o artificial e assim os redutos “academicistas” e “ultra-pós-vanguardistas” são em essência a expressão do mesmo tipo de mediocridade. Qualquer teorização sobre o assunto só pode desviar a atenção do verdadeiro foco – e aqui me lembro deste personagem contemporâneo cada vez menos raro do pseudo-artista que produz para a crítica – porque a utilidade da Beleza é justamente ser capaz de transcender o conhecimento discursivo. Daí, penso eu, será que toda esta reflexão que fiz até aqui não é absolutamente inútil?

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