Eterno e etéreo

“O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem” (Guimarães Rosa, citado no artigo Sobre política e jardinagem, Folha de São Paulo, 19/5/200 de Rubem Alves)

Continuo preocupado com a “poesia da política”. O foco da minha meditação diária, daquele pequeno espaço no qual me esforço para estar conectado ao sagrado e desligado das urgências, tem sido fugir das armadilhas da realidade e reunir forças para não se render a algum pragmatismo. Houve tempos no qual eu achava que o pragmatismo era um passo essencial para encher de carne o esqueleto da utopia.

Hoje acho que já temos pragmatismo demais. O desafio hoje é continuar sonhando. Curioso que em nenhum outro momento da minha vida tive o poder individual de fazer as coisas. Há tantas coisas agora que dependem mais de mim do que de qualquer outra pessoa. Sem o esforço de visualisar os sonhos de olhos abertos eu imagino que seria fácil se perder por estes labirintos nos quais a modernidade anda.

Só tenho pedido a Deus ser capaz de manter o foco e sonhar. Paradoxal que como pessoa que decide foque o sonho enquanto como conselheiro sempre me esforcei em ser realista e quase pragmático. Parece-me o sinal de estar em um caminho reto, salvo se a autocrítica já tenha ido para o espaço e eu não tenha me dado conta. Li em algum lugar que não há coisa mais difícil que salvar um povo que não quer ser salvo.

Não concordo, mas reconheço quanto há de obstáculos em todos os caminhos. Estamos nos afundando em um pantanal. Afundando todos juntos, porque mesmo aqueles que apontam enorme indignação com os rumos das cosias, em especial da política, não tem nojo, mas inveja. Indignam-se não por aquelas coisas ocorrerem, mas porque não estão incluídos nelas. E neste todos reúno boa parte, a imensa maioria, do povo.

Muitos dos sonhos e projetos desabam porque as lideranças políticas – da rua à nação – estão preocupados em sobreviver e a corrupção começa quando um político é pesado a partir do dinheiro que dá a esta ou aquela entidade ou liderança. Não temos democracia, apenas um imenso mercado das consciências. Para ter créditos para adquirir produtos neste mercado adianta pouco ter boas idéias, fazer projetos interessantes e discursos significativos. É preciso apenas ter dinheiro.

O poder da palavra, a persuasão, no máximo garante uma boa barganha, mas não a vitória. Como mais vale o dinheiro que a palavra, então o que passa a valer é a capacidade de transformar palavra em dinheiro.

Alquimistas ao contrário, transformando o que é nobre em vil!

Estes têm o futuro quase garantido, mesmo se pegos com a mão na massa poderão ser anistiados pela inconsciência coletiva e voltarão consagrados na eleição seguinte. Mas não sou um homem sem esperanças – não tenho talvez aquela esperança dúbia como a que ficou pres ao gargalo do jarro de Pandora – mas tenho a esperança de que ainda é possível construir o novo. Minha esperança reside em um pilar prático e outro etéreo. O pilar prático é que haverá um momento no qual não haverá mais dinheiro em circulação suficiente para comprar consciências. Um dia chega-se ao fundo do cofre e neste dia as tensões não poderão mais ser aliviadas pela propina grande ou pequena – porque aumenta os que querem vender mas os preços sobem. Tem de se chegar a um momento no qual será preciso ser tão vil para ter dinheiro suficiente para comprar a parte de poder que cada cidadão que será evidente que estamos no fundo do poço e é preciso começar de novo a acreditar.

A outra esperança reside na crença de que o aviltamento não é a condição normal do ser humano. A nobreza do comportamento e a autoridade moral hão de voltar a tocar o coração os homens algum dia. Mesmo nos ambientes mais sórdidos ainda haverá situações nas quais alguém poderá exercer o poder com autoridade e a pequena luz que vier dali será capaz de iluminar a treva em volta ou ao menos demonstrar que a luz não é um fato de ficção. Em qualquer caso, estas esperanças residem na possibilidade da existência de uma elite no sentido mais antigo e preciso da palavra que não abra mão de seu dever e ouse assumir suas responsabilidades e negar os atalhos, que tenha a autoridade do exemplo, da vida simples, da rejeição da força pelo argumento, da dedicação muito acima dos padrões esperados, da capacidade de abrir mão aquilo que as afasta do centro. Se esta suposição comprovar-se falsa, então não há esperanças.

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