Está na hora desta “gente diferenciada” mostrar seu valor
> Foi uma besteira, uma frase infeliz dando vazão ao preconceito grotesco que é de bom tom manifestar nos eventos sociais privados mas que se evita expressar em público, mas corre o risco de desencadear um mobilização social e - claro – política como há duas décadas não se via e finalmente começar a concretizar alguma das muitas esperanças de uma internet como veículo democrático.
Vai ser mais um flashmob sem maiores consequências além da curtição ou o “Churrascão da Gente Diferenciada” vai se tornar a nossa Praça Tahrir e obrigar as demandas de democracia política e social efetiva serem finalmente colocadas na agenda?
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Eu, particularmente, não tenho a resposta e não imagino que ninguém a tenha neste momento mas acho que o Churrascão, com toda a irreverência, tem este potencial pra ser nossa Praça Tahir sim.
Não é possível se enganar pela pequena magnitude do evento gerador. Revoluções maiores já começaram com fatos ainda menores - que é o “Se não tem pão comam bolo” de Maria Antonieta perto da manifestação de asco pelo povo da moradora de Higienópolis? - como a história cansa de mostrar, e a motivação do Churrascão tem todos os elementos para ser um grande evento histórico, inclusive o ser pitoresco e ao mesmo tempo sintetizar em um pequeno gesto uma montanha de contradições e ressentimentos acumulados por séculos de exclusão social e discriminação exatamente em um momento no qual os segmentos oprimidos da relação encontram-se em uma situação de força e prestígio.
Adicionalmente há muitos elementos martelando um conflito que demanda solução, a própria referência depreciativa ao “povão” feita pelo mais ilustre morador de Higienópolis há algumas semanas ainda não foi bem deglutida e ao invés de dividir acabou solidarizando os segmentos me´dios que ele queria atingir com os segmentos mais pobres que ele desprezou, tanto pela solidariedade na discriminação quanto pela ascensão recente da tal “nova classe média”. Toda a truculência de Bolsonaro também contribuiu também para criar uma tensão social de reação à discriminação que também joga lenha na fogueira de toda esta tensão social represada.
O Apartheid socioespacial paulistano faz com que dos seis distritos com maior densidade populacional três estejam nos limites extremos da cidade. E é assim há muito tempo, tanto que o Bixiga deve seu nome ao fato de ser o bairro da “gente diferenciada” do passado, lazarentos, mendigos, libertos e seus patronos as vítimas da varíola, enquanto Higienópolis tem este nome justamente porque era a área alta, drenada, saudável da cidade construída para que os ricos residissem nela.
Assim o horror da moradora a que a gente diferenciada contaminasse seu ambiente asséptico e higiênico expressa nada mais que uma convicção quase natural, reforçada por mais de dois séculos de planejamento urbano, de que ali era o lugar dela e que a gente diferenciada não pertencia àquele espaço, que ela tinha pago caro justamente para ver-se livre de ter contato com este “tipo de gente”.
Não há morador da periferia que sacoleja por três a quatro horas por dia, horas roubadas do seu lazer, educação, cultura, descanso e convívio familiar (mas neste assunto os eternos defensores da família nunca se metem cobrando soluções) às vezes mais, no transporte coletivo que não sonhe em ter uma estação do metrô próxima de casa, mesmo sendo um metrô que saia lotado nos horários de pico. No imaginário desta pobre população a recusa do metro em nome de manter a higiene do bairro soa como um tapa na cara.
A elite brasileira sempre foi reacionária e odiou seu povo, isto não é novidade e basta aproveitar a data do 13 de maio e acompanhar os debates que se travaram para a abolição da escravidão para ver o quanto ela evoluiu pouco tanto na visão de mundo quanto nos argumentos. A paciência do povo, contudo, esgota-se um dia de tanto esperar que ela chegue ao menos até o começo do século XX, que pelo menos deixe de lado os temores de Cotegipe e as teorias de Gobineau. E este momento está visivelmente próximo. Ficaria admirado, mas não surpreso, se tudo começasse no Churrascão.

Comentários
Só pelo último take da
Só pelo último take da filmagem fica clara o quão tendenciosa e parcial é essa reportagem.
Os trechos do abaixo
Os trechos do abaixo assinado, proposto pela entidade que representa o bairro e subscrito por 3500 moradores (e até agora não condenado por nenhum) mostra que os videos expressam sim o pensamento de uma parcela dos moradores do bairro, sem nenhuma tendenciosidade:
4 – Uma estação na avenida Angélica, entre a Avenida Higienópolis e a rua Pará, aumentará o fluxo de pessoas em circulação na região, especialmente em dias de jogos e shows.
5 - O aumento deste fluxo de pessoas no bairro deve gerar um aumento de ocorrências indesejáveis, afetando a qualidade de vida dos moradores que estão acostumados a andar a pé.
6 – As obras do METRÔ causam impacto profundo nos prédios e ruas vizinhas em um raio próximo.
Acidentes como o que aconteceu na construção da estação Pinheiros são imprevisíveis. Higienópolis
é um bairro verticalizado com construções antigas e prédios muito próximos um do outro.
7 -Estações de METRÔ geram um aumento natural do comércio ambulante. Pelo tamanho previsto da Estação Angélica, pode virar um camelódromo e degradar o entorno.
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