A espada e a pena

A espada e a pena

A Construção da imagem do Islamismo na mídia brasileira

Anteprojeto de pesquisa

Carlos Alexandre Gomes

Sumário

Apresentação: A construção da imagem do Islam na mídia brasileira *

Fundamentos teóricos *

O outro, o Mesmo *

As armadilhas *

A espada do Islam *

Fundamentalismo Islâmico *

Índice de tabelas

Tabela I - Menções a algumas religiões selecionadas nos textos da Folha de São Paulo entre 94 e 98. *

Tabela II - Conflitos Etnopolíticos 93-94 *

Tabela III - Conflitos Étnicos 93 *

Apresentação: A construção da imagem do Islam na mídia brasileira

O Islamismo - ou mais apropriadamente Islam - ocupa parte significativa do noticiário diário tanto nos jornais e revista como na TV. Uma consulta ao arquivo da Folha de São Paulo (

), por exemplo, revela um total de 540 menções a Islamismo, número só superado pelas referências a Cristianismo. Pesquisa similar no Jornal O Estado de São Paulo revela 455 textos com referências ao Islamismo.

Tabela I - Menções a algumas religiões selecionadas nos textos da Folha de São Paulo entre 94 e 98.

Religião

Número de textos

Número de títulos

Cristianismo

638

7

Islamismo

540

18

Catolicismo

520

16

Judaísmo

375

18

Budismo

326

27

Protestantismo

118

4

Hinduísmo

76

1

Fonte: CD-Rom da Folha de São Paulo, 94-98

É evidente que parte destas referências justifica-se pela emergência de diversos conflitos ao redor do mundo envolvendo muçulmanos (ver Tabela II e Tabela III). Ainda assim poucas vezes estes conflitos são analisados em maior profundidade e quase sempre as causas políticas, sociais, econômicas e históricas dos conflitos são negligenciados em favor de uma explicação simplista baseada em rivalidades religiosas.

Tabela II - Conflitos Etnopolíticos 93-94

Intracivilizacional

Intercivilizacional

Total

Islamismo

11

15

26

Outros

19

5

24

Total

30
20
50

Fonte: Gur, citado por Huntington, pág 327.

Tabela III - Conflitos Étnicos 93

Intracivilizacional

Intercivilizacional

Total

Islamismo

7

21

28

Outros

21

10

31

Total

28
31
59

Fonte: Huntington, pág 327.

Assim qualquer conflito envolvendo muçulmanos torna-se um conflito religioso, ainda que em boa parte das vezes o conflito sequer tenha algo a ver com religiòa ou esta ocupa apenas um pequeno papel como motivador do conflito. Em muitos casos, como se tentará demosntrar durante a pesquisa, grupos e governos laicos são rotulados como muçulmanos, como no caso da Indonésia ou Iraque. Em outros, como no caso de Kossovo, a identidade muçulmana das vítimas é sistematicamente ignorada pela mídia.

Em outras palavras, sempre que possível o agressor é identificado como muçulmano, sempre que possível a vítima é não identificada como muçulmana. Geralmente existe também uma identificação entre o conflito e uma resistência contra a modernidade responsável pelo rótulo de "reacionário" e "fundamentalista" comumemente associado ao Islam.

O Terrorismo, outro rótulo normalmente associado ao Islamismo, é usado asism como o de "fundamentalista", de forma indiscriminada. Assim o bombardeio de áreas civis ao Sul do Líbano por Israel não é considerado nem uma atrocidade nem um ato terrorista, mas os ataques da milícia xiíta Hezbollah a alvos militares israelenses em área libanese ocupada o são.

Evidente que não se pretende negar aqui nem a existência destes conflitos nem se justificar atos terroristas. Contudo se tentará demonstrar que existe um viés sistemático na cobertura da imprensa sobre fatos relacionados ao Islamismo destinado a reforçar uma imagem ideológica do outro o mais terrível quanto possível.

Ainda que possa ser notado algum esforço para reduzir a imagem estereotipada, até proque ela vai se tornando insustentável pelo conflito com os fatos, persiste o viés, mais sutil e portanto mais perigoso. Said discutiu os objetivos e motivações desta imagem estereotipada em três livros, um dos quais tratando especificamente da cobertura - no duplo sentido da palavra - do Islam pela mídia.

Segundo ele a construção de um discurso orientalista, que se amplia para a imagem estereotipada do islam na mídia ocidental, está diretamente vinculada à necessidade de legitimar a dominação imperialista sobre estas nações. Ao longo deste processo se aliena da condição de humanidade o outro e se reforça a noção de civilização Ocidental como Universal.

Outro autor que aborda o tema, John Esposito, vai mais além e vincula a necessidade de criação de um mito da Ameaça Islâmica à permanência de elevados gastos militares injustificáveis depois do fim da Guerra Fria. Huntington constrói um cenário no qual está previsto um conflito mais ou menos inevitável entre o Ocidente e as outras civilizações, dentre as quais a mais passível de conflito é a Islâmica tanto pela ampla herança no imaginário ocidental do muçulmano como o "Outro" por excelência como pela existência de uma ampla linha de fratura entre as duas civilizações.

Mas as amplas referências ao Islam na mídia não se restringe a editoria de Internacional, mas se espalha por diversos setores do jornal, em especial pelas editorias de Cultura e Opinião. Se existe um visível esforço pela superação das visões estereotipadas dos muçulmanos na Editoria Internacional, o mesmo não ocorre em outras editorias nas quais é justamente o estereótipo que é utilizado não mais associados aos fatos, mas justamente como um rótulo, às vezes quase como um xingamento e - aqui se concentra o eixo central do trabalho - como um símbolo de tudo que seja atrasado, reacionário, antiquado ou contrário a uma modernidade que se pretende inevitável.

Para além das motivações levantadas pelos autores citados, se levanta nesta pesquisa a hipótese de que a mídia, se apropriando de fatos e associando-os a esta atávica visão do Islam como o "Outro" detestável, tenta construir uma imagem ideológica do Islam que sirva de contraste aos valores morais, estéticos e até espirituais que se pretende difundir.

Neste processo o contraste Modernidade x Islam - dicotomia que, como se pretende demonstrar, é frequente na mídia - parece visar uma alienação do homem frente ao processo da modernidade, visto não mais como um fruto do seu esforço coletivo, mas como algo além, inelutável e, sobretudo, que precisa ser aceito tal como é apresentado. Neste sentido se reforça a imagem de um reino de trevas fundamentalista que seria a única alternativa a esta modernidade que é exposta.

Fundamentos teóricos

O outro, o Mesmo

O etnocentrismo é praticamente tão velho como a humanidade. Não há tribo que não se considere o centro do universo e é sintomático que praticamente todos os povos chamem a si mesmo pelo nome de "humanos" ou palavra de significado similar em suas línguas e utilize nomes pejorativos para os outros, especialmente seus vizinhos.

Mesmo as visões que tentam recuperar a identidade essencial da raça humana em geral assimilam esta identidade a uma aceitação dos valores impostos pela cultura que tem esta noção. O contraponto à diversidade das culturas seria, portanto, a aceitação dos valores de uma civilização, ainda que este processo varie nos graus de violência e sujeição aplicados ao outro.

Mas há outra questão por detrás deste processo nem sempre percebida. A "demonização" do outro não é apenas uma justificativa para a agressão, a guerra, a conquista, mas é também um importante instrumento para consolidar os valores e imagens ideológicas do próprio grupo.

Os grupos definem-se - como destacou Gurvitch - também - e fundamentalmente - em oposição ao outro. Neste processo o outro deixa de ser real para tornar-se uma construção ideológica, um monstro dotado de todos os defeitos e qualidades opostos ao da sociedade que o constrói.

Assim não é estranho, como notou Said, que a moralista sociedade vitoriana pintasse os muçulmanos como lúbricos e libidinosos e a lúbrica sociedade contemporânea os pinte como moralistas extremos. Um rápido exame dos fatos é suficiente para demonstrar que quem mudou não foram as sociedades muçulmanas, mas as ocidentais e - ao alterarem seus códigos morais - inverteram sua imagem ideológica dos muçulmanos, falsas tanto em um caso como no outro porque estereotipada.

Nesta fase da modernidade tardia a mídia tem um papel essencial neste processo de consolidação da imagem e dos valores dos grupos através da demonização do adversário. Ela consolida em milhares de notas diárias os estereótipos dos "vizinhos" e ao fazer isto incute nas pessoas as noções do que é aceitável ou não na sua própria sociedade.

O objetivo deste estudo preliminar é demonstrar como se dá este processo através de uma análise do noticiário sobre o Islamismo. A escolha do Islamismo se justifica pelo fato dos muçulmanos sempre terem sido os vizinhos próximos da Civilização Ocidental com quem compartilham o que Huntington chamou de "as fronteiras ensangüentadas do Islam".

A existência desta "linha de fratura" milenar fez com que o muçulmano fosse a imagem do Outro por excelência no imaginário ocidental. Assim através dele a cultura eurocêntrica pode demonizar os comportamentos que não aceita e fortalecer seus próprios valores, conceitos, pré-conceitos e visão de mundo.

Said já demonstrou em seu livro excepcional que existe um outro Oriente que não é o Oriente Geográfico, mas aquele que só existe como eixo de um discurso orientalista destinado a justificar a supremacia ocidental. Tentando ir mais além, é preciso enxergar que este "discurso" é também uma forma de socialização na qual se define claramente quais os comportamentos socialmente aceitáveis e os valores desejáveis.

As armadilhas

Uma visão ideológica não prescindi de algumas pequenas armadilhas, pequenos jogos de espelhos mentais que garantem uma visão parcial da realidade ampliadas por extrapolações convenientes. Sem esta dose de verdade - ou para ser mais preciso esta meia-verdade - a irrealidade ideológica não poderia ser enxergada como se fosse o real, o óbvio.

Ideologia é sobretudo uma forma como a realidade é interpretada, a forma como se decodifica as sombras que passam no fundo da caverna e como estas tornam-se símbolos providos de sentido. Assim a mídia é mais eficiente na medida em que parte de fatos concretos, de pequenas migalhas de realidade para construir este mundo irreal.

A espada do Islam

No caso do Islam são muitas estas migalhas. Começam, por exemplo, com a imensa quantidade de conflitos inter-civilizacionais envolvendo muçulmanos. De um total de 50 conflitos etnopolíticos entre 93 e 94 Huntington contou 26 envolvendo o Islam, dos quais 15 intercivilizacionais de um total de 20. (ver Tabela II - Conflitos Etnopolíticos 93-94 e Tabela III - Conflitos Étnicos 93)

Este elevado número de conflitos fornece muita matéria-prima para o noticiário - e consequente para a reprodução ad infinitum dos estereótipos do muçulmano. Poucas vezes estes conflitos são analisados em função da realidade histórica e geopolítica no qual se encontram, no contexto, por exemplo, das grandes linhas de fratura intercivilizacionais que unem e separam muçulmanos e ocidentais.

Eles quase nunca são enxergados, também, à luz do processo de dominação colonial e imperialista que algumas vezes traçou fronteiras artificiais e outras roubou das sociedade muçulmanas seus valores - tanto morais como econômicos - condenando-os por tentar recuperá-los. Também ignora que na imensa maioria destes conflitos o agressor não foram os muçulmanos.

Dos 50 casos tabulados por Gur e dos 59 contados por Huntington há menos de 20% no qual muçulmanos agiram como agressores. Algo não notado por eles é que mesmo nesta minoria de casos a religião não desempenhou nenhum ou pouco papel na agressão.

Payne cita como elemento tanto de apreensão como prova desta "vocação militarista" do Islam a alta proporção de soldados nos países ditos islâmicos bem como seus elevados orçamentos militares. O fato verdadeiro esconde outras realidades por detrás deles, como por exemplo a existência de permanentes ameaças externas nestes países e o fato dos mais militarizados estados islâmicos serem laicos e ocidentalizados, como a Turquia e o Iraque. Isto para não falar dos "estados de bunker" citados por Huntington e mantidos, basicamente, pelos interesses ocidentais na região.

O Iraque, por sinal, oferece uma ótima oportunidade para se analisar este processo de construção ideológica na mídia. Saddam é um governante laico que comanda um partido - o Ba'hat - fortemente laicizante que em linhas gerais segue o modelo kemalizante. Armou-se em grande parte com orientação e financiamento ocidental e impelido por eles iniciou a guerra contra o regime iraniano.

Uma pesquisa nos jornais ocidentais sobre Saddam antes da Guerra do Golfo revelaria muitos elogios do ocidente ao esforço do líder iraquiano para "tirar seu país do atraso" e combater a influência religiosa. Na iminência da Guerra a imagem vai sendo transformada na de um governante fanático, coisa que Saddam nunca foi, e a mídia o converte de ateu em líder muçulmano.

Enquanto foi fiel aos interesses geopolíticos ocidentais Saddam teve toda liberdade não só para armar-se até os dentes como para oprimir a importante minoria curda no norte e a maioria xiíta (51 da população do Iraque é xiíta) do sul.

Quando avançou sobre as reservas do Kwait - virtual protetorado ocidental como outros regimes do golfo - tornou-se então o alvo da mídia que para tentar justificar a guerra em termos ideológicos - ocultando seu caráter puramente econômico - apresentando-o como um campeão do Islamismo. Engodo tão eficiente que até mesmo muçulmanos de diversas partes do mundo aderiram a ele.

Fundamentalismo Islâmico

Outra armadilha muito útil à construção ideológica, amplamente utilizada pela mídia, é a generalização. Através dela a diversidade do Outro é reduzida ao mínimo facilitando a substituição dos seres humanos reais ao estereótipo conveniente tanto à condenação do membro de outra cultura como ao reforço dos valores da sociedade à qual se pertence.

A releitura de culturas locais muito diferentes, as divergências teológicas e de jurisprudência do Islam associadas à inexistência de uma hierarquia eclesiástica muçulmana, as múltiplas influências culturais, a multiplicidade de linguagens, entre outros fatores, dão ao Islam uma enorme variedade. Ainda que haja continuidades do Marrocos à China e da Ásia Central à África Subsaariana, há também evidentes diversidades que constituem uma rica variação de subculturas dentro da cultura islâmica.

Lidar com esta variedade é um problema para a mídia, ela portanto simplesmente a ignora a não ser para destacar algum aspecto negativo em um ou outro caso ou um "enfraquecimento do Islam". Ela também aproveita desta diversidade para dizer que há "bons muçulmanos", não por mera coincidência sempre os moderados extremos e quase sempre aqueles que esforçam-se por ver no Islam apenas uma devoção particular.

O evidente confronto desta generalização com a realidade fez com que se limitasse a sua abrangência através de um outro rótulo vago e genérico, mas menos abrangente que o do Islamismo; o chamado "fundamentalismo islâmico". Mas igualmente aqui o rótulo é aplicado a tantos grupos tão diferentes entre si, tão diversificados em seus objetivos e meios que a utilidade dele é amplamente questionável.

Contudo o rótulo tornou-se tão popular - graças ao que Lawrence chamou de intricada interface entre a Torre de Marfim Acadêmica a imprensa sensacionalista - que já não pode ser ignorado nem pela comunidade acadêmica. O próprio Lawrence, mesmo enxergando todas as suas limitações, não é capaz de prescindir dele no seu livro, certamente um dos mais importantes textos atuais sobre os Fundamentalismos.

A generalização do uso do termo tem causado significativa confusão, transformando qualquer movimento revivalista religioso, especialmente muçulmano, em um movimento "fundamentalista". Às vezes, como demonstraram Sposito e Said, com motivações muito materiais e concretas como a manutenção dos investimentos militares pós Guerra fria através da construção de uma nova ameaça que substitua a "ameaça vermelha".

A rigor a produção acadêmica tem feito uma distinção entre o Fundamentalismo e o Revivalismo religioso levando em conta o caráter nitidamente político do primeiro como fez, por exemplo, Lawrence ao dizer que o fundamentalismo se relaciona à esfera política mais do que a religião em si. Esta distinção, por sinal, é parte do mecanismo da mídia para separar os "bom moços" dos muçulmanos maus. Os "bons muçulmanos" para a mídia são sempre aqueles que vêem a religião islâmica apenas como uma devoção particular ou no máximo como uma lei de "status pessoal". O ressurgimento Islâmico, por sinal, é em grande parte uma reação a esta visão propagada desde os períodos coloniais e assumida pela maior parte das elites nativas que emergiram dos processos de independência, quase sem exceção.

A imagem geralmente associada ao "fundamentalista", ou seja praticamente qualquer grupo que imagine que a sociedade dos países ditos muçulmanos deva se organizar de alguma forma segundo um padrão islâmico, é a do reacionário de aldeia que vive na idade Média. A maior parte dos leitores ficaria certamente surpresa ao constatar que o perfil dos grupos "fundamentalistas", incluindo os mais radicais, é composta ao contrário de uma classe média urbana, escolarizada em grande parte até o nível universitário em áreas técnicas, jovem e sobretudo laico.

O grande mérito de Lawrence foi ter detectado que o chamado fundamentalismo não é um movimento tradicionalista como o noticiário nos faz acreditar, mas uma reação moderna a um determinado projeto de modernidade. Em geral existe um forte componente anti-tradicionalista na pregação fundamentalista ao qual é dado pouca importância pela mídia porque, afinal, contraria o estereótipo. Como se verá adiante esta imagem ideológica tem importância fundamental no reforço dos valores da sociedade de consumo para a qual qualquer apego ao "velho" - seja ele em termos de idéias ou produtos porque tudo já se tornou mercadoria - é comportamento perigoso que precisa ser exorcizado.

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