Escrever!

Um dos palpites que mais dou a todos é para que escrevam. Não importa se com dificuldade, não importa muito nem o que escrevam – até porque neste caso a prática sempre leva ao aprimoramento. A prática é também uma invocação da inspiração, um exercício interno da inteligência. Até já sonhei um dia com a possibilidade de que cada morador de minha cidade tenha seu blog e, por incrível que pareça, estive várias vezes perto de colocar em prática este sonho.
Sempre fico curioso quando encontram sentidos profundos em coisas que escrevo falando de outras coisas, ou, ao contrário, quando não vêem os sentidos mais profundos aonde eles deveriam estar. Com o tempo, contudo fui me libertando da tentativa de entender isto e assim meu texto ganhou mais sinceridade. Talvez seja por isto que os poemas simbólicos que fazia antes quase nada digam a mim, enquanto textos descritivos que faço hoje sejam compreendidos como alguma experiência mística.
Nada disto se torna relevante na medida em que cada um, inclusive eu próprio, retira do texto aquilo que é significativo para si. Talvez me dê alguma responsabilidade adicional pelo que escreva, para que isto não seja compreendido de alguma forma tão deturpada que passe a ter o sentido contrário do que deveria ter, mas mesmo isto acontece em alguns momentos. Ser lido só reforça em mim a impressão, o ensinamento, sobre como as metáforas são intercambiáveis.
Contudo a finalidade essencial de escrever não é e não pode ser de forma alguma ser lido, mas o prazer deve vir da própria ação de escrever. Na medida em que existe a preocupação em ser lido surge a névoa do “tentar agradar” e ela sempre contamina o que se escreve, tira a autenticidade e a sinceridade fundamental de um texto. Ao mesmo tempo no momento em que se abandona estas outras intenções quaisquer que “sujam” o texto quem escreve recupera aquela intuição estética fundamental.
Cito sempre como grande exemplo deste processo Tolstói. Embora seja aclamado pelos livros iniciais da sua carreira, estou absolutamente certo que os textos finais, a partir de redenção em particular, o fizeram muito mais feliz e a simples lembrança de “Ana Karenina”, por exemplo, era triste para ele. Vejo o mesmo processo em Herman Hesse, como comentei há tempos. Há também exemplos múltiplos de autores que ao longo do tempo vão perdendo a inspiração, rendendo-se à tentação do sucesso, seus livros vão aos poucos perdendo a “anima” e no final tornam-se quase vazios, ou ainda daqueles autores que escrevem para serem interpretados pela crítica.
Escrever, na minha visão, é fundamentalmente um exercício para si. Se algo sairá de útil ou belo do processo é algo que não cabe decidir, no máximo haverá momentos nos quais se contempla o que foi escrito e chega à conclusão que a inspiração passou por ali, de tanto ser invocada, então o resultado é muito superior àquele que quem escreve poderia obter.
Pessoa dizia que escrevia porque era inevitável, publicava proque esta era a regra. Penso que há muita sabedoria nisto e nestes tempos de internet, na qual publicar deixou de ser um luxo reservado a poucos mas uma possibilidade aberta a todos a regra se tornou ainda mais flexível. Mas escrever é tarefa que cabe também a nós, pobres mortais sem o talento de Pessoa, independente de sermos lidos ou não escrever significa refletir sobre o que está a nossa volta, sobre as nossas impressões, sentimentos, questionar a nossa própria racionalidade e nossas razões. Ao mesmo em uma escala mínimo é um exercício da inteligência que nos eleva um pouco acima, desperta nossa consciência.
Para mim, que não busco o conhecimento, mas esta benção que é a ignorância, a incapacidade de enxergar a infinidade de coisas que há neste nosso mundo, escrever também se torna uma forma de desconstrução, de descascar a realidade na esperança de encontrar este desconhecimento da nossa realidade. Desconheço os caminhos que poderiam levar a este vazio, mas estou certo que a sinceridade é a trilha, sempre, em tudo. E ser sincero é o segundo palpite que dou a quem escreve, caso contrário de nada valerá.

Comentários

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Sinceridade!

O que mais me chama atençao no que você escreve e justamente isso, Sinceridade! Não deixe de escreve nunca!! Você e merecedor dos dons que Deus te ofertou.

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