Notável a escassez de acontecimentos ou crises existentes nas nossas histórias; pouco exercitados de espírito temos sido nós; quão poucas são as experiências que temos amassado. Gostaria de assegurar-me que me desenvolvo a olhos vistos e pujantemente, embora o meu próprio desenvolvimento perturbe essa frouxa equanimidade — embora seja com luta através de noites longas, sombrias e sufocantes, ou zonas de sombras. Bom seria se todas as nossas vidas fossem até uma tragédia divina, em vez dessa comédia ou farsa trivial.” (Thoreau, Andar a pé)
Equilíbrio é palavra que anda fácil pelas bocas, quem é que pode ser contra o equilíbrio? Mas ao mesmo tempo o que é o equilíbrio?
Com certeza não é aquele morno que enojava Jesus, desconfio que nem mesmo é a Áurea Mediocridade de Aristóteles. Um pouco continuando a toada de ontem tenho de dizer que equilíbrio não é ausência de conflito, para que exista equilíbrio é necessário que ao menos duas forças de sentido diverso estejam em disputa. Diria que é quase um conceito geométrico envolvendo vetores e bissetrizes, tal como vejo o conceito e como parece deixar claro sua própria etimologia.
Os santos - aqueles que segundo as tradições judaicas, cristãs, muçulmanas, hinduístas, budistas e demais que emanam do centro justificam a existência do mundo – não precisam de equilíbrio e nem podem tê-los pois só há neles uma vontade já que o ego ali foi aniquilado.
O equilíbrio só pode ser um dilema para nós das demais castas – e esta não é uma questão de status, basta lembrar que no
Baghavad-Gita Krishna encarna como um xátria, um guerreiro, não como um brâmane de casta hierarquicamente superior porque seu papel requeria a luta para restaurar o equilíbrio, enfim, não era tarefa pra santo..
Ao, particularmente, sinto enorme dificuldade em atingir o equilíbrio, convivem forças de vetores muito opostas dentro do meu cotidiano. Um espírito sereno, precavido e cerebral tem de discutir em tumultuada assembleia com uma alma irrequieta, voluntarista, ansiosa, intuitiva; ou vice-versa, quem pode saber.
Com a coragem de um ou a calma de outro desconfio que poderia ir a qualquer lugar. A dificuldade é conseguir fazer o outro seguir seus planos intricados e detalhadamente traçados ou o outro ser capaz de saltar como pantera sobre as oportunidades do “momentum”.
Eles só tem em comum este gosto pelo trágico, sempre tendendo ao tragicômico, a transformar em grandes dilemas dignos de batalhas e/ou debates infindáveis, tendendo ao bizantinismo. Curioso que este processo todo não me faz sentir dissociado, ao contrário me faz sentir com muita clareza minha unidade, muito mais do que nos momentos que me fecho no silêncio e nos sonhos campestres, quase bucólicos. Fossem eles menos trágicos e era até capaz de eu achar o equilíbrio é isto.
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