Entre escravos

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411181-Djinn_largeTornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

(...)

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
” ( Fausto, Goethe)

Houve tempos nos quais podia escrever para outros um texto do qual discordasse, de forma rápida e praticamente indolor. Este exercício foi ficando cada vez mais penoso e ainda embora ainda seja capaz deste ofício de ghost-writer confesso que o resultado é um produto sem sem alma. Pateticamente percebo que muitos, em especial os clientes, não percebem a diferença .

A quase ninguém posso explicar a diferença e a dificuldade de executar estas tarefas hoje em comparação com o passado . Na verdade jamais escrevi aqueles textos, eles eram obra de um djinn escritor que mantive como escravo em uma garrafa por muitos anos e em um momento de grandeza ou fraqueza libertei.

Há tempos ele não me faz uma visita, não por descaso ou ingratidão, mas pela multidão de tarefas acumuladas em tantos anos de seu cativeiro. Mas cada vez que ele aparece me inunda de uma sabedoria tão profunda, uma análise tão sagaz e uma sinceridade tão acirrada que me dá remorso tê-lo usado de forma tão vil em tarefas tão banais . Se um dia eu também for livre como ele sei que não serei tão sábio porque não tenho os milhares de anos da sua experiência, mas espero espelhar-me na sua independência de espírito e julgamento.

Na última vez que ele apareceu debruçava-me sobre um texto árido, daqueles que só com muita dificuldade se consegue encaixar um ou outro oásis sabendo que serão exatamente os oásis os primeiros a ser violentamente podados pelo cliente. Quando a nuvem se materializou naquela enorme figura azinhavrada fui tomado pela saudade dos velhos tempos, quando bastaria incumbir o djinn da tarefa e colher os resultados e elogios.

-Assalamu 'alaikum – Cumprimentou ele com sua voz de toró.

-Alaikum us Salam – Respondi – que bons ventos o trazem?

-Só passando para visitar um velho amigo, meu caro – Disse ele com uma expressão que deixava claro que a visita tinha um motivo muito diferente.

-É um mundo curioso quando ex-escravo e ex-amo podem se chamar de amigos – Comentei, já nem tão animad com a visita porque senti nele um ar de recriminação.

-Quem anda com um ar de escravo é você, tantas correntes que nem saberia por onde começar se fosse soltá-lo.-

-É preciso ganhar a vida, você é um djinn, não tem como avaliar com é difícil a vida de um humano, com tão pouco tempo de vida para fazer tantas coisas e ainda assim tendo de ter como preocupação principal a sobrevivência.

-Você fez quarenta anos, passou d idade na qual os pecados são pesados com pesos mais leves e você mesmo disse que se a finalidade da vida do homem é enriquecer a memória emotiva de Deus não há pecado pior do que ser chato.

-Bom, se estou sendo chato o que você está fazendo aqui, ninguém pediu para você vir aqui se aborrecer e já abri mão do poder de invocá-lo para qualquer coisa – Falei meio sem paciência de ouvir o sermão que eu sabia por onde andaria e em que destino chegaria.

-Lembra quando se mudou para São Paulo e ficava perdido pela cidade a cada vez que ia a um destino diferente proque ao invés de seguir as placas para um local ia a todo momento mudando o trajeto para seguir uma placa para um local diferente, mais próximo ou mais fácil de chegar? Você anda fazendo a mesma coisa com a sua vida.

-Arco com as consequências dos meus erros – disse, em mais uma tentativa de encerrar a conversa.

-Não consegues decidir se é brâmane, guerreiro, político, monge, escritor, jornalista ou seja lá o que for. Acaba sendo levado pelas circunstâncias e dando muita importância a coisas secundárias , fica cheio destas susceptibilidades que te irritam e fazem tanto mal para você, te distraem d seu trabalho sério. Se a questão fosse só sobreviver seria fácil para você lidar com estas coisas, e eu sei bem como funciona isto proque tenho milhares de anos de escravidão que não quebraram o meu espírito.

-Um humano é um humano e um djinn é um djinn! Não venha comparar a sua escravidão à minha proque são coisas diferentes.

-Se a tua intenção fosse só ter a tua tranquilidade para fazer as coisas que precisas e sobreviver tudo seria muito mais simples. O problema de verdade é que lá dentro tu és  escravo de tuas ambições, não adianta dizer o contrário, tu queres ser grande, mas pelos motivos errados, pelos métodos errados e por causa disto não consegues te engrandecer pelos motivos certos.

-Este seu monólogo está irritando, simplesmente ignora o que eu falo e continua com este seu sermão.

-Se eu abro espaço desvias o assunto da conversa para o que te interessa e não para o que é importante. Não vais me prender com os grilhões destas tuas faltas questões, já estive acorrentado por séculos demais. O teu problema é apenas escolher o caminho, qualquer outra questão é tergiversação.

-Sabe quanto acredito que é o caminho que nos escolhe.

-Até para que o caminho te escolha deves saber para onde queres ir. Estás sempre mudando de objetivos, sempre alterando as tuas prioridades. O caminho já te escolheu, mas sempre rodas em círculo procurando atalhos.

-Temos de enfrentar os desafios que se colocam na nossa frente.

-Desafios que tu mesmo te colocas por ambição ou vaidade, porque não consegues ficar quieto fazendo o que tens de fazer. Na verdade és quem duvida do poder da palavra que tanto invocas. Deveria ser uma honra e um desafio suficiente trabalhares teu dom, mas estás sempre caçando miragens e trocando o essencial pelo acessório.

-Você faz parecer tudo muito simples, a realidade é mais complicada.

-Nem tu mesmo acreditas nisto, é até impiedade falares assim, tu que sempre foste tão protegido – Disse ele com a cara amarrada enquanto sumia no meio da nuvem, me deixando com ainda mais coisas para pensar, mas ao menos com uma boa história para contar no blog com se fosse ficção.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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