Empatias
Podem não acreditar, mas me considero quase feminista. Não significa que endosse tantas teses que circulam por aí e que acho que hoje em dia nem as mulheres levam muito a sério. Sempre achei, e acho cada com mais convicção, que as mulheres seguiram em algum momento um caminho equivocado, masculinizaram seus sentimentos e passaram a copiar padrões e modelos masculinos, sem perceber que esta é também uma prisão.
Talvez tivessem resultados diferentes se ao invés de passar a uma escravidão a outra tivessem tentado libertar o homem de seus modelos estereotipados de sensibilidade, torná-lo livre das necessidades de auto-afirmação. Se isto teria sido possível eu não sei, mas em 77 ainda era a esperança desta grande voz feminina que foi Anaïs Nin.
Tenho muito orgulho pela forma como soube que eu e ela compartilhavamos o mesmo pensamento, mesmo antes de eu a ler. A li justamente porque em uma discussão sobre estas coisas, lá pelo começo dos 90, a pessoa me pergunta se eu tinha lido Anaïs, porque ela dizia a mesma coisa e ás vezes até um pouco com as mesmas palavras. Eu disse que não conhecia e dias depois ganhei o livro. Também o segundo livro dela que li, um volume dos Diários, me foi emprestado – meu Deus, até hoje não devolvi – porque comentei anos depois que achava que o filme “Henry e June” fugiu dos padrões que a própria Anaïs havia descrito tão bem no primeiro dos ensaios daquele livro – o que eu tinha lido antes – sobre a literatura erótica feminina.
Não concordo totalmente com ela nesta questão, penso que a distinção entre pornografia e erotismo não está na linguagem, nos cenários, na existência ou não de alguma relação de poder envolvida nas descrições. Para mim a distinção esta em ser uma relação entre um casal que se ama, para mim sagrada e lícita, ou alguma coisa casual, fruto das paixões do self por si e contaminada, na verdade, com uma noção da relação como algo sujo e impuro.
Mas isto é outra discussão, na qual eu mesmo não me sinto convencido, tanto que mantenho escondido um blog no qual escrevo textos que a imensa maioria, inclusive minha namorada, considera pornográficos por conta da linguagem pesada.
Uma terceira vez Anaïs passou pelos meus pensamentos quando uma amiga com quem eu discutia a autora me provocou, dizendo que os homens até podem gostar de ler Anaïs, mas não suportariam que a mulher deles escrevesse como ela. No meio da provocação da frase não consegui chegar a uma conclusão, acho que as várias personas ficaram um tanto confusas naquele momento, é evidente que confusas em relação ao processo criativo, porque o comportamento idêntico seria, claro, intolerável – fosse para um homem ou para uma mulher, portanto não é uma questão de machismo - já processo criativo é coisa distinta.
Eu, muitas vezes já fui tolhido no meu processo criativo, render-me às pressões de um amor ciumento foi algo que fiz sempre com dor, dores que forram sempre crescendo, me dilacerando até que no final, quando ficaram insuportáveis substituiram a dor do fim pela alegria de ver o sol brilhar em mim de novo. Neste sentimento foi que sempre busquei a resposta á provocação da minha amiga, porque afinal se a minha regra ética e não fazer aos outros o que não quero que seja feito comigo inflingir esta dor em outro seria hipocrisia. Estando certo do amor, o ofensivo seriam os sentimentos que vem do self, o orgulho, a preocupação eventual com a imagem, enfim, resquícios da necessidade de auto-afirmação.
Voltei a pensar bastante nisto há alguns dias, quando senti uma profunda empatia, reflexos de minhas próprias experiências, quando uma grande amiga eliminou algumas coisas que escreveu com muito talento, por amor. Curioso que acho que todos os leitores e leitoras sentiram muito mais todo o valor do sacrifício dela do que aquele que recebeu tal homenagem e declaração de amor.
Quem escreve, ainda mais quem escreve bem, sempre está sujeito a ter pessoas que gostem de ler e ganhe admiradores. Quando o ciúme vela os olhos do outro que vê nestas manifestações de apreços subterfúgios e desculpas a vítima, o ofendido é na verdade o trabalho, ele é que é desmerecido, desvalorizado, se nega que ele tenha valor quando se vê no comentário a ele um simples pretexto. É como se fosse dito a pessoa, “o que você escreve não vale nada, estão de olho é em você” e quem cria deve saber que insultar o trabalho em ofensa muito mais grave do que insultar o autor.
Hoje a minha namorada postou no blog dela um texto tão diferente no estilo de Anaïs mas tão similar no tipo de sentimento e sensibilidade que aquela provocação ganhou tanta materialidade que evaporou no ar e quase nem hesitei em ficar muito orgulhoso, mas muito orgulhoso mesmo, dela, principalmente, mas também de mim.

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