Eminências podres
Eminências podres
Leio na crônica de Cony hoje na Folha i a frase de que “Todos os petistas envolvidos no esquema de corrupção, lá atrás, nos começos das militâncias, foram idealistas, (...)Tudo boa gente, disposta a sacrificar a própria vida pelo ideal de justiça social e pela ética na vida pública”. Mesmo sem levar em conta a hipérbole da afirmação, gentileza que o cronista faz para ressaltar o argumento, há algo de mais preocupante naqueles cujo amor por uma idéia é tão grande que não há obstáculos que não julguem-se no direito de transpor.
O grande protótipo deste tipo de personagem é o Padre José, chanceler de Richelieu, retratado de forma brilhante em “Eminência Parda” de Aldous Huxley. Na defesa dos interesses da França e Fé Católica o padre José disseminou o horror, a fome, a guerra pela Europa, em particular através da Guerra dos Trinta Anos. É sem dúvida o tipo de coisa que aqueles que tem uma fé cega, que acham que qualquer meio se justifica em nome da causa – sempre lembrando que o infeliz maquiavel levou indevidamente a fama por este conceito dos meios justificarem os fins – costumam fazer, muitas vezes sem pensar na conseqüência.
Cony, e a maioria dos analistas, vê na crise atual algum tipo de desvio de percurso, de perda de valores. Penso o contrário, os métodos, mesmo os mais espúrios, foram a conseqüência lógica de um determinado modo de ver o mundo que sobrepõe a tudo uma determinada causa. Se houve desvios foi apenas daqueles que deslumbraram-se pelo luxo, pela boa vida, é de se temer mais aqueles que como o Padre José tem disciplina férrea em sua vida pessoal e são mais rigorosos consigo do que com qualquer outro, porque para estes não haverá nenhum obstáculo – físico, político ou moral – que os impedirá de semear a iniqüidade e ceifar os adversários.
O contraponto da Eminência Parda, o padre Urbano Grandier, pode ser encontrado em outro romance histórico de Huxley – Os demônios de Loudon – outro aristocrata de muito talento, mas vítima de suas paixões e falta de disciplina. Grandier talvez participasse das orgias na Mansão do Lago, aceitasse caros veículos importados como presente, não chegaria a encher a cueca de moedas – ação vulgar demais até para os vis – mas se divertiria com os sinais exteriores de riqueza. O Padre José não, mesmo quando obrigado a mudar-se para Versalhes a pedido de Richelieu, que o queria por perto para qualquer consulta de emergência, transformou o apartamento que lhe foi destinado em uma cópia de sua cela no Convento dos Capuchinhos.
Temos certa tendência, quase natural, a revoltarmos contra os Grandiers e admirarmos os Josés. A opulência vindo de fontes excusas dos Urbanos nos choca, talvez porque também no fundo gostaríamos de estar no lugar deles. Mas é justamente por serem escravos de suas paixões não são tão perigosos e caem por si ou levam à ruína o regime que apoiam já que o gosto pelo luxo custa curo e exige sempre mais impostos – em um processo que ninguém ainda descreveu melhor do que Ibn Khaldun. Mas os padres Josés espalham a destruição, embelezando-a como a construção de um novo mundo e muitas vezes se esquece que também Hitler era vegetariano, moderado em todos os outros apetites que não o de sangue e poder.
Admiramos aqueles cujo desprendimento demonstra disciplina porque sabemos que são seres feitos de outra têmpera que não a dos mortais comuns. Às vezes, quase sempre diria, esta disciplina está a serviço de uma obsessão à causa – qualquer que seja ela – que se transforma na cegueira que faz com que não se veja outra cosida senão o fim último desejado. Nada é mais perigoso do que este tipo de sentimento porque não há nele nenhum tipo de freio, é disto que são feitas as ditaduras, os conflitos mais terríveis, os regimes mais terríveis, os homens mais cruéis.
Mais perigosos são aqueles que até mesmo da vaidade de estarem eles no poder estão livres, tanto que o apelido dado ao nosso protótipo deste tipo de personagem - eminência parda - tornou-se um sinônimo daquele que se move por detrás das cortinas, tomando de fato as decisões que outros representam no palco. Curiosamente também se verá muito comumente que é um personagem associado a algum tipo de vivência espiritual, como no caso de Huxley e muitos outros, ou em algum modelo que tenta copiar alguns destes métodos de auto-controle, observação minuciosa, planejamento detalhado.
Com todos os defeitos que a democracia possa ter – e certamente tem muitos – só ela é capaz de lidar de forma satisfatória com este tipo de obsessão, pois ao dispersar o poder de decisão torna mais difícil o acesso e mais improvável a manutenção de algum destes loucos no controle. Qualquer outro regime ou método de escolha dos líderes sempre gerará mais oportunidades. Resta-nos a esperança de acreditar, como maquiavel, que o povo pode se enganar nas questões particulares, mas acerta nas gerais. Claro que a chance de se evitar os danos é maior quanto mais difuso estiver o poder de decisão pela sociedade e pelo Estado.

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