Eclipse!
Schuon diz que o corpo masculino simboliza a geometria que coloca ordem no caos e o corpo feminino simboliza a música que leva à transcendência. Nesta simbologia a mulher seria o centro da circunferência e o homem o circulo que a delimita, o homem é o sentido horizontal, a mulher é o vertical, duas dimensões de uma mesma unidade. Símbolos, como a poesia, não se explicam, sente-se e compreende-se ou não. Diria apenas que os símbolos não são arbitrários – como os signos lingüísticos – portanto só fazem sentido porque são verdadeiros em todas as suas expressões, inclusive as reais. Guénon dizia que a melhor forma de combater uma idéia é plagiá-la. Esta citação me veio à mente, por exemplo, quando assisti ao Código da Vinci. Nada na história é novidade para quem se preocupa a sério com o Sagrado Feminino – por sinal as divergências entre xiitas – que invocam a autoridade espiritual dos descendentes de Fatimah, filha do profeta do Islam – e sunitas tem similaridades. A incompreensão do autor, assim como de todo este novo-erismo que tenta inventar algo novo ao invés de buscar as raízes, é não ser capaz de libertar-se da visão dualista. Ying e Yang não são coisas distintas, na medida em que são vistos como forças opostas o conceito do Tao é destruído ou sequer pode ser concebido. Limitar o uno a um aspecto estritamente feminino é tão destrutivo como o contrário e não raro esconde ainda mais do que a forma chamada de “patriarcal”. Como em muitos outros aspectos penso que é o aprofundamento em um caminho que produz a compreensão da unidade, mais do que através das misturas, fusões, ecletismos e sincretismos, como uma montanha na qual há inúmeras cavernas que conduzem ao salão central. Éramos amigos muito antes de nos rendermos às evidências de que havia atração e os elos eram muito mais fortes do que poderiam transparecer naquela imagem já translúcida na qual nos conhecíamos sem máscaras, para além das personas. A maravilhosa contradição é que talvez seja o fato dela conhecer as fragilidades e sensibilidades – lembro de uma brincadeira que ela fez quando leu alguns artigos que escrevi como ghost-writer para uma cliente feminina, estranha posição esta de entrar no personagem para escrever para outros - que me deixa à vontade para ser tão masculino no momento necessário. Não contrario a zoologia, por isto não me escravizo aos papéis mas aceito - com prazer, claro – as dimensões físicas dos papéis que ela me dá. Difícil descrever esta harmonia de música e geometria, mistura de caleidoscópio e caixa de música, que nestes meses todos, com tantas dificuldades e novos problemas jamais definou ou esmaeceu. Falar de ausência de conflitos pode ser ilusório, pode vir de algum se anular ou sujeitar, ou, num estágio mais avançado, pode vir de surgirem os motivos de conflito mas eles serem resolvidos no diálogo, ou ainda de cada um antecipar as limitações e dificuldades do outro, fase que pode ser considerada bastante elevada, mas pode vir apenas da disciplina do espírito e da segurança mútua, da capacidade de agir em sincronia e avaliar tudo objetivamente. Mas de alguma forma sei que esta nossa harmonia é ainda mais elevada que isto, a ponto de ás vezes dispensar as palavras e por isto conversamos de tantos outros assuntos e tão pouco de nós mesmos.

Comentários
Dia da Mulher
Estava a procurar uma boa mensagem hoje, 8 de março, mas como de usual só encontrei as mesmas pieguices. Estava atrás de uma imagem de SARASWATI e acabei parando por aqui. Que bom! Foi bom ler conteúdo e não letras a mais.
Um abraço!
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