Direitos e deveres
Serei breve hoje porque está sendo um dia agitado para mim, com muito trabalho, mas não podia faltar a este compromisso que assumi comigo e agora com tantos leitores/amigos que tenho feito através deste meio. Como sempre o tema da segunda é política
“Se deixamos de lado todos os grupos que significam sobrevivências do passado não se encontrará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude perante a vida não seja a de crer que tem todos os direitos e nenhum dever” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)
A demagogia é a negação da verdadeira política, é a enorme irresponsabilidade de tentar livrar os cidadãos de fazer escolhas. Está na essência da política justamente a necessidade de administrar problemas ilimitados com recursos limitados, tire-se isto cedendo aos canto de sereia do “tudo ao mesmo tempo agora” e se terá um exercício de literatura fantástica, no caso das utopias, ou uma peça de marketing no caso da propaganda política.
Poucos, contudo, tem a coragem de dizer que as coisas são difíceis, que para investir no setor X será necessário retirar recursos do setor Y. As campanhas eleitorais listam tanta coisa entre suas prioridades que fica evidente a quem tem ao menos um pouco de bom senso que nada é de fato prioridade.
Mas não me agrada dizer coisas óbvias, daquelas que agradam a todos mas demonstram que não fui além do senso comum. É fácil criticar os políticos, falar que temos o direito de não sermos roubados, de nosso dinheiro não ser utilizado para apagar orgias no lago sul, mas, convenhamos, o Brasil não foi invadido por uma potência estrangeira que colocou títeres no governo. Quem os colocou lá foram os cidadãos e portanto a responsabilidade é unicamente nossa, de mais ninguém.
Fomos nós eleitores que votamos com a emoção e não com senso, razão, análise. Fomos nós que pouco nos preocupamos com os parlamentos na hora do voto, que não acompanhamos, às vezes sequer lembramos, em quem votamos, decidimos em função de coisas estranhas à política. Quantos de nós estariam disposto a votar em quem diz a verdade, em quem nos mostra as escolhas que temos de fazer, em quem corresse o risco de enfrentar interesses corporativas e grupos de interesse, em deixar claras as escolhas que tem de fazer?
Até quando vamos continuar acreditando que alguém vai resolver os problemas para nós? Até quando vamos acreditar que a solução dos problemas graves do país depende apenas de vontade política e não de escolhas difíceis? Quando vamos aceitar que ser cidadão não é apenas ter direitos, mas também implica em deveres, dos quais um dos principais é escolher aquele que é mais adequado para resolver os problemas concretos do momento?
A responsabilidade é tanto nossa, em um sentido abstrato, como de cada um em seu sentido e tarefas concretas. É fácil exigir saúde e educação, mas quantos de nós participam ativamente do conselho da escola com a qual tem vínculos? Quantos tentam organizar a comunidade, defender a formação de conselho de usuários nos órgãos públicos, participar destes conselhos onde existam?
Quanto de nós com condições e perfil tem a coragem de aventurar-se nesta senda da vida pública, dar a cara a tapa mas tentando construir algo? Quantos de nós tem o desprendimento de engajar-se na campanha de alguém que acredita, enfrentar as caras feias e os acomodados?
Não adianta ficar ai sentando mandando e repassando emails de revolta ou humor, dizendo que político nenhum presta – afirmação cujo corolário é que também a sociedade não presta porque os elege – ou pregando o voto nulo – suprema abstenção do dever que dá a cômoda sensação de não ser responsável pela situação toda. Se quer ter o direito a um país melhor tem de assumir os seus deveres na construção dele.

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