Da arte de construir pontes

Da arte de criar pontes

Aproveito o post sobre literatura de hoje para debater um tema que estamos discutindo em uma das poucas comunidades do Orkut das quais participo onde é realmente possível, ainda, discutir temas interessantes. a comunidade da Briva Espaço Cultural (link abaixo) . Briva, explica a organizadora, é uma palavra celta para pontes. O tema em questão é sobre a responsabilidade do artista.
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4020040

Qual é a responsabilidade de quem escreve, por extensão de quem pinta, representa, dança, canta, filma, enfim, dedica-se a arte?
Não é um tema fácil de ser tratado porque as nuances e sentidos que cada palavra pode ser pronunciada ou entendida são infinitos. Também não estou totalmente seguro sobre o quanto é aplicável do que pode ser falado sobre a literatura pode ser estendido a outras áreas. Permaneço assim no campo da literatura apenas, sem descartar nem defender a aplicação do mesmo critério a outros campos e só posso começar tentando definir o que é responsabilidade.
Pego de início dois exemplos extremos, mencionados nos debates, justamente sobre a maior irresponsabilidade humana que foi o Nazismo e cito três nomes ligados – ao menos nestas nossas associações imaginárias – a ele. Wagner, Nietzsche e Leni Reifenstahl.
As associações de Wagner com o nazismo são infelizes. É inútil dizer que sua música apregoava alguma violência tanto na forma como no conteúdo, enaltecia algum passado mitológico germânico. Ele fazia, no máximo com alguma hipérbole, aquilo que era corrente na sua época, inclusive a glorificação da guerra. Ninguém se transforma em nazista porque ouviu Wagner. Atribuir a ele a responsabilidade sobre qualquer estado de espírito é enxergá-lo com olhos fora e julgamentos posteriores.
Muito distinto é o caso de Nietzsche, que anda preocupadoramente popular na Internet, porque há uma identidade de valores entre ele e o nazismo, a negação de qualquer moral, a glorificação do direito do forte esmagar o fraco, a pregação da guerra como extermínio dos fracos e purificação do homem que caminha para tornar-se super-homem. É evidente que tal tipo de disparate só poderia atrair em todo o tempo a escória, os sub-humanos para os quais qualquer disciplina é difícil de ser atendida, para todos aqueles que mesmo desprovidos de toda autoridade querem obter na força poder que o bom senso lhes recusa. São irmãos e há uma profunda continuidade neles, ainda que o profeta alemão – em funções da sua irresponsabilidade - provavelmente jamais imaginasse que alguém materializaria seus projetos.
Entre estes dois eu colocaria a cineasta. Há nela tanto apenas a expressão de uma hipérbole – a figura preferida dos políticos e das elegias fúnebres – tanto como a valorização de conceitos morais equivocados e desumanos. O triunfo de uma vontade é sobretudo o triunfo sobre a vontade de todos os outros, em especial da diretora. Estava apenas na mão dela fazer a distinção moral entre sua estética e sua ética e basta assistir aos filmes para ver o quanto ela deixou-se invadir pela vontade do Fuher, sentiu-se uma extensão dele, não alguma pequena chama naquela escuridão.
Chego, então, exatamente ao ponto que gostaria. Toda arte tem algo de possessão, mesmo a redação do mais árido ensaio – por isto talvez os textos acadêmicos, com raras exceções, estão tão distantes de nos dar prazer, pois neles todo o mecanismo tenta exorcizar o que havia de supra-consciente na inspiração original.
Dois autores que o fato de serem contemporâneos só ressalta as diferenças dizem praticamente a mesma coisa correspondente a mesma pergunta que fazem a si mesmo, porque escrevo? Transcrevo abaixo uma pequena parte de ambos
“O desejo de lançar o mundo em determinada direção, de mudar as idéias das pessoas sobre o tipo de sociedade que deveriam se esforçar para alcançar” (George Orwell, Porque Escrevo)
“Porque as pessoas escrevem? (...) Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver” (Anaïs Nin, A nova Mulher
Cito ambos não para invocar a falácia da autoridade, para dizer que é verdade porque tal ou qual disse isto ou para demonstrar que li isto ou aquilo. Cito porque é preciso ter a humildade de reconhecer que muitas das grandes questões que nos colocam já foram tratados por outros.
E dois autores tão distintos falam de um outro mundo. Acho que este outro mundo que vislumbram é exatamente o que distingue o limite da responsabilidade.
O raciocínio não é simples, o verdadeiro artista responsável tem seu foco, sua meta, seu objetivo, seu guia, neste outro mundo que vislumbra durante o êxtase da criação. Só isto lhe dá a sinceridade, e porque não a Autoridade, para erguer uma ponte entre este outro mundo e o nosso. Todos os demais não são sinceros porque sua criação está voltada para os interesses deste mundo, pela busca do Poder e pelo alimento da vaidade de alguma forma. Os outros querem agradar, ou desagradar- o que dá na mesma – a algum poderoso, seja ele o tirano, o déspota, o pessoa amada ou o público, por isto não pode ser sincero.
É evidente que sobreviver e pagar as contas é necessário (o próprio Orwell exclui de antemão esta necessidade como um caso a parte e dedica outro dos ensaios do livro Dentro da baleia – confissões de um resenhista - a este aspecto). Para não complicar ainda mais algo que já é demais complexo e está ficando extenso demais, omito este aspecto prometendo tratar dele outro dia.
A legitimidade desta responsabilidade ou posicionamento do autor viria então do fato dele ser gerado em outro mundo, alheio à realidade deste. Alguns autores construirão pontes para que ele próprio possam chegar até este outro lugar – às vezes alguns outros poderão seguir os passos, mas nem todos. Outros, pro sua vez, fazem as pontes para que algo daquele outro mundo invada este e o faça um pouco que seja mais parecido com o outro.
A poesia, em particular, tende a estar um pouco mais no primeiro caso e a literatura no outro, mas é claro que estes nossos limites não se aplicam ás coisas que vem deste outro mundo. Mas pouco importa qual é a mão da ponte, o essencial é que ela exista e que algum intercâmbio exista porque é só através dele que se processa esta mudança do mundo do qual ambos falam, qualquer outra tentativa de modificação é fútil, infrutífera ou produz os efeitos contrários.

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Ponte - criar transformando

Passeando pela mesma ponte, sentindo o peso de uma pedra imensa sobre os ombros e desejando fazer arte autêntica e transformadora, eu olho o morro acima e quase me pergunto se vale a pena todo o risco de abalar alicerces de opiniões antiquadas e omissões consentidas pelo prazer de criar.
Mas quem disse que faço arte por prazer? Ela acontece por necessidade de entender o mundo com tudo o que existe de caos e desumanidade. E se me ajuda a enteder pode bem servir de espelho a quem consome essa mesma arte. Do mero reflexo à necessidade de mudança, pode ser um grande caminho, outras pontes a se construir.
Fundamento a minha responsabilidade de artística na necessidade absoluta de questionamento e mutação, minha e do outro. Não quero o teatro estéril, não o quero moralmente mutilado e formatado pra caber no sistema.
Irresponsávelmente, assumo a missão de interpretar o mundo.

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Márcia Nestardo

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