Cosmogonias, mitos e o defeito do tapete
Não tenho nenhuma simpatia por estas tendências contemporâneas que tentam justificar ou legitimar a religião a partir de seu cotejamento com os dados científicos do momento. Grosso modo foi este tipo de disparate que fez com que várias passagens de vários livros sagrados fossem interpretadas literalmente e os conhecimentos científicos da época transformados em questão de fé, transformando – só para citar um dos exemplos mais famosos – a hipótese científica antiga da terra ser o centro do universo em uma verdade teológica.
Ciência e Religião pertencem a universos e ordens de grandeza distintas, uma fala do efêmero e outra do eterno, a mistura das duas certamente não produz nada de produtivo. Para quem acredita que um determinado mito – e mito não significa como usualmente se usa hoje, mentira, mas uma verdade cuja expressão transcende tempo e espaço e não pode ser descrita com precisão através de palavras - ajuda a compreender o universo é irrelevante saber se há pontos de contato entre esta história e as últimas modas científicas.
No sentido oposto desta relação, os mitos até podem ajudar a orientar a ciência, não quando tratados como hipóteses, mas orientando a pesquisa segundo a linguagem e as técnicas próprias da pesquisa. Contudo como este é um terreno meio pantanoso é melhor deixar uma longe da outra.
Isto não me impede, porém, de observar com interesse os avanços científicos e as sucessivas teorias – diria que certo conhecimento tradicional faz com que não só eu não me surpreenda como até espere alguns resultados. Em particular as hipóteses sobre a criação do universo – em certo sentido é justamente das cosmogonias que o mitos são feitos e reatualizados – oferecem algumas oportunidades de reflexão bem interessantes.
Não entro em detalhes muito específicos porque estes a todo instante mudam, mas me prendo particularmente a um dos fatos. O Universo não surgiu por ser um todo harmônico – como crêem todos aqueles que por uma leitura muito literal imaginam a ordem de outras esferas como algo que se espelha aqui também.
Aquilo que é perfeito e está em ordem não se movimenta. É justamente a imperfeição, um ponto de caos, um desequilíbrio mesmo que mínimo, que faz com que as coisas funcionem. A mínima dimensão dos desequilíbrios que puseram o universo em movimento e o fizeram ser o que é não pode deixar de lembrar de certas teses tradicionais, como as que destaquei no post “O Defeito do Tapete” – porque também o tapete persa é uma imagem cosmogônica.
Nada disto tem a ver com no dualismo – como dizem aqueles que só entendem o Tão superficialmente, por exemplo – e muito menos com algum maniqueísmo. As forças de criação e destruição não são coisa distintas, mas parte intríseca de tudo. Não fosse uma mínima desproporção entre matéria e anti-matéria e o universo não existiria, assim como outros mínimos desequilíbrios produziram as vária outras etapas que acabou levando as coisas a serem como são. Também a luz, as estrelas, os elementos, os planeta e enfim a vida chega a existir pelos desequilíbrios, pelos defeitos do processo que criam em algum momento uma situação nova, uma crise que não pode ser respondida pelo funcionamento normal. Como a ciência que lhe espelha, o universo é a sucessão de modelos que fracassam e de novos ajustes que surgem.
Estes desequilíbrios, estas interações entre ordem e caos – como está em moda dizer hoje, esquecendo-se que todas as religiões e doutrinas tradicionais já mencionam isto e nos mitos o mundo sempre é fundado pela luta das personificações de ambos – enfim, este movimento não é bom, nem ruim, é apenas necessário para que o universo e tudo que há nele exista. Isto não impede nem prova que haja outras esferas nas quais o movimento não exista, um mundo de idéias platônicas, de arquétipos. A ciência nos fala deste mundo que se compõe e decompõe, os mitos daquele outro mundo e de como a partir dele se criou este.
Há fascínio e espaço suficiente nos dois para que se deseje empobrecer algum dele com explicações simples. Acho que é mais uma “dualidade” minha a ser encontrada nesta dupla fascinação.

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