A conferência II
Ninguém odeia tanto quanto eu as histórias em pedaços e se parei de assistir algumas excelentes séries de TV foi justamente porque me irritava profundamente aquele “to be continued” no final. Acabei tendo de fazer isto ontem e talvez até faça de novo hoje.
Resolvi quebrar aquele clima denso tratando a conferência como um reunião de pauta normal, de mais um dia, na verdade pressinto que eu mesmo não estou totalmente convencido de que não precisarei mais da ajuda do djinn.
Bom, sobre o que falaremos hoje, alguma sugestão de vocês?
Tem aquele comentário sobre a antologia de histórias de robô organizada pelo Asimov que há tempos leu e até hoje não comentou – diz o djinn, com certo ar de indiferença.
Porque não escreve mais uma história sobre o imbecil, estou certo que o texto sobre o “imbecil afetivo” está pronto na sua cabeça. Assevera Hilal.
Dou de ombros e mostro indiferença às duas sugestões. Nenhuma das duas me motiva, no final acho que cada um puxa a brasa pra sua sardinha, quer se mostrar importante no meu processo criativo. Sou apaixonado por ficção científica, acho que é o gênero que substitui as utopias e os relatos de viagens fantásticas nesta nossa era de modernidade, mas ando meio individualista demais para pensar nisto hoje. Também sei bem aonde Hilal quer chegar, sabe que se a discussão vai pra onde ele quer logo surgirá o assunto da libertação do gênio.
Percorro a sala com os olhos, me fixo nos olhos ansiosos do djinn. Engraçado como nunca o percebi como um escravo, lembro de um verso que escrevi há tempos - “vil como ter um escravo”. Meu xingamento preferido é considerar algo ou alguém vil, na minha opinião resume toda a falta de qualidades, toda baixeza, toda ausência da verdadeira nobreza.
Que tal escrevermos sobre um debate se o djinn deve ser libertado ou não? Atiro no meio do debate o tema no qual os três estão pensando e me divirto com a reação dos dois. Não é fácil surpreender Hilal, que me conhece tão bem, até nos meus defeitos, mas desta vez consegui.
Ahahahahaha, vou pra fila do seguro-desemprego, gargalhou o djinn, não com aquela gargalhada terrível, meio infernal que tem os de seu povo, mas com um riso quase humano, de alegria.
Penso em como ele acabou se humanizando nestes anos todos. Em quanto me assustei quando vi pela primeira vez no lugar do meu reflexo no espelho aquela carantonha verde. Em quanto me encantei e me senti seguro quando ele nem ligava para o tumulto em volta e produzia um texto que tirava exclamações de todos. Em quando me senti livre de um fardo quando ele escrevia como se ainda acreditasse sobre assuntos que se tornaram prosaicos demais para mim. Em quanto eu ficava tranqüilo sabendo que mesmo quando estava muito mal ele faria meu trabalho por mim. Ter um escravo também é vil por conta disto, nos acomodamos quando alguém faz nosso trabalho por nós.
Curioso que não me lembro tão bem quando Hilal chegou ou despertou. Aquela estranha sensação de excesso de sensibilidade que tenho quando é ele que escreve, que ás vezes até me faz chorar, é antiga, mas não sei se já era ele. A primeira vez que me lembro de ter conversado com ele de uma forma bem concreta foi quando quando comecei a escrever o Exílio Ocidental, um dos muitos textos mais longos que sobrevivem inacabados.
Faz pouco mais de um ano, em um daqueles alarmes falsos nos quais achava que voltaria a meu estado normal e retomaria o controle da minha vida, o que só aconteceu mesmo um ano depois, quem sabe se na época tivesse terminado o texto teria me restaurado antes, mas não reclamo porque tudo acontece no momento certo. Mas sei que ele me acompanha há muito tempo, em todos os momentos nos quais fui tomado pela coragem, nos quais minhas palavras podiam correr soltas e livres, não para impressionar, não pelas recompensas, mas porque tem de ser ditas.
Também me lembro com clareza do momento no qual ele aflorou por completo, naquela jornada pela madrugada de São Paulo há poucas semanas, quando andei de madrugada pro lugares nos quais não andaria à luz do dia. Naquele dia entendi meu papel para poder livrar-me de todos os papéis, precisei de outros dias e outros momentos para permitir que ele assumisse o controle, mas a sensação de perder os medos que ele trouxe livrou-me das aflições.
Quando o djinn se for, quem vai escrever sobre política, por exemplo – diz Hilal em um tom provocativo, só para revelar como ele me conhece tão bem.
Os leitores, que já são poucos, vão achar você um chato, sem os adornos desta minha erudição de quem passou séculos na garrafa sem ter outras coisas a fazer senão ler – Comenta o gênio, competindo com Hilal para ver quem me entende melhor, mesmo contra seu próprio interesse, vítima da sua própria vaidade, como eu, ás vezes.
Vocês são dois tolos, no fundo, sabem que deste jeito não me tiram nada, faz tempo que deixei de fazer as coisas para irritar alguém. Comento meio exasperado com a maneira primária com a qual eles me enxergam, confesso que as vezes até Hilal tenho vontade de mandar embora porque dar vazão a ele às vezes me oprime um pouco, preciso também ser humano.
É muito suscetível, incomoda-se muito com a reputação, às vezes, ainda não se libertou de toda a necessidade de auto-afirmação – Diz Hilal com certo sorriso irônico e irritante – quando conseguir escrever sem pensar o mínimo no que vão achar do texto então estará pronto para seu trabalho.
Também não tem ainda toda a coragem que precisa para sempre fazer o que precisa, ainda se apega a muita coisa ilusória, Por isto não tem coragem de me libertar, ainda gosta das histórias de faustas cortes que lhe conto – Atira o djinn, para dizer que o verdadeiro prisioneiro sou eu.
Não é verdade – falo meio indignado porque receber lições de moral de um djinn cínico é demais pra mim em um dia como hoje – já sei bem o que quero.
Não pode mentir pra mim, entre o Poder e a Autoridade ainda tem oscilações, seus olhos ainda brilham quando vê uma perspectiva – entra Hilal na conversa, com um tom meio compassivo que me irrita muito – não se decide a ser para si mesmo ou para os outros, se estivesse decidido jamais se exasperaria com coisa alguma, nem teria medo de defender com mais força suas posições ao invés de irritar-se.
A conversa hoje é sobre a libertação do djinn, não sobre a minha, não desviem o assunto – corto a conversa com firmeza, de uma forma que eles sabem que não conseguirão nada além de me irritar se insistirem. Preciso de mais uma noite de bom sono, meditação e relaxamento antes de compreender bem o que preciso fazer, se ao menos a Cláudia estivesse aqui do lado, saberia que meu pensamento estaria mais aguçado.

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